O nosso time só perdia. Com sorte, arrancava um empate. Mas, pela primeira vez, a gente tava numa final. E eu que tinha que marcar o cara.
O cara era o melhor jogador do campeonato. Todo mundo falava que a gente ia levar uma sapatada.
O cara era o camisa sete, truncado, fortão mesmo. Corria feito um condenado.
Eu olhava o cara chutar a bola do outro lado da quadra e quando a bola batia na parede do ginásio parecia um trovão. Minhas pernas tremiam, porque eu tinha que marcar o cara.
Eu lembrava do Zé Antônio me chamando no canto, um pouco antes, ali no vestiário, quando eu nem tinha colocado o meião e o tênis, molhado o cabelo, vestido o uniforme, combinado umas jogadas e a gente nem tinha rezado, não tinha feito nada ainda; e o Zé Antônio me chamou no canto, mexeu nos óculos enquanto disse, sério, que eu tinha que marcar o cara, ir onde o cara fosse, não podia, de jeito nenhum, dar espaço pro cara, não podia deixar o cara chutar, não podia deixar a bola chegar no cara, eu tinha que marcar o cara.
O cara era o artilheiro do campeonato, uns oito gols à frente do segundo, e diziam que o cara tinha até passado na peneira do América, ia virar profissional, o cara; que no futebol de campo o cara era ainda mais largo que no futsal. O cara era fodão mesmo, e eu tinha que marcar o cara.
Uma menina, que eu gostava, tava sentada na arquibancada, e eu tinha que marcar o cara.
Eu tinha assistido a outra semi-final. O time do cara ganhou de goleada, sem qualquer dificuldade, com quatro gols do cara. O cara pedalava pra caralho e, naquele tempo, pedalada nem chamava pedalada, e eu tinha que marcar o cara.
O Henrique, que era maiorzão, que devia marcar o cara. Eu era miúdo demais pra marcar o cara. Mas o Zé Antônio, sei lá porque, confiava em mim (talvez, fosse uma estratégia secreta, me manter longe da bola, com a qual eu não tinha lá muita intimidade, e evitar um mal maior), e afinal, eu ia fazer o quê?
Eu que tinha que marcar o cara.
Futsal você sabe como é. Soltou a bola é só correria. Os quatro jogadores com a posse de bola girando na quadra e a bola girando muito rápido de pé em pé, enquanto os quatro jogadores sem a bola ficam cercando, fechando os espaços, colados cada um num cara. Eu tava sempre colado no cara, eu não podia largar do cara.
Eu era a sombra do cara.
Quando a bola vinha pra ele, eu dava o que tinha, puxava a camisa, empurrava, enroscava nas pernas dele, saraivava as canelas do cara, chapiscava umas voadoras disfarçadas e o cara caía, reclamando; o cara levantava os braços e pedia falta, o treinador do cara reclamava, o banco de reservas do time do cara se levantava, mas era sempre na bola que eu ia, quase nunca era falta. O juiz olhava pra mim, ali no chão, enroscado no cara, e entendia, claro, que era sem maldade nenhuma, eu tinha que marcar o cara e só tava tentando marcar o cara. O juizão mandava o jogo correr e o cara ficava puto.
O juizão apitou o intervalo e nosso time tava bem empolgado. Embora o time do cara tivesse ficado com a bola a maior parte do tempo, o jogo tava bem jogado. O nosso time tava fechadinho, marcando no campo de ataque, deixando o time do cara sempre sob pressão e sem ter pra onde passar a bola. E tudo bem que o nosso time tivesse muita dificuldade em trabalhar as jogadas e finalizar. Eu, por exemplo, não finalizava nada. Meu negócio era desarmar, meu negócio era marcar o cara e eu só pensava em marcar o cara. O Henrique também pouco finalizava. Embora ele chutasse muito forte, nunca acertava o gol. Os nossos gols sempre vinham em contra-ataques rápidos, em que o Kiko, goleirão, lançava o Rodrigo ou o Enio numa jogada mano a mano com o fixo deles, caindo nas costas de um dos alas, ou mesmo cara a cara com o goleiro. Uma hora vai acontecer, o negócio é segurar. Futebol é detalhe, ganha quem erra menos, disse o Zé Antônio. Não pode dar espaço pro cara.
Eu tava com as pernas frouxas, os joelhos esfolados e a parte externa da coxa queimada de tanto sarrafiar o cara, de tanto correr atrás do cara, de tanto rodar em volta daquela quadra atrás do cara.
Quando eu me deitei no chão do vestiário, bufando, com o peito ardendo (tinha bebido uns dois litros de rum com coca na noite anterior), e disse que talvez não aguentasse o segundo tempo, que eu tava morto, o Zé Antônio, que me abanava com a camiseta, disse que eu tinha que voltar, que eu precisava marcar o cara, que não tinha ninguém pra marcar o cara.
Eu enfiei a cabeça e as costas debaixo do chuveiro e fui me refrescando e bebendo aquela água ao mesmo tempo. A sede era terrível. Minhas pernas ardiam e queimavam. O Zé Antônio batia palmas e gritava, pedia raça, vigor, força de vontade, o escambau. Eu respondi, lá debaixo do chuveiro, que eu tava morto, que tava foda, que não sabia se ia dar. O Kiko, goleirão nosso, chegou no canto do chuveiro e disse: “Tá zoando, mano? Cê tem que voltar lá. Cê tem que marcar o cara”.
Eu precisava voltar, eu tinha que marcar o cara.
O time do cara voltou dando um gás desgraçado na gente. Foi a maior pressão no nosso goleiro. Bombardearam o Kiko naquele começo de segundo tempo, sem dó nem piedade. Eles colocaram dois jogadores descansados, dois baixinhos magrelos, e começaram a girar na quadra numa velocidade tenebrosa, tava complicado de acompanhar, e quando a gente dava uma brechinha que fosse, chutavam com tudo pra gol. O Kiko rebatia, espalmava pra cima, saltava de um lado pro outro, defendia com o pé, canela, de barriga, cotovelo, cabeça ou só no golpe de vista, fosse o que fosse, mas nunca perdia a tranquilidade. Só pedia pra gente colar nos caras e a gente colava nos caras. Era foda, mas a gente se esforçava como podia pra ficar colado nos caras.
Continuei saraivando o cara. Mas o cara era fodão. E numa hora, ele investiu pra cima de mim, pedalando com uma precisão impressionante. Acho que fiquei meio hipnotizado, com as pernas girando e falseando na minha frente, feito a boca de uma colheitadeira girando na vertical, e foi aí, que eu, meio afoito, antecipei o tempo do bote, e só me lembro da bola escorrendo entre as minhas pernas, meio em câmera lenta, enquanto minha coluna travava. Foi uma bela de uma caneta, o cara era mesmo fodão. Mas eu não podia dar espaço pro cara. Não deixei ele completar o drible. Apoiei a mão no chão e lasquei uma rasteira giratória, na bola, e ele voou no chão, meio de lado e de bruços. Falta, apitou o juiz, e ergueu o cartão amarelo pra mim. A torcida vaiou. Mas o cara não se deu por satisfeito e disparou a reclamar de mim, a reclamar do juizão, a reclamar sem parar. Levou cartão também, e ficou mais puto ainda.
Eu não podia fazer nada, eu só tava marcando o cara.
Lembro que a jogada começou num lateral nosso, no ataque, o Enio tentou partir pra cima, e se enroscou com a bola, acabou cedendo lateral pra eles. Eu tava colado no cara, mas, de repente, eles giraram, invertendo o posicionamento, e numa confusão, dúvida, vacilação, entre eu e o Rodrigo, entre quem marcava quem, o Rodrigo ficou no cara e eu parti atrás de outro cara. O cara sobrou sozinho e meteu um foguete no canto, sem chance nenhuma do Kiko alcançar.
Olhei para o nosso banco de reservas na mesma hora, e lembro da cara desolada do Zé Antônio, e mesmo que ele não tenha dito nada, eu entendi, que, de certa forma, a culpa era minha, porque eu devia ter colado no cara, não podia dar espaço, não podia deixar a bola chegar no cara. Eu tinha que marcar o cara.
O nosso time não finalizava, e naquele nervosismo, muito menos. O Zé Antônio pediu tempo e disse pra gente acalmar, que não era pra desembestar pra frente, não era pra apavorar, o negócio era continuar prestando atenção na marcação e aproveitar os contra-ataques, que agora o time deles ia vir pra cima pra tentar matar o jogo, e que iam abrir espaços pra gente.
Dito e feito.
Num desses contra-ataques, o Henrique acabou saindo sozinho na ala esquerda, e o cara, que também tava nervoso, veio com excesso de vontade e levantou o Henrique uns dois metros de altura com uma saraivada. O cara já tinha amarelo, o cara foi expulso. A torcida vaiou o cara. O técnico do cara xingou o cara. O cara arrancou a camisa, bateu a porta do vestiário. Coitado do cara.
Eu senti um alívio desgraçado, feito um fardo que me fosse roubado, um peso que saísse da consciência; não era mais preciso marcar o cara. Estava livre, não havia a imposição de perseguir o cara, de não deixar a bola chegar no cara, de não dar espaço pro cara, nem nada. Mas, foi a bola rolar de novo, eu estranhei a situação. Estranhei aquela promiscuidade da marcação por setor, cada hora marcando um cara, cada hora atrás de um cara, colado num cara diferente a cada saída do goleiro, escanteio, lateral. Fiquei meio perdido na quadra, me sentia obsoleto, abandonado. Eu era a sombra do cara, e sem o cara, eu não era nada.
Cumpria a função de colar nos outros caras, cercar aqui e ali, mas era meio burocrático, não era a mesma coisa. Aquele clima de missão, combate, batalha, tinha evaporado. Eu fiquei meio confuso.
E nem o gol de empate do Henrique, que nunca acertava uma falta, e a torcida vibrando e gritando, o nosso banco pulando e todo mundo se abraçando, espantou a confusão.
O time deles não era nada sem o cara. O Enio partiu numa investida, pedalou, e provocou outra falta. E vocês não acreditam que o Henrique, que nunca acertava, acertou aquela outra falta também. Dia estranho aquele.
Daí, foi só administrar o placar e comemorar depois. Até entrevista pra rádio local a gente deu. Ainda tenho a medalha desse campeonato perdida em alguma gaveta, meio escurecida. II JAEL-Jogos Abertos e Estudantis de Luminárias-MG, Infanto-Juvenil, Campeão.
No barzinho lá da praça, mais tarde, eu vi o cara no balcão. Cheguei perto dele e ofereci um gole de rum. O cara bebeu e me cumprimentou, disse que eu batia pra caralho. Que nada, eu disse, mas que um cara assim, como ele, se a gente desse bobeira, já era. Disse que ele era o melhor cara que eu tinha marcado na vida. O cara sorriu, e disse que a gente se encontrava por aí.
Lembro que vi ele saindo do bar, pegando na mão de uma mocinha do cabelo pretinho e saindo pela rua afora. E eu pensei comigo, tá aí um cara fodão.
Num canto da praça, os caras, com a medalha no peito, me esperavam, pra gente comprar mais uma garrafa de rum.