24/12/2013

Um conto de natal


Amigos, acaba de sair a edição de dezembro da ótima revista Germina, editada pela Silvana Guimarães e Mariza Lourenço. Participo da publicação com um conto de natal. É só clicar aqui.

Abraços.


15/12/2013

"De onde vem essa certeza de que você mesmo não é o mal?"


Eu caminhava sozinho e com sono no rumo do ponto de ônibus. Eram mais ou menos 5h40. Ainda estava escuro, mas já havia muitos carros e ônibus lotados e trânsito na Av. Interlagos. Eu havia acabado de acender um cigarro e tinha muito sono. Um homem vinha caminhando em sentido contrário, displicente. Eu apenas tragava meu cigarro e pensava em conseguir uma poltrona vazia no ônibus e cochilar até o metrô. Quando o homem cruzou meu caminho, ele agarrou minha blusa na altura do peito e colocou o rosto barbudo e os olhos alucinados na minha cara. Eu quase caí de susto. Girei o corpo num reflexo e me soltei. Completamente perturbado. Como se o céu se abrisse sobre minha cabeça e uma mão gigante me pinçasse pelas costas. O coração disparou e um pouco sem ar e confuso e xinguei o sujeito e joguei meu cigarro nas suas costas. À medida que avançava, ia espiando o homem. Ele caminhava como se nada houvesse acontecido. Preso ao seu mundo (cada um no seu), catava coisas no chão e devolvia no lugar. Despareceu na dobra de uma esquina. 

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Em uma entrevista ao Wall Street Journal, o escritor americano Cormac McCarthy disse o seguinte: “Eu não acho que a bondade seja algo que você possa aprender. Se você é deixado à deriva no mundo para aprender a bondade a partir dele, você está em apuros”. McCarthy diz isso ao falar da experiência particular com seu filho. Uma experiência pessoal que foi transplantada para o romance A estrada, vencedor do Pulitzer em 2007. Ele acha seu filho tão moralmente superior a ele, que não acredita que a moralidade do filho veio da educação que ele pôde lhe oferecer. 



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A dimensão da moralidade é uma negação da Natureza. É uma condição humana. No mundo natural não há moralidade, apenas a opacidade da matéria e o silêncio indiferente dos mecanismos da sobrevivência. Para nós ocidentais frequentadores de universidades e parcamente educados em toscas noções de psicologia e filosofia moral – nessas matérias de primeiros semestres com o título de introdução – o comportamento moral e a internalização de valores ocorrem socialmente. São adquiridos. Nascemos com a condição de possibilidade de operar modelos da moralidade, através da consciência. Toda e qualquer ação moral deve ser um ato livre. Mas se a bondade for apenas ensinada, por que pais relativamente bons e equilibrados têm filhos cruéis e assassinos? 

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Se o mundo é cruel, como de fato é, como esperar que a bondade possa surgir a partir dele?


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Além das montanhas (Cristian Mungiu, 2012) é um dos melhores filmes que vi esse ano. Mungiu ganhou a Palma de Ouro pelo roteiro. E é realmente excelente. O que à primeira vista parece ser a simples história de amor mal resolvido entre duas adolescentes que cresceram em um orfanato na Romênia, acaba por se mostrar uma crítica das mais contundentes ao modo como a religião e o moralismo rígido, a despeito das boas intenções, pode facilmente produzir atos hediondos. 


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Antes de ler Meridiano de Sangue eu li Hiroshima, de John Hersey. É um best-seller. Mas para quem não conhece, trata-se de um livro-reportagem que conta a história de seis sobreviventes da bomba atômica. É aterrador. Na época que foi publicado, ocupando praticamente uma edição inteira da revista The New Yorke, a população americana não sabia exatamente o que havia acontecido com a queda da bomba e de que tipo de arma se tratava. Os próprios japoneses atingidos acharam que aviões haviam banhado a cidade com milhares de litros de gasolina e ateado fogo. Era a única forma de explicar tantos incêndios. Mas quanto à estrutura narrativa do texto, muitas vezes parece um romance mal escrito. Tudo bem. A história é tão relevante que os problemas do texto acabam indo para segundo plano. Afinal, é um texto jornalístico. O curioso é que Meridiano de Sangue, um livro de ficção (apenas inspirado em fatos históricos), me deixou bem mais perturbado que o relato fiel de John Hersey. O motivo: o texto de McCarthy é anos-luz mais vigoroso.

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Não havia assentos livres no ônibus e fiquei de pé no trajeto até o metrô. Sentia-me muito mal por ter xingado e jogado o cigarro no homem que havia agarrado minha blusa. Era um sujeito com problemas mentais, sozinho, vagando à esmo sabe-se lá à procura de quê. Quando contei a história para os colegas de trabalho, em tom de humor, fiz questão de ressaltar – foi por reflexo. Era verdade. Claro: reflexo. Mas não era suficiente. 

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"De onde vem essa certeza de que você mesmo não é o mal?" é o título de um ensaio de Jonathan Franzen, publicado na coletânea Como ficar sozinho.

15/11/2013

Sem pressa

Olhando para trás, esses 30 dias em casa se afiguram como um mísero gif de seis segundos e meio de memória, oscilando entre o resort das fraudas, a cachoeira das mamadeiras e a exploração do enigma de cada novo choro. 

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Desço do ônibus por volta de 23h15. Há sempre meia dúzia de moleques com garrafas de bebidas e skates, debaixo da marquise de um galpão abandonado. Às vezes, dá para ouvir os acordes de um violão. Barulhos de garrafas. Evito acender um cigarro, abaixo a cabeça e sigo em frente.


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A precariedade da minha memória às vezes me espanta. Esforço-me para tentar lembrar o conteúdo de duas aulas atrás. Falho com vigor. Esqueço os nomes de filmes que vejo. O enredo do livro desaparece diante dos meus olhos. É o cansaço. Talvez.

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Segunda-feira eu volto a trabalhar depois de 30 dias de férias. É sempre bom. Mas estes últimos dias acabam por evocar a ansiedade de um grande e único domingo. Um domingo do tamanho de uma semana. E a cabeça querendo penetrar nos grandes mistérios da vida: qual será o saldo do meu FGTS? O que é o tempo? É hora de começar uma previdência privada?

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PHOTOGRAPH BY J. BAYLOR ROBERTS, NATIONAL GEOGRAPHIC

É sempre uma dificuldade enorme pegar o ônibus na estação Vila Mariana. A boca do metrô vai cuspindo cada vez mais gente e parece que todo mundo sempre quer pegar o mesmo ônibus. O meu ônibus. Às vezes falta ar. No começo, eu descia na Ana Rosa, uma estação a mais, só para pegar o ônibus vazio. Mas para isso é necessário acordar mais cedo. E mais cedo que isso é impossível. Dia desses, vi um homem barbudo e descalço carregando uma boneca. O homem simplesmente ia em frente. A boneca estava nua e ele usava um trapo vermelho de camisa e com os botões arrebentados. Segurava a boneca no colo, feito criança. 

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Sexta-feira passada havia um homem de uns quarenta anos no estacionamento do Extra, sozinho, manobrando um carrinho de controle remoto. Era quase 22h e havia poucos carros por lá. Talvez estivesse testando – coisa do tipo – antes de levar para o filho. Mas o fato é que o homem continuava lá, sozinho, fazendo o carrinho dar voltas e voltas, e mais voltas e voltas. Sem pressa. Ele sorria.


28/10/2013

Registro

Havia um cartório no segundo andar da maternidade na qual meu filho nasceu. Meia dúzia de pais com senhas na mão e um típico funcionário com carimbo, repetindo exaustivamente as mesmas sete instrutivas frases a cada novo pai que assumia a cadeira. 

Quando ele me entregou a certidão para que conferisse, um arrepio me escalou a espinha. Demorei-me um pouco olhando o documento, olhando a secção dos avós paternos e maternos. Lendo e relendo, como que diante de um enigma. “Algum problema?”, ele perguntou. Não havia nada de errado, não oficialmente. “Tudo certo”, eu disse. Não sabia que esse tipo de informação constava na certidão – e de fato nunca compreendi o sentido concreto daqueles termos: avós.

Exceto por minha avó paterna, que morreu tem uns quatro anos, não sei os nomes dos meus avós de cabeça. Parece descuido ou frieza da minha parte, mas a verdade é que isso (avós) nunca teve importância na minha vida. Não tive a oportunidade de conhecê-los. E não dá pra sentir falta de alguém que nunca esteve por perto. É natural.

Essas coisas eu pensei do lado de fora da maternidade, fumando um cigarro. Pensava isso na primeira camada de pensamento (nunca tive contato com meus avós, é natural não saber o nome) – mas uma corrente paralela de pensamento, mais silenciosa, mais abaixo, como as correntes ao fundo dos rios, ocupava-se de vasculhar cada gaveta neural, milímetro a milímetro, fio a fio, à procura de um nome ou apelido que fosse. 

E não havia nada lá.

Uma coisa desde sempre me foi clara: para o bem ou para o mal, a ausência promoveu um sentimento de não-identificação com qualquer linhagem anterior – como se não existisse. Um desprendimento quase que total da noção de ancestralidade. É como se o mundo (meu mundo, família) tivesse começado ali mesmo, comigo. Isso agravado pelo fato de ter nascido em um estado e ter crescido em outro. Uma liberdade sem o peso das pressões e determinações impostas por uma linhagem qualquer, mas também uma liberdade desemparada, sem raízes, um espírito estrangeiro, desterrado. 

Antes de voltar para o quarto, passei no restaurante: senhoras e senhores de branco esfregavam o jaleco à beira das saladas e do arroz soltando fumaça. Enquanto pedia um café, pensei que o investimento robusto em álcool em gel era inútil diante daquele hábito bizarro. Nada faz sentido.

Pelo menos o café, que vinha direto da máquina, parecia imune. Optei por usar o VR. Estava cheio. Já que agora somos três bocas lá em casa, qualquer economia é bem-vinda. Só uso o VR para almoçar, ao contrário dos meus colegas que costumam usá-lo no happy hour do Outback, pizza em casa, balada na Augusta, para comprar cigarro e caixa de cerveja em lata. Eles ficam sempre escandalizados quando digo meu saldo. Mas errei a senha. Uma senha que uso exaustivamente há oito meses, todos dias. Desapareceu completamente da minha cabeça, como se nunca houvesse existido. Errei três vezes. "Passa no débito", eu disse, antes de bebericar o café. E nada melhor que um café para afastar uma contrariedade.  

30/09/2013

Gênesis

Mesmo quem não saca nada ou muito pouco de fotografia, como é meu caso, já deve ter ouvido falar do Sebastião Salgado, essa grande celebridade do universo monumental dos obturadores abertos, do preto e branco em alto contraste.



Eu particularmente gosto mais dos registros cotidianos, menos exóticos e retumbantes, como do Lartigue. Mas tenho que confessar que vale a pena tirar um tempo e ir visitar a exposição Gênesis, no SESC Belenzinho.

As 245 fotografias são resultado de oito anos de pesquisa e de viagens aos recantos mais inóspitos do mundo. Espécie de Indiana Jones místico e com uma câmera na mão, Sebastião Salgado declarou em entrevistas que o seu objetivo era captar locais e seres na terra que ainda estariam intocáveis, como no dia do Gênesis. A tartaruga gigante de Galápagos, o namoro de um casal de albatrozes no arquipélago Willis, o incrível homem lama de dedos de bambu, dançando aos pés de uma cachoeira na Papua Nova Guiné, e, claro, a divertida corrida de Pinguins-de-barbicha nas ilhas Sandwich estão entre os destaques.

Mas se de repente você se sentir em uma aula de geografia – diante de um documentário preto e branco da National Geographic – não se preocupe. Basta pensar que o aspecto mais interessante dessa obra talvez esteja além das fotografias concretas, expostas em belos painéis. Talvez o mais instigante seja vislumbrar o processo criativo, a trajetória do artista. Imaginar a jornada, aos poucos, ao longo de oitos anos. 

Esse aspecto, a meu ver, merecia um registro à parte. 

15/09/2013

Perspectiva

Cada vez que descubro um diretor de talento acima da média (a mesma coisa ocorre também com um escritor), um sujeito que eu mal suspeitava a existência (e sobreviveria muito bem sem conhecer, assim como se sobrevive muito bem sem provar o cheiro da Mona Lisa, sem comer a Nicole Kidman, ou coçar os olhos numa tempestade de areia no Saara), cada vez que me deparo com uma obra cinematográfica dessa envergadura, é como se a vastidão caipira da minha ignorância contemplasse a vastidão desse horizonte a se perder de vista que é o mundo do cinema para além dos cartazes pregados no terceiro piso sempre limpo dos shoppings, onde cidadãos suburbanos trabalham até dez horas da noite de um sábado ou domingo a troco de mixaria, para servir pipoca e coca-cola e garantir a diversão unidimensional de um casal unidimensional que acha genial essas comédias pasteurizadas tipo Globo Filmes.


Climas (2006)


Esse pequeno adendo mal humorado apenas para dizer que eu mal fazia ideia de quem era Nuri Bilge Ceylan, quando fui ver Era uma vez na Anatólia. É sempre um risco e nem sempre recompensado, mas eu gosto de ver filmes sem planejar, sem manuais interpretativos a priori. Além de ser uma boa estratégia para escapar da cartilha publicitária que arrasta nós todos a esses objetos de puro consumo disfarçados de cinema, um bom filme é uma das poucas coisas na vida capaz de te forçar a experimentar outra realidade. Assumir outra perspectiva.

Embora seja apenas um suspiro de duas horas na escalada de Sísifo de uma segunda a outra, encarar outra perspectiva além do centro gravitacional do ego é salutar. Essa imersão, pelo menos pra mim, costuma ser mais efetiva com a leitura, mas no cinema – assim como uma viagem ou uma mudança de cidade, ou quando você acaba criando vínculos razoavelmente satisfatórios com pessoas que têm crenças e princípios contrários aos seus – há essa possibilidade de experimentar a si mesmo e o mundo por outra ótica.

***

Se alguém me perguntasse de supetão o que é a beleza, em sentido radical, eu diria que a beleza é uma destas poucas coisas que te mobiliza a continuar vivendo. E a beleza em Ceylan – além dos planos longos e abertos, da opção pelo silêncio, do apreço pela fotografia – está nessa habilidade simples e ao mesmo tempo sofisticada de projetar os dramas das personagens na natureza concreta. Em Climas, essa projeção da subjetividade das personagens na natureza conduz o filme em dois planos narrativos distintos. Sutil e sofisticado, o clima lá fora é inversamente proporcional ao sentimento do casal. Em 3 Macacos, por sua vez, a ausência do filho afogado se enrosca ao pescoço do pai, literalmente. E como numa espécie de parábola mística, aquele céu negro ao final sugere que a culpa não expiada se propaga indefinidamente, como uma hemorragia contagiosa. Enquanto signo de um possível perdão, o céu se fecha e ameaça desabar. Não há salvação. Diante da fragilidade humana, a culpa assume contornos de maldição. Curiosamente, em Era uma vez na Anatólia, um sujeito a persegue intencionalmente, tentando incorporá-la, satisfazê-la, mesmo que no lugar de outrem. 

De resto, basta dizer que são três ótimos filmes de um excelente diretor. Vale muito a pena conhecer. Mesmo que atrasado, como eu.

25/08/2013

Festiva: evento debate escrita criativa e sistema literário


Criada pelo grupo “Leitura e Criação Literárias”, do Programa de Pós-Graduação em Letras/FALE, da PUCRS,  a 1ª Festiva – Festa da Escrita Criativa vai promover uma série de debates sobre o processo de formações de escritores, dentro e fora da universidade. O evento acontece entre os dias 2 e 6 de setembro, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.




A ideia partiu do doutorando em Teoria da Literatura Luís Roberto Amabile que, além de conceber o evento, vai compor uma das mesas de debate: “A distância não existe para quem ama (a literatura)”, com Davi Boaventura e Vanessa Sila (mediação). A pauta da mesa é: “Mudar de cidade, deixar o emprego, largar tudo: um papo com autores que cruzaram o país para estudar Escrita Criativa”.

Autor da coletânea de contos O amor é um lugar estranho (GRUA, 2012), Amabile trabalhou muitos anos nos jornalões de São Paulo, até que largou a batina da redação para estudar literatura e escrever ficção. “Eu olhava o sol se pondo pela janela ao fim do dia, a cidade parada com trânsito na Marginal, e aquilo me dava um desespero”, explica.

Além de Amabile, o editor Rodrigo Rosp e a doutorando em Escrita Criativa e escritora Moema Vilela assinam a curadoria do evento. Entre os autores convidados estão o escritor Reginaldo Pujol Filho e o poeta Diego Grando.

Se eu estivesse em Porto Alegre, não perderia por nada. A programação completa você encontra no site do evento.

05/08/2013

Biologia elementar


Da mesma forma que tirar dez em Física Clássica não faz de ninguém um bom goleiro, centenas de aulas e leituras de Biologia elementar não afastam meu espanto diante de um fato: há vinte cinco semanas uma pessoa de verdade está crescendo na barriga dela.

Tubo bem que o laboratório de ciências da escola era uma catástrofe. O experimento mais complexo – além de germinar feijão com algodão molhado – resumia-se a olhar gotinhas de sangue dalgum aluno mais corajoso no microscópio enferrujado que ampliava umas dez vezes os glóbulos vermelhos. Bem aquela frase do físico alemão de cabelos espetados sobre a importância da imaginação para a Ciência. Na falta de experimento concreto, restava preencher as lacunas com devaneios.

Viagem Insólita, arte by Brandon Schaefer 

Mas há que se fazer justiça – havia o livro (que a gente tinha que comprar, embora a escola fosse pública) e alguns vídeos pedagógicos cuja trilha sonora era composta por sintetizadores de sonoridade melancólica teclado Cássio, timbre de games de 16 bits, Stay On These Roads do A-ha versão fita K7, alguma coisa assim. Para superar a falta de infraestrutura, D. Maria, excelente professora, além de desenhar uma célula completa com giz colorido na lousa, costumava gravar no vídeo cassete reportagens especiais do Fantástico ou documentários da TV Escola (leia-se docs da BBC e National Geographic dos anos 70 e 80 reprisados com décadas de defasagem) sobre o funcionamento do sistema respiratório, cérebro, rins, dinossauros vagando pela terra devastada, a ameaça invisível das superbactérias, Darwin observando pássaros.

Na era pré-internet, qualquer coisa que fosse além de uma fita do Telecurso 2000 já era lucro.

Vendedores de enciclopédias baratas e jogos paradidáticos faziam a festa. Roletas com grupos, famílias, filos e subfilos que iam do vírus aos macacos, das amebas à jararacuçu. Lembro como se fosse hoje de um esqueleto de papelão de montar com cola e tesoura sem ponta que pendurei na porta do guarda-roupas. Acordei no meio da noite e levei um baita susto diante daquele vulto branco, ali parado com os braços tortos, querendo me surripiar a alma.

Todo conhecimento humano acumulado durante milênios – passado de geração em geração através de narrativa oral, monges copiadores, da imprensa, dos livros, bits, constantemente reformulado por homens solitários trancafiados há três dias sem banho em porões de castelos, nerds insones financiados por fundos de pesquisa sete vezes maiores que o PIB do Uruguai, então organizado no funil do currículo sistematizado para terminar no meu caderno e na minha cabeça – não adiantaram de nada.

Tem uma pessoa de verdade crescendo na barriga dela. E a perspectiva do discurso científico elementar é incapaz de construir uma explicação satisfatória.

Vejo e revejo cada um dos ultrassons, desde o primeiro quando não passava de um feijão, até o último com efeitos em três dimensões, com as expressões e a mão coçando o rosto, mas não adianta. Não dá para entender.

E mesmo a palavra milagre, no fim das contas, é só um nome. Uma metáfora precária, incapaz de cobrir esse espanto abissal, essa sensação de pequinês diante da vida.

16/07/2013

Condicionamento operante


Church Gate Station, Western Railroad Line, Bombay, India
© Sebastião Salgado The J. Paul Getty Museum, Los Angeles


Os hábitos, como se vê, são condicionados pelo ambiente.

Quando eu vinha à São Paulo só de visita, ficava escandalizado com pessoas correndo pelas escadas rolantes do Metrô. Um disparate – onde já se viu correr em escada que já corre sozinha?

Qualquer descrição mais preguiçosa da metrópole traz o epíteto “ritmo frenético”. E o clichê nesse caso esbarra na certeza dos fatos autoevidentes.

Ficar parado na faixa da esquerda da escada rolante é praticamente pedir para ser atropelado: no mínimo, provocar meia dúzia de edificantes resmungos nas redes sociais. O tom de desespero é o mesmo gerado nos passageiros de cenho franzido por causa da voz robótica dos alto falantes anunciando que, por problemas na Linha Vermelha – ou Amarela, tanto faz – trens estão operando com velocidade reduzida e com maior intervalo de parada. 

Já beirando dois anos na cidade (embora essencialmente estrangeiro), agora quase sempre sou o primeiro a descer do trem na estação Conceição – no sentido Jabaquara, a terceira porta do segundo vagão dá de frente para as escadas – quando as portas se abrem, quase sempre sou o primeiro a desbravar as escadas, alimentado e alimentando a pressa fantasmagórica que a todos empurra – o cansaço – os passos largos dos homens de bem, o bom paulistano, todo mundo doido para chegar em casa. 

10/06/2013

É tudo vento que passa: Camille e Era uma vez na Anatólia


Camille Redouble (Noémie Lvovsky, 2012)


O enredo é manjado: uma mulher na iminência da separação é lançada de forma misteriosa à sua adolescência para reviver os momentos em que conhece o seu grande amor. Mas não é o enredo – nem a forma como a adolescência e seus dramas se tornam ridículos e quase alienígenas sob a perspectiva da experiência. Há que se dizer que o filme é regular, contundo, fora o tom das filosofices discursivas típicas dos filmes franceses, há um clima que vai se formando (o uso do gravador para preservar a voz dos pais, por exemplo) e que culmina em uma cena que talvez seja a melhor cena sobre a precariedade da vida - e inevitabilidade da experiência da morte (a morte do outro) - que eu já vi no cinema. É realmente fora da curva de tão boa. Não vou adiantar as coisas pra não estragar a fruição de quem for ver o filme. Basta dizer que a coisa acontece na cozinha. E uma semana depois de ter assistido o filme, ainda estou com a cena cabeça.

***

 Era uma vez na Anatólia, (Nuri Bilge Ceylan, 2010)

Caímos de gaiato em uma sessão de Era uma vez na Anatólia, no CineSesc. Digo de gaiato porque comecei a assistir o filme sem saber que o danado tinha 150 min. Veja bem: um filme turco com mais de duas de duração. Soma-se a isso o fato que o enredo é lento, a câmera trafega sem pressa nenhuma por estradas de cascalho desertas, mostrando um bando de homens que procuram um corpo cujo guia não sabe onde está. Na maior parte do filme esses sujeitos barbudos ficam descendo e subindo do carro, procurando uma árvore, procurando um sinal qualquer. Enquanto isso, conversam sobre banalidades. E olha só: o filme é excelente. Como se fosse a Árvore da Vida sem os monólogos etéreos em cenas de comercial de shampoo. A câmera é contemplativa e os diálogos cirúrgicos. Trabalhando no nível do subtexto, sempre deixando indícios, sinais: símbolos que remetessem a alguma coisa que ao mesmo tempo está e não está lá. Olha, esses turcos têm ciência. Era uma vez na Anatólia é um filme sobre o Eclesiastes. É tudo vento que passa.


31/05/2013

"E aí, como vai a barriga?"

Colourful Ensemble (1938) (2), Wassily Kandinsky


Agora, quem manda lá em casa é a barriga. 

Quando alguém nos visita, todo mundo só quer saber dela. "E aí, como vai a barriga?".

Oriunda de uma hierarquia cujo critério não responde à cronologia, ela chegou por último e já botando moral. Já de cara, cortou o álcool, carne de churrasco e o meu cigarro – seja o frio que for – só na sacadinha. E não se esqueça de lavar as mãos ao voltar.

Segundo a OMS – representada pelo ilustre farmacêutico da farmácia da esquina – o teste tem de ser feito com a primeira urina da manhã. E foi assim a chegada definitiva da barriga – embora já houvesse suspeitas – um teste de farmácia às 5h15 da madrugada.

Ainda meio cético, e fundamentalmente empírico – tive de dar uma olhada na barriga, dar uma alisada na barriga e ver se era aquilo mesmo. Embora não seja especialista no assunto, afinal é a primeira barriga – constatei perplexo: sim, de fato, é uma barriga.

E com barriga ninguém pode. Minhas merecidas férias, agendadas para julho, tiveram que ser postergadas sem choro nem vela para o longínquo mês de novembro. E a sonhada viagem a Recife – até então dona do pedaço, gestora do orçamento familiar e das decisões de se comer fora ou fazer um macarrãozinho maroto em casa mesmo – a viagem planejada desde o ano passado, já com as passagens compradas, ficou pra outra vez.

É a barriga quem cuida do cardápio. A fruteira no canto da cozinha – outrora guardava um maracujá solitário, um mamão eternamente verde e meia dúzia de bananas prata – agora vive transbordando mexericas, laranjas e melancias de dois quilos e meio. E faz urrar o liquidificador logo cedo, para o terror dos vizinhos, dois copos de suco verde.

Pelo menos, no que tange as burocracias, sob o respaldo da Lei, a barriga pode furar filas.

Ao invés dos célebres perfis e jornalismo literário da Piauí, agora só leio as dicas imperdíveis da revista Crescer. Nas idas à Livraria Cultura, a seção de literatura não é mais prioridade. Subimos para o segundo piso e saímos com a sacola cheia de livros de capa dura, cheios de fotos, escolhidos em função da barriga.

Mal chegou, a barriga está cheia de presentes. Das cunhadas, sogras, tios e primas. É toalhinha bordada, sapatinho vermelho e até projeto de reforma de quarto. Só não sabemos se rosa ou azul. Talvez verde?

Nos últimos quatro meses, já visitamos a barriga duas vezes. A médica disse que está tudo bem, o que dá certo alívio, embora eu sabia que, daqui pra frente, a barriga só vá crescer e impor mais demandas. A vaidade da barriga exige cremes de todo tipo. Há boatos científicos de que a barriga já houve música. E logo em breve, vai começar a mexer.

Mas a demanda mais recente é conversar com a barriga. E é uma coisa meio doida conversar com a barriga.

Apesar da timidez, tenho praticado. Antes de dormir, dou uma escorregada por debaixo da coberta, e fico frente a frente com ela. Faço um carinho primeiro, para aliviar a tensão. Ela permanece ali, imperscrutável, blasé, toda cheia de si. Falo o que me vem à cabeça, sem pensar muito. Às vezes sobre o futuro, noutras vezes uma piada, ou só barulhos cantarolados. A barriga balança com as risadas. Está tudo bem. Dou um beijo, bem abaixo do umbigo, e vou me deitar em paz.



03/05/2013

Adaptação



Jonathan Franzen foi uma das melhores leituras que fiz nos últimos tempos. 

Embora a badalação ao redor do sujeito fosse grande - Flip, best-seller, "o grande romancista americano" - acabei embirrado com o cabra e só fui ler o sujeito depois que a poeira abaixou um pouco. 

Não foi tanto birra. 

Sempre achei que minha atração pela leitura fosse talvez fruto do silêncio interiorano. 

Ainda em fase de adaptação a essa coisa monstruosa que é o transporte público em São Paulo, eu não conseguia ler no ônibus. Com a consciência operando a 30% pela manhã - sono - ou cansado demais à tarde, invejava profundamente aquelas pessoas ali sentadas - atentas, despertas - lendo As Crônicas de Gelo e Fogo

Cheguei a pensar que nunca mais ia ler nada na vida. 

Parecia impossível ler qualquer coisa enquanto duas meninas no banco de trás contam estripulias de namoricos, um homem ao seu lado conversa com a mãe no telefone sobre o exame de rins do avô, uma entrevista de emprego e toda uma trama de mistério com uma tal de Janete, que andou se encontrando com um tal de Rogério, em plena quarta-feria, em um suposto forró em Santo Amaro.

Comecei pela coletânea de ensaios Como ficar sozinho. Em parte, por esses trechos convidativos que saíram na Piauí e na Folha de S.Paulo. Gostei pra caramba. Então resolvi ler tudo que encontrasse por aí: Tremor, As correções, Liberdade, A zona do desconforto)

Estou na metade do caminho.

Tremor é simplesmente viciante As correções genial. Foram os dois primeiros livros que li praticamente só no ônibus. Agora, estou no meio de Liberdade e a meta é destrinchar A zona do desconforto antes de novembro. 

Acho que vai dar. 

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(Clique na imagem)



14/04/2013

Random Access Memories




Depois das prévias publicadas no The Creators Project, a ansiedade em torno de Random Access Memories, o novo disco do Daft Punk, é grande. Ao que parece, o álbum, que deve vir a público em maio, será tocado à moda antiga, com instrumentos de verdade

No teaser, além dos robôs tocando baixo e bateria, a banda analógica conta com o rapper Pharrell Williams nos vocais e Nile Rodgers na guitarra.

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(upgrade - 03/05)

Aqui uma entrevista com comentários faixa a faixa.




03/03/2013

"Bariyer": primeiro romance de Almicar Bettega



"O primeiro romance de Amilcar Bettega Barbosa, Bariyer (‘barreira’ em turco) – título provisório –, começou a ser escrito em 2007, quando o escritor viveu, durante um mês, em Istambul, na Turquia. A viagem fazia parte do projeto Amores Expressos, que enviou 16 escritores para diferentes países, nos quais se inspirariam para criar narrativas sobre o amor. “Comecei a escrever, e a história ganhou uma dimensão muito maior”, conta. A trama foi construída basicamente sobre três personagens: uma fotógrafa brasileira; seu pai, um turco nascido em Istambul que se mudou para o Brasil ainda criança; e um francês, autor de guias de viagem. Aos vinte e poucos anos de idade, a fotógrafa decide ir a Istambul, conhecer a cidade de que seu pai tanto falava. Na Turquia conhece o francês, com quem engata um romance passageiro. E, ainda de lá, convence o pai a sair do Brasil para encontrá-la. Mas, quando ele chega, a jovem está desaparecida. Começa, então, uma busca pela filha e também por uma cidade que conheceu na infância e que já não existe mais."

A notícia foi pulicada no suplemento sobreCultura, da revista Ciência Hoje, em um box ao final da matéria assinada por Célio Yano.

A tese está disponível aqui. 

Otávio Marques da Costa, no Blog da Companhia das Letras, em dezembro do ano passado, já havia anunciado que o livro sairá este ano. 

Agora é esperar.

26/01/2013

The Master




Joaquin Phoenix está impecável. Postura encurvada - um corcunda errante. Cenho franzido, roupas largas. Ossos saltando do rosto, junto à pele. E esse trejeito de levar as mãos à cintura que marcam tanto a personagem. Ele e Philip Seymour Hoffman funcionam como um bizarro par romântico. 

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Essa mania de rankear tudo é detestável. Ok.

Mas Sangue Negro (2007) ainda é o filme do Paul Thomas Anderson que mais gosto. 

The Master é o segundo.