31/01/12

Problemas de criação literária e finitude.




Lá em Luminárias, a gente chama esse bichinho (Hemidactylus mabouia) que vive nas paredes das casas, entulhos, construções, frestas de telhados: de camaleão (porque muda de cor).

Em outros lugares, chamam o bichinho de lagartixa (segundo a wikipédia, no Centro-Oeste chamam de taruíra; e no Nordeste, de víbora). Mas, lagartixa, em Luminárias, até onde eu me lembre, é esse bichinho aqui em baixo (Psammodromus algirus). Que vive no mato. 



Questão insolúvel.


***
Cheever é um excelente narrador. Estou lendo os 28 contos de John Cheever (Companhia das Letras, 2010) e gostando bastante. Mas, em alguns contos, senti o final descendo abrupto, como se o conto precisasse terminar por uma questão de caracteres. E fica aquela sensação de texto inacabado. Mas, talvez, seja apenas expectativa do leitor admirado - e ao mesmo tempo aflito - diante do fim de um texto saboroso. Nunca é fácil lidar com a finitude (tampouco, com o infinito).


15/12/11

Quebranto.

Foi num sábado.

E sábado, além da cerveja, da cachaça, da travessa de torresmo ou de mandioca, havia o olhar de esperança no rumo do ponto de ônibus, na ponta da praça. 

Esperança de que aparecesse alguma mulher diferente daquela meia dúzia de mulheres que a gente já tinha decorado todas as pintas e dobrinhas das costelas. Diferente dessas meninas que a gente viu correr de nariz escorrendo e pés descalços. Tomar bomba em matemática na sétima série, cair de bicicleta e vomitar de fora da boate. Ser coroada na igreja, tocar lira na Fanfarra, empelotadas e bocejando nos pelotões de Sete de Setembro. 

Primeira comunhão, primeiro beijo. 

E trocar o perfume Thaty por alguma fragrância Boticário. Às vezes, se casar e se separar. Parir e tirar filhos. Ir embora cursar faculdade nalgum lugar distante. Algumas voltavam formadas, ou com o maridão obscuro ao volante do carro de vidros fechados. Outras, vinham sozinhas empunhado o queixo contra vento venci na vida e vocês ainda estão aqui nessa vidinha male ou meno?. A maioria, claro, sumiu sem dar explicação, como tudo nessa vida.

Mas acontece que essas mulheres, que a gente nunca deixou de chamar de meninas (mesmo quando fala mulheres), são quase nossas irmãs. Sabemos tudo sobre elas. Elas sabem tudo sobre a gente. 

Não dá liga. 

Restava esperar. A ponta da praça. Encarar aquele ônibus à espera de um novo messias de saia.


***

Trecho do conto inédito Três Corações, que faz parte do meu livro de contos (embora tenha terminado o livro em maio e esse livro tenha sido finalista - quase lá, não rolou - numa espécie de concurso promovido por uma editora aí, agora finalmente terminei de verdade). Até segunda ordem, o título [que antes era Interior despedaçado], agora é Quebranto. E azar do goleiro. Boas Festas. Etc. Feliz Natal.


02/12/11

Três ou quatro pontos sobre "A árvore da vida"





1) A árvore da vida (The Tree of Life, 2011) de Terrence Malick, é um filme que dialoga diretamente com o livro de Jó. Já na epígrafe, nos deparamos com um recorte do cap. 38. O cap. 38, é composto por um longo poema, é a primeira resposta de Deus a Jó. Até ali, Jó está emparedado no silêncio de Deus, com o corpo cheio de feridas, indagado pela mulher: “Persistes ainda em tua integridade?”. E Deus, calado. Mudo. Indiferente. A postura de Jó diante do sofrimento é a contemplação: se aceitamos o bem que Deus nos dá, por que não deveríamos aceitar o mal? (Deus oferta o mal?) Todavia, quando finalmente vem a resposta de Deus, composta por uma série de perguntas, longe de esclarecer a Jó sobre a razão de seu sofrimento (sobre a questão ontológica do sofrimento no mundo), a resposta desvela um mistério ainda maior. Um abismo que aponta para insignificância da existência humana, do estar no mundo. E nesse ponto, é Jó quem se cala. Sem sombra de dúvidas, um dos textos mais misteriosos, belos e fascinante das escrituras.




2) As cenas iniciais do filme de Malick tratam de duas vias para fruir a vida. O caminho da Graça e o caminho da Natureza. O caminho da Graça é o caminho da contemplação, da suspensão dos juízos, da fé. Já o caminho da Natureza, é o caminho da estética, dos prazeres. Essa questão retorna no sermão do pastor (ou padre). O pastor explana sobre Jó. Fala como o sacrifício próprio, o sofrimento, a retidão de caráter, a integridade, não evitam nada. Nada nos salva da desgraça. Ela sempre esteve aí e sempre vai estar. E mesmo Jó, que era o mais justo dos servos de Deus, não conseguiu evitar que a desgraça caísse sobre sua vida, de uma hora para outra. E sem razão. Sem um telos, sem finalidade nenhuma. Tentar viver no caminho da Graça, de modo algum, evita que a Natureza (matéria cega, a finitude, a desgraça), nos esmague de uma hora para outra.




3) Tudo vai acabar, não importa o que você faça ou como tente evitar. Não temos para onde fugir. É disso que o padre nos fala (nos lembra). Acho que, em certa medida, o padre aponta para visão de Kierkegaard. Não dá para ancorar a existência na fruição estética, inventariar prazeres, porque essas coisas são efêmeras. Tampouco dá para ancorar-se em valores morais, no dever para com as ideias gerais. A única saída é saltar no Absurdo, afinar o coração no eterno. A transcendência.




4) Eu lhe dei um murro na cara sem motivo. O que mais agradou no filme (além do uso fabuloso dos monólogos, da fotografia exuberante, da narrativa fragmentada), é a possibilidade que Malick nos dá de pensar o laço entre pai e filho (Por que ele nos machuca, o nosso pai?), em relação aos laços das personagens com Deus (Onde estava tu?). É como se a paternidade fosse um castigo a ser espalhado.




5) De resto, penso que: se em Melancholia (Lars von Trier, 2011) a constatação da existência como mal aponta para o desaparecimento como única saída viável, em A árvore da vida, a constatação é - o homem não é a causa (única causa) do mal e do sofrimento (uma ideia mais ou menos cristalizada). Se existe algo de bom no mundo (a Natureza, Deus, o Universo são indiferentes e fechados em si mesmos), o homem é a única causa desse bem. Precário, frágil. E fadado ao fracasso, claro.


16/11/11

Sobre sinais, digestão, chuva e bombinhas no recreio





Porque aconteceu muita coisa bonita nesses últimos dias. Eu queria escrever uma coisa bonita agora. Mas eu sei dos meus limites. Logo atravessaria a linha da ternura e cairia na fenda do ridículo, como nessa frase que acabei de escrever. 

E queria frases que estalassem feito bombinhas no recreio, debaixo de tijolos e latinhas de milho-verde voando enfumaçadas pro alto, cheirando a pólvora vagabunda e repicando sete vezes nas pedras do pátio.

Alguma coisa que farejasse o ruído da chuva quando desce sobre as pedras, lavando a areia. 

Alguma coisa sobre quebrar ovos. Perder o ônibus porque um outro ônibus quebrou na chuva.

Dizer que há uma lição ou um sinal nisso tudo (não podemos controlar tudo).

Mas não é bem isso. Não é nada de lição ou sinal pregado no céu, você sabe.

Nada de minutos de sabedoria, se bem que a gente não pode evitar.

Só aprender a calar. É o segredo de quase tudo na vida. O complicado é acertar na afinação do silêncio.

E acho que os grandes caras que conheci nessa vida, não são aqueles que têm algo a dizer sobre tudo. 

São aqueles caras que sabem calar na hora certa. E com estilo, é claro.

Nada mais óbvio.

Aconteceu de um cara me cercar na beira do balcão e falar que encontrou uma carta que escrevi pra ele mandar pra uma namoradinha dele há uns 15 anos atrás. E o cara me disse que usou aquela mesma carta por anos. Cambiava apenas os nomes das mocinhas e mandava.

Tenho pra mim, que deve ser a coisa mais bonita que já escrevi na vida. 

A coisa mais útil, pelo menos. 

Porque o cara disse que a carta sempre funcionou pra todas as meninas que ele mandou.

E pra menina que eu mandei (pra menina que tinha me impulsionado a escrever aquilo), a carta nunca funcionou.

E talvez tenha sido esse cômico desastre a me ensinar desde cedo que escrever não muda nada no mundo. Não corresponde a demandas senão aquela demanda mesma que a gera. Sem mais.

Afinal, o que ganha o sol se autoaniquiliando por si mesmo com a constante demanda de tristes poemas mal escritos?

Quando muito, um retrato falso e malacabado.

Ainda bem.


Aconteceu da gente tomar uma chuva tenebrosa no alto da serra, você se lembra?

E as meninas ainda tentando terminar de fazer a carne na chapa, enquanto todo mundo juntava as coisas. Depois, eu fiquei reparando meu amigo escalando a trilha com o filho nas costas, reparando na hora que ele pegou uma toalha, jogou sobre o corpo do menino, miúdo, os cabelos ensopados, escalando. E descalço, porque ele não podia molhar o tênis, ia jogar bola mais tarde.

E sabe que tinha alguma coisa muito bonita ali, naquela chuva caindo sobre eles ali no meio daquela serra? Mas não disse nada a você. Não disse nada, porque talvez eu achasse que o legal era não dizer. 

Nunca é fácil construir diálogos interessantes, principalmente na realidade. 

Mas tinha alguma coisa, uma dessas coisas que não dá pra dizer. Dessas coisas que talvez você, eu, todo mundo sente exatamente o que é.

Não se explica. E não precisa explicar pra funcionar ou entender.

Como respirar. Ou digestão. Alguma coisa assim.


08/11/11

Pequeno inventário em quadrinhos sem figuras


Usado esporadicamente ao fim do expediente para dormir, tomar banho, pedir pizzas, pensar em suicídio e não atender ligações de amigos. O apartamento não pode ser usado para apartar dores de cabeça, mas costuma ser útil para apartar relações. Serve também para espiar outros apartamentos no prédio da frente, onde outras pessoas dormem, assistem seriados, acessam o Redtube e pensam em trocar de apartamento. Um recente estudo publicado por Isaac Barbatov, nos Anais da Sociedade Búlgara de Apartamentos, revelou que os apartamentos mais seguros, com ar-condicionado e financiamento quitado, são completamente ineficazes na preservação da felicidade.

Bar underground.

Abre todos dias, mas o dia mais underground do bar undergroud é na terça. Na terça, você encontra esse fotógrafo barbudo de camisa xadrez, comentando sobre a inovação estética do novo filme do Lars von Trie, depois falando mal do Capitalismo, de Deus, da Igreja Católica e do Papa, enquanto mostra no seu iPhone uma foto da Sagrada Família do Gaudí, e diz que quando você se move o Universo se move ao seu favor.

Brasil.

Na semana passada, dois jovens nerds de Bauru construíram um aparelho que permite fotografar imagens do Século XXII. Ao revelar as imagens, um deles jogou gasolina no corpo e ateou fogo. O outro saltou na frente de uma carreta numa rodovia. As imagens não foram encontradas.

Teatro.

Cena. Montagem. Arte da incorporação de outros seres, espiritismo com maquiagem e sem doutrina. Imitação. Pode, ou não, apresentar função religiosa e/ou pedagógica. Piadas ao vivo. Fingimento. Evento financiado por dinheiro público cuja entrada custa mais de 30 reais.

Cinema.

- Você já amou alguém?
- Não, mas vi o filme.




07/11/11

Sr. Walkman

Todo lugar tem seus personagens exóticos. Em Luminárias há muitos. E ontem me lembrei de um sujeito que andava com um rádio debaixo braço. Antena em riste. Volume alto.

Às vezes era indo pro ribeirão que topava com o sujeito. Ele ia à beira da estrada, numa toada contemplativa, e o rádio no colo, trabalhando sereno.

E não era partidário dos fones de ouvido (pra isso bastaria adquirir um walkman, que era o que existia na época). Mas não. Usava um motorádio, e com o volume sempre no talo. Era como um desses carros cheios de equipamento de som a zanzar por aí. Compartilhando seu gosto musical com todos que cruzassem seu caminho.

Algumas vezes, voltando pra casa de madrugada, eu ouvia uma música se aproximar por detrás de uma esquina. Então topava com o sujeito. Tranquilo, sintonizando a estação, espantando os chiados à medida que avança.

Outro fato curioso, embora faça muito sentido, é que o sujeito costumava frequentar com assiduidade os pontos mais alto da cidade. Nalguma vezes, ia até o Morro do Cristo, pra talvez tentar ampliar ao máximo a capacidade de recepção do aparelho.

Imagino o banquete de frequências no alto do Morro do Cristo. E a alegria do sujeito. O vento na cara, sozinho, empunhando a antena enquanto ia passando delicadamente de uma estação pra outra.

Há uma grande ternura quixotesca nisso tudo.

Costumava ser motivo de risada na cidade. Afinal, parecia não se importar muito com as coisas, exceto com seu rádio. Ou era meio maluco, é o que todos diziam. Pra mim, esse sujeito sempre foi uma espécie de walkmam em pessoa. 

Faz muito tempo que não o vejo, e nem sei mais se mora por aqui. Mas se descesse pela rua à noite e ouvisse um rádio chiando, acho que ficaria feliz.


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25/10/11

"De tudo fica um pouco"

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Já tinha comentado no twitter  e no facebook. De toda forma, fica o convite.

São dezesseis autores e cada um participa com dois contos.
Os meus são Silenciosamente e A calha.

A organização é do Assis Brasil.


clique na imagem pra ampliar.

O excelente trabalho de edição é da Editora Dublinense, de Porto Alegre, coordenada pelo Rodrigo Rosp, que também assina a orelha. Na quarta capa, texto do Amilcar Bettega Barbosa.

A arte da capa é do Samir Machado

Ah, aos queridos leitores de longe que não vão poder ir ao lançamento, já dá pra comprar o livro pelo site da editora.

É isso aí. : )


20/10/11

Febre, Raymond Carver: narrar é resistir

Carver, em Iowa (1963)
Fonte: http://thisrecording.com



Eu fico cada vez mais impressionado em como o Carver consegue ser tão bom. Alguns contos não saem da minha cabeça. O mais recente é o conto Febre, que faz parte do livro Catedral, (que está incluído no estupendo 68 contos de Raymond Carver, editado pela Companhia das Letras, 2010). É a história de um professor de "Educação Artística" do "Ensino Médio", chamado Carlyle, que é abandonado pela mulher, Eileen, depois de 18 anos de relação. O casal têm dois filhos pequenos. Eileen vai embora e deixa Carlyle sozinho com as crianças.

Carlyle está bem encrencado. O conto abre com a contratação desastrosa de uma babá adolescente. Carlyle chega do trabalho e encontra as crianças no jardim de fora da casa. Há um cachorro cuja boca poderia devorar a cabeça das crianças, lambendo o rosto de uma delas. Carlyle está mesmo muito encrencado. As janelas da casa vibram com o som alto. Carlyle apanha as crianças e entra em casa. Lá dentro, se depara com adolescentes ouvindo Rod Stewart no talo e tomando cerveja. E não há nada melhor para mostrar como a vida desse sujeito está uma bagunça. Carlyle está na sala da sua casa, com as duas crianças no colo, discutindo com adolescentes bêbados (WTF? Quem são essas pessoas na minha casa?) ao som de Rod Steward (Rod Stewart, que cena). 

Carlyle precisa de alguém para ajudá-lo a colocar as coisas nos eixos. Ou, pelo menos, é isso que ele acha que precisa. 

*** 
(se você não leu o conto, não leia daqui pra baixo, contém spoilers)

O conto é narrado em terceira pessoa, mas como a focalização está em Carlyle, o filtro das impressões é orientado pela perspectiva dele. Então não sabemos muito sobre Eileen. Apenas as ligações constantes que ela faz a Carlyle (essas ligações, aliás, estão entre os melhores momentos do conto), e uma ou outra memória em tom de sumário que o narrador nos oferece. Sabemos que Eileen se envolveu com outro professor, amigo de Carlyle, e foi tentar uma obscura carreira artística. Aquele clichê de correr atrás de seus sonhos, não importe o tempo que passar. Sabemos que Eileen tinha deixado isso de lado em algum momento do passado. Essa pretensa carreira artística. E que esse desejo estoura (ou serve de vazão para outras frustrações não mencionadas), no meio da rotina maçante e sufocante. Ela aborta a relação e vai seguir seus sonhos juvenis, sem se importar muito com Carlyle ou com as crianças (embora sempre insista em dizer que se importa). 

*** 

Tem uma mulher chamada Carol, com quem Carlyle tem saído. Uma colega de trabalho. Mas há uma grande fissura nessa relação. Por mais que Carlyle tente, ele nunca consegue estar totalmente com Carol. Há uma cena que ilustra bem essa passagem. Os dois estão sozinhos na casa de Carlyle e o telefone toca. É Eileen ligando (o passado ligando e atormentando Carlyle). Carlyle sabe disso e não quer atender. Mas Carol diz que talvez seja algo importante (algo mais importante que ela). E Carol diz isso e vai embora. 

*** 

Mas a personagem mais cativante do conto é a Sra. Webster. Uma babá já de idade que é indicada por Eileen. A Sra. Webster cuida das crianças, cuida de Carlyle. A Sra. Webster faz bolinhos, a Sra. Webster é quase uma mãe. Bendita seja a Sra. Webster.

O aparecimento da Sra. Webster no conto coloca as coisas nos eixos. É exatamente aquilo que Carlyle precisava. Quase um Messias. E a tensão da narrativa aponta para uma solução. Mas logo Carlyle cai numa crise de febre, fica afastado da escola, e as coisas começam a complicar. Já não bastasse a febre que toma conta de Carlyle, a Sra. Webster diz que precisa ir embora. Ela e o Sr. Webster arranjaram empregos em outro estado e não podem recusar. Porque o Sr. Webster já está velho e há muito tempo está desempregado. E é aqui que vem a cena final do conto, onde Carlyle narra sua história com Eileen para o Sr. e a Sra Webster. Mas não sabemos dos detalhes. A narrativa dessa história não vem em primeiro plano. Aparece apenas como sumário. 

*** 

Carlyle revive a perda da mulher ao perder a Sra. Webster. E é essa segunda perda que permite a Carlyle livrar-se da primeira. Livrar-se de vez, narrando a história toda. Só assim acontece a mudança da personagem. Não é à-toa que a história de Carlyle e Eileen não aparece em primeiro plano, aparece apenas como sumário. Carlyle narra para si mesmo. É ele quem precisa entender as coisas, não seus interlocutores. Carver mostra isso com a descrição das crianças, sentadas, ouvindo o pai contar tudo, como se prestassem atenção e estivessem entendendo. Mas aquela experiência é impossível de ser transferida, impossível de ser narrada ao outro (essa incapacidade dizer para outro, está por exemplo no conto Catedral, onde um sujeito tenta inutilmente descrever a um cego de nascença uma catedral). Ninguém entende e nem precisa entender os detalhes da questão, apenas Carlyle.

*** 

Narrar para superar. É mais ou menos isso que está ali. 

De toda forma, desde sempre os homens narram para tentar expulsar o caos e o vazio das suas vidas. Seja nas narrativas mitológicas das diversas culturas, nos causos, mentiras, canções, narrativas religiosas, na literatura. A memória, por exemplo, é essencialmente narrativa. E por isso mesmo sempre nos prega peças. Deixa as coisas mais suportáveis e mais bonitas. E se não fosse assim, talvez não suportássemos. 

A gente narra para empurrar o caos para longe. Narra contra o vazio à espreita. Narra à beira do abismo. E o vazio não é outra coisa senão a falta de limites. O sentido só existe a partir do limite. 

Narrar é limitar, limitar é definir, tentar colocar as coisas nos seus devidos lugares. Fora do limite, o vazio que engole tudo. Feito o Nada, em A História sem fim. Aquele cão devorando montanhas e rios, memórias e nomes, esvaziando o interior das pedras. Ele sempre esteve aí, sempre vai estar. 

De resto, não há sentido nenhum nessa coisa toda. Senão esse sentido que a gente tenta encontrar, a conta-gotas. Nunca é definitivo, claro. Mas narrar é resistir, e talvez uma das melhores formas de resistir.


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17/10/11

Monólogos em colisão

Prastene Pohadky, from the collection of Sam Smith
via: 50watts.com




1) A melhor coisa do mundo seria se bastar a si mesmo. Na verdade, a melhor coisa seria nunca ter existido. Mas já que estamos aqui, se bastar a si mesmo estaria de bom tamanho.

2) Ficar sozinho e sem nenhuma relação mais profunda com ninguém. O silêncio da água jorrando sobre a pia enquanto você lava um prato, sozinho. Estirar-se no sofá porque não há ninguém pra sentar do seu lado. Escolher o filme que você quer, sem atrito, no cartaz do cinema ou na locadora, só com suas próprias dúvidas. E ninguém pra perturbar seu sono na cama de casal grande e espaçosa. Nenhum barulho de passos na casa sem ninguém, cheia de plantas. Cadeiras vazias. Vidros limpos e estantes brancas. E mais nada.

3) E se tudo correr mais ou menos bem, uma hora ou outra, você vai sacanear quem você mais ama. Ou vai  levar chumbo de quem diz te amar. E no fim, carregar um caixão e velar um corpo. Ou ser velado por quem mais te ama. Em ambos o casos, sozinho.

4) A gente precisa da alteridade, mas é uma alteridade apenas de identificação: "aquela pessoa não sou eu", em alguns casos: "ainda bem que aquela pessoa não sou eu".  E mais nada.

5) Mônadas opacas e fechadas, cuja única coisa em comum é essa ilusão de estar vivendo ao mesmo tempo. Mas até o tempo tem o ritmo do dono do relógio. Por isso há tanta assimetria. No máximo, estamos aqui vivendo vidas paralelas, esbarrando nas arestas uns dos outros. Ninguém se comunica. Basta se aproximar demais pra perceber o quanto não sabemos nada sobre ninguém. O quanto aquela pessoa legal é estranha, irredutível. Fechada em si mesmo como uma pedra. O quanto você mesmo é uma pedra. E seja pelo filme em cartaz, o estilo da música no rádio, a gente termina falando e falando, ouvindo e ouvindo, batendo cabeça contra cabeça e percebendo que ninguém comunica nada.

6) Só monólogos em colisão.

7) Pedras entre pedras, batendo umas contra as outras.

8) E no fim, apenas o pó.

10) Ideal seria se bastar sozinho. Mas não dá.