14/10/2015

Literatura é só ficção?

Freud nunca ganhou um Prêmio Nobel de Medicina, mas foi cotado para ganhar o Nobel de Literatura, em 1936. Isso diz muito sobre a natureza da Psicanálise, mas também sobre a natureza da literatura. 

O nobel desse ano, como sempre, gerou polêmica. Na pequena província dos debates literários facebookquianos, sujeitos mais empolgados tem trocado farpas e textões enfezados. 



Svetlana Alexievich, escritora bielorrussa, tem apenas uma obra dublada para a língua de Camões, nenhuma para a língua de João Cabral, mas pelas resenhas que se encontra por aí, dá pra ver que essa senhora não gosta muito de elfos, anões, abduções, detetives, livros sobre livros, funcionários públicos, executivos e artistas plásticos e universitários melancólicos vivendo o drama da vida líquida e fragmentada em saguões de aeroporto. Está mais próxima da reportagem com viés literário e do relato não-ficcional. A turma da ficção torceu o nariz.

Mas a verdade é que a ficção não é condição necessária nem suficiente para que se tenha literatura.

"Se é certo que muitas obras estudadas como literatura nas instituições acadêmicas foram 'construídas' para serem lidas como literatura, também é certo que muitas não foram. Um segmento de texto pode começar sua existência como história ou filosofia, e depois passar a ser classificado como literatura; ou pode começar como literatura e passar a ser valorizado por seu significado arqueológico. Alguns textos nascem literários, outros atingem a condição de literários, e a outros tal condição é imposta. (...) Não seria fácil isolar, entre tudo o que se chamou de 'literatura', um conjunto constante de características inerentes. Na verdade, seria tão impossível quanto tentar isolar uma única característica comum que identificasse todos os tipos de jogos. Não existe uma 'essência' da literatura". (EAGLETON, Teoria da Literatura - Uma introdução, 2003, p. 12)

Colocar a linguagem em primeiro plano e levar em conta sua "organização interna" não é condição suficiente para chamar um texto de literário. Como diria Culler, nada é mais organizado que uma lista telefônica.

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Numa época que se anuncia todo dia o fim do jornalismo, eis que a academia sueca vem oferecer a maior laura institucional que um profissional das letras pode sonhar a uma repórter. Por um lado, isso aponta algo mais ou menos óbvio: a ficcionalidade não é propriedade determinante do texto literário. Por outro, anuncia que a reportagem à moda antiga, expulsa dos jornais, ganhou uma espécie de autonomia, e um certo status artístico, algo que começou principalmente com Capote e Gay Talese.

Calhou dessa questão bater de frente com um assunto que estou me debatendo no meu TCC, onde proponho uma leitura de Memórias do Cárcere a partir do jornalismo literário.

De acordo com Antônio Cândido, Graciliano abandonou a escrita ficcional porque a forma romance não correspondia a suas necessidades de expressão. 

Ao contrário de muitos outros romancistas de ofício, cujo romance é uma forma de expressão plenamente satisfatória, Graciliano procura outro caminho. Cândido aponta uma tendência: o escritor segue uma trajetória que começa na ficção, com os romances, mas vai aos poucos despencado naturalmente no relato confessional e de não-ficção.

"Sente-se constrangido na ficção e abandona-a para sempre no apogeu das capacidades, com apenas quatro livros publicados. O desejo de sinceridade vai doravante levá-lo a retratar-se no mundo real em que se articulam as suas ações". (CÂNDIDO, Ficção e Confissão, 2006. p. 91).

Um levantamento feito por Nelson Pereira dos Santos (que adaptou o livro para o cinema em 1984), aponta que há 237 personagens (!) citados em toda obra. Baita reportagem. As memórias de Graciliano estão, portanto, voltadas para fora, e nesse sentido, estão próxima dos objetivos de uma narrativa jornalística. E são, evidentemente, grande literatura.

A questão, nesses casos, não é perguntar se um texto não-ficcional pode ter status literário. Pode, isso é mais ou menos óbvio. O problema é dizer que esses relatos, qualquer relato, pode ser verdadeiro. Ou apenas uma versão aproximada do fato. Aí, já é outra história.

24/06/2015

Rousseau, Hobbes e a Inteligência Artificial

Dois filmes recentes sintetizam as duas visões típicas ao redor da inteligência artificial. 

De um lado, os otimistas, que acreditam que a consciência artificial contribuiria para melhorar nossas vidas. De outro, os pessimistas, que creem que o surgimento de uma consciência artificial nos levaria a extinção. 


Em Chappie, do sul-africano Neill Blomkamp (Distrito 9, Elysium), a visão é otimista. Temos um robô que acaba nas mãos de bandidos e mesmo assim resguarda certa nobreza. Nem a sociedade é capaz de corromper a pureza e a ingenuidade de Chappie. Neill Blomkamp parece gostar de Rousseau. Chappie segue a linha de filmes como IA e O homem bicentenário. 




Já Ex Machina, estreia do roteirista Alex Garland na direção, é uma obra soturna. Caleb, um jovem programador, vence um sorteio e vai passar uma semana em um refúgio na montanha. No refúgio, Caleb conhece Nathan, CEO da empresa, e descobre que irá participar de um experimento com um robô. Um experimento próximo daquilo que seria o Teste de Turing. A diferença é que Caleb sabe que está falando com um robô, ao contrário do que acontece no teste tradicional. A máquina, chamada AVA, interpretada por Alicia Vikander, é uma versão mais sofisticada de HAL 9000. A singularidade de AVA é criada a partir do uso de um gigantesco “Big data” com informações de buscadores como o Google. Para escapar dali, sabendo que será desligada, a máquina é capaz de qualquer coisa. Manipular, mentir, matar. Como qualquer pessoa faria. Ex Machina está na linha de filmes como Exterminador do Futuro e 2001. 


De minha parte, no campo da ficção especulativa, sou mais propenso a concordar com os pessimistas. Se sobrevivermos a nós mesmos, a inteligência artificial será o começo do fim da espécie humana.

22/04/2015

Revista Raimundo


Acaba de sair a edição de outono da Revista Raimundo, editada por Rafael Lasevitz e Raquel Parrine. A revista reúne poesia, ensaio e prosa. Participo da publicação com o conto Banho Quente.



13/04/2015

Piloto-automático


Tinha um casal no ônibus com carrinho de bebê próximo da porta. Uma criança de uns quatro meses, no máximo. O ônibus era um desses modelos mais antigos, uma carcaça montada sobre um chassi de caminhão. O casal deu sinal para descer no ponto do viaduto Washington Luís. O ônibus parou e as portas se abriram. O homem desceu na frente. A mulher empurrou o carrinho até a beirada e o homem pegou na ponta do carrinho. Subiram três pessoas, apressadas. E de repente o motorista fechou a porta. Mas o casal ainda estava descendo o carrinho. Houve uma gritaria generalizada e a porta chegou a encostar no carrinho e começou a apertar. Mas o motorista viu o erro e abriu outra vez a porta. Foi por pouco.


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Domingo passado fomos almoçar na casa do meu sogro. Não tinha sol. Chuviscava. Era mais ou menos 13h. Numa travessa da Sabará, havia um homem e uma mulher na esquina vestindo uma faixa: 90m², 3 vagas de garagem, últimas unidades. Deixa eu repetir: eles não estavam segurando a faixa, eles eram a faixa. Duas camisetas coladas e esticadas numa seta gigante. Como irmão siameses de borracha. O homem fumava um cigarro. A mulher usava um fone de ouvido. Finalmente entendi o sentido da palavra desumanização.

20/03/2015

Sonhar com música

Você fica animado quando descobre que vai ter algumas janelas nesse semestre. Mas logo o ato de ter que ir até a Vila Mariana para assistir apenas uma aula na quinta-feira à noite se transforma em algo desanimador. Uma hora no nosso glorioso transporte público, com direito a baldeação metrô-ônibus. Ida e volta. Meia tonelada de combustível fóssil despejado na atmosfera. Pra nada: uma aula sobre obviedades. Mas pelo menos dá pra brincar um pouco com o Joaquim antes de sair. Além de espalhar a coleção de discos pela sala, de escolher um disco aleatório e pedir pra colocar na vitrola, e girar o volume ao máximo e colocar um carrinho pra girar em cima do disco - e depois pegar outro disco aleatório e repetir o processo - ele também me arrasta pelos quatro cantos da casa e se enfia embaixo da tábua de passar e joga os sapatos atrás da máquina de lavar. A primeira coisa que ele aprendeu a dizer foi “água”. E segunda foi “rua”. Então ele me arrasta até o trocador e pega o par de tênis e entrega na minha mão porque já aprendeu que calçar tênis é sinônimo de abrir a porta, entrar no elevador e caminhar até a portaria do prédio e ficar apontando para os ônibus que passam lá fora. Mas é só mostrar pra ele as luzes acesas lá embaixo. É um código que a gente estabeleceu já tem um tempo. Você diz que está escuro e ele sabe que se trata de banho e trocar de roupa e dormir. E por isso resiste em vir no colo. E eu preciso ir à aula.


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Uma vantagem de sair de casa às 19h50 e pegar um ônibus no sentido do centro é que todo ônibus que passa está vazio. Contrafluxo. Nem mesmo o rescaldo daquela chuva apocalíptica do meio da tarde afeta seu trajeto. E também não há trânsito. Dá pra abrir o livro sem incomodar ninguém. O primeiro conto, Dimensões, é sobre uma garota que conhece um técnico de enfermagem um tanto quanto implicante chamado Lloyd. No começo você não sabe do que se trata, a narrativa é fragmentada, os diálogos e o discurso indireto livre parecem evitar cair no centro da questão. Como se ao mesmo tempo que tentasse se lembrar, tentasse também se afastar do que aconteceu. “Eu sei que essas palavras já estão mortas de tão gastas”, ela disse. “Mas continuam verdadeiras”.* E logo a narrativa avança e você de repente já sabe que a coisa vai terminar mal. “Doree tinha saído correndo da casa e tropeçava pelo quintal da frente, com os braços cruzados apertando a barriga como se tivesse sido cortada ao meio e tentasse se manter inteira”. Então o maluco do Lloyd, o enfermeiro, vai parar numa instituição psiquiátrica e começa a escrever umas cartas totalmente lúcidas – excessivamente lúcidas – para Doree. E Doree começa a visitar o sujeito escondido. Depois de tudo.

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A aula é um horror. Um grande almoço de domingo. Um professor que se declara “de esquerda” defendendo a tese desenvolvimentista encarnada na construção de Belo Monte abertamente. Argumento: essas obras faraônicas são fundamentais para o crescimento do país. O que seria do Brasil sem Itaipu? Além disso: sujeitos que têm bolsa do Prouni e vivem na periferia (e que acham que programas de transferência de renda e combate a desigualdade como cotas, bolsas de estudo e bolsa família são esmola) dizendo que quem protesta durante a semana é vagabundo. “O protesto foi domingo porque a gente trabalha”. Outro sujeito dizendo que o imposto sobre heranças não funciona em lugar-nenhum. E que essas Ongs e entidades, sob pretexto de defenderem os direitos das pequenas comunidades tradicionais que serão afetadas pela construção de hidroelétricas, atrapalham o desenvolvimento do país. Uns ignorantes. Uns atrasados. Um estorvo para o crescimento da nação.

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No metrô uma amiga da sala me conta sobre seu TCC. Um documentário sobre pessoas que perderam a visão. Ela diz que já tem alguns personagens, inclusive um casal de cegos que vive juntos há muitos anos. “E eles sonham?”, pergunto. “Claro”, ela diz. Depois eu falo daquele conto famoso do Carver, Catedral, onde um cara fuma um baseado com um cego e depois tenta descrever para o cego como é uma catedral. O assunto acaba aí. Não tenho muito o que dizer da monografia que estou escrevendo sobre Memórias do cárcere. Exceto o labirinto kafkiano em tentar e sempre fracassar em marcar um horário com o meu orientador. Desço na estação Conceição e pego o ônibus. Consigo terminar de ler o conto da Alice Munro. No meio da Cidade Bagdá, onde tem um barzinho que funciona até tarde, uma viatura da ROTA está estacionada. Olho de relance e vejo três caras encostados na parede tomando geral. Dentro do bar um policial com fuzil apontado para três homens de costas no balcão. “Rota na rua. Bandido bom é bandido morto”, diz o motorista do ônibus, imitando o timbre de voz do Dr. Paulo. A coisa é tão assustadoramente previsível que um arrepio escala minha coluna e estoura na nuca. O cobrador ameaça argumentar: “às vezes é até trabalhador”. Mas logo desiste. Um passageiro próximo da porta da frente – um senhorzinho aposentado de boné que sempre desce naquele ponto, sempre com uma sacola de pão: “Esse era bom. Rouba, mas faz”. O motorista abre a porta e repete: “Rouba, mas faz. Rota na rua”.

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“Rua”, segunda palavra que meu filho aprendeu a falar. Então você resolve descer no ponto depois daquele em que desce todos os dias. Dá uns poucos minutos de diferença, mas pelo menos é mais movimentado, mais iluminado. Uma mulher que vem na minha direção, em sentido contrário, ao longe, atravessa para o outro lado da rua, no breve intervalo entre os carros. Acendo um cigarro. E sigo imaginando os sonhos de um cego. De um cego de nascença. À noite é arrastado para outro tipo de escuridão. Uma escuridão menos opressora. Tranquila. Um sujeito que nunca viu uma imagem. Deve sentir uma forte vertigem. Pesadelos com cachorros e cobras. Os solavancos e empurrões de um bando de estranhos. Vozes que giram ao seu redor e ele de repente vai ao chão com a certeza de enfiar a cabeça num toco cheio de pregos. Pisar em cacos de vidro. Os móveis da casa trocados de lugar a todo momento, como se tivessem pernas, como se fossem um bando de espíritos zombeteiros. Não sei. Imagino. Quando o sonho é bom deve sonhar com música.

26/02/2015

Ler ficção

Dezembro, fim de semana entre o Natal e o Ano Novo. Estava sentado na escadinha, no canto da praça, contemplado um sábado acontecer. Objetivamente o cenário era o mesmo: moleques mal saídos da puberdade orbitando carros de porta-malas abertos. Sertanejo universitário ou um rock cafona do tipo Dire Straits e Guns N' Roses. A única viatura de polícia da cidade ronda o local e os moleques baixam o porta-malas e depois levantam quando a polícia vai embora. A grande conquista de suas vidas é ludibriar três policiais caipiras entediados de tanto andar de carro numa cidade quase sem carros. Há dez, quinze anos, a mesma cena se repete. Mas havia alguma coisa diferente antes, algum tipo de cegueira que me preservava de cair num sufoco fisico com todo aquele ridículo. Antes, essa pobreza de espírito não me incomodava tanto. Mas agora o ar era irrespirável. As ruas tinham encolhido e toda a cidade era de repente um grão de areia submerso no universo da pequenez total que afinal define qualquer lugar. E qualquer vida. A pequenez contra a qual tentamos lutar. Não dava para acreditar que eu tinha vivido tanto tempo ali e que aquilo tivesse sido tudo.

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Nas últimas páginas de Um outro amor, Karl Ove acaba retornando ao lugar de sua adolescência, em que se passa grande parte de A morte do pai. Há um descompasso tremendo na forma como Karl Ove via (ou se lembrava) do lugar, e como o lugar realmente era. Esse desacordo gera um estranhamento profundo em Karl Ove:

“Tem muita pouca coisa aqui. Aliás, não tem nada. Nunca vi um lugar assim antes. Não tem nada aqui. E em outra época isso foi tudo para mim”.

E mais adiante:

“Todos os lugares que eu trazia dentro de mim, que tinha imaginado infinita vezes ao longo da minha viva, passaram do lado de fora da janela, sem nenhuma aura, totalmente neutros, assim era tudo aquilo, na verdade. Umas poucas rochas, uma pequena baía, um trapiche decrépito, um braço de mar, umas casas velhas e uma planície que descia rumo à água. Era tudo”.

Depois concluiu:

“Mas vidas continuavam a ser vividas naquelas casas, e para elas aquelas coisas todas ainda eram tudo. Pessoas nasciam, pessoas morriam, faziam amor e discutiram, comiam e cagavam, bebiam e festejavam, liam e dormiam. Assistiam televisão, sonhavam, tomavam banho, comiam maçãs e olhavam para os telhados das casas em meio aos ventos de outono, que faziam balançar os pinheiros compridos e esbeltos. Um lugar pequeno e feio, mas que era tudo que existia”.

Difícil é saber se o desencanto é com a paisagem concreta, com a memória que se construiu (um tanto quanto idealizada) ou as duas coisas ao mesmo tempo. 

Mais ou menos o que diz Heráclito, sobre a impossibilidade de se atravessar o mesmo rio duas vezes. Porque nem o homem nem o rio são os mesmos.

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Acho que todo mundo sabe que nem sempre é bom rever aquele filme favorito de quando se tem 15 ou 16 anos. O horror de reencontrar alguém por quem fomos apaixonados há muito tempo e constatar o quanto aquele sentimento era ridículo. Ou lembrar de chofre de bobagens que acreditamos  e defendíamos arduamente enfurecidos numa cozinha de festa de república. É mais ou menos disso que se trata. 

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A leitura de uma narrativa de ficção é sempre uma forma de experimentar a própria vida na vida dos outros. Percorrer uma narrativa (afinal essa ordem narrativa só existe nos livros, nunca na vida, e por isso narramos, para tentar colocar ordem no caos que é viver uma vida), é também uma forma de inaugurar embates com seus próprios conflitos evocados através dos conflitos das personagens. Acredito que é mais ou menos isso que as pessoas querem dizer quando dizem que “entraram na história”. Ou que saíram “transformadas” de um livro. Ou em casos mais enfáticos “esse livro mudou minha vida”.

Meu estranhamento depois do Natal aconteceu antes que chegasse a parte do livro em que Karl Ove narra uma experiência semelhante. E ler o relato de Karl Ove tornou a minha própria experiência ainda mais clara e vívida. Exatamente porque a coisa (sentimento, impressão) se repetiu de forma organizada e com o distanciamento e controle que a posição de leitor nos coloca. E eu acho isso do caralho. Um entre os grandes baratos de ler ficção.

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Mas ler ficção é principalmente se deixar arrastar por universos estranhos e experimentar ambientes emocionais, estéticos e intelectuais completamente diversos daquilo a que estamos acostumados. Deixar-se contaminar com novos ares e com mundos singulares calcados nas angústias e prazeres fundamentais da realidade humana: amor, paixão, abandono, solidão, aventura, humor, morte, a inalcançável experiência do tempo.

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O deslocamento de Karl Ove não se resume no entanto ao deslocamento geográfico, ao fato de deixar a sua pequena província na Noruega e ir para Estocolmo. É um descolamento existencial. 

Ele escreve: 

"É simples entender uma vida, pois os fatores que a determinam são poucos. Na minha vida foram dois: meu pai e o fato de que eu não pertenci a lugar nenhum".

Eis aí o eixo duro dos dois primeiros livros. Somando-se a isso os apuros com os filhos pequenos, consigo entender porque tenho curtido e me identificado tanto com esses livros do sr. Knausgard.

De toda forma, a expectativa em relação ao terceiro só aumenta. Parece que A ilha da infância deve ser ainda mais foda. O livro chega nas livrarias em maio.

Enquanto não chega, estou me debruçando sobre Extinção, do Bernhard.


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Camus em quadrinhos

Passou mais ou menos batido um baita lançamento no ano passado. A tradução da versão em quadrinhos de O estrangeiro, do Camus, por Jacques Ferrandez (Quadrinhos da Cia, 2014). É um troço simplesmente sensacional.  




Jacques Ferrandez nasceu na Argélia e trabalhou no país por 25 anos. Tem grande familiaridade com o local, assim como Albert Camus. Em entrevista ao Estadão, Ferrandez disse: "Camus jamais esteve muito longe de mim e eu o tornei minha referência, até que passei naturalmente à ilustração de um de seus contos, L’Hôte (O Hóspede), uma novela extraída do L’Exil et le Royaume, de 1957, que apareceu em 2009. Desejei adaptar essa obra maior de Albert Camus da forma mais fiel possível ao romance." 

Ferrandez enche a página de luz na primeira parte do livro. Como se o sol estivesse conduzindo a história. Depois da cena da praia, as sombras tomam conta de tudo.


05/12/2014

Sexta-feira

O siso estava fraturado e latejando e a dor se espalhava pela fileira de dentes. Não dava pra saber de onde vinha. Doses cavalares de analgésicos e anti-inflamatórios não faziam mais efeito. Às vezes vinha uma onda aguda como se uma agulha incandescente transpassasse o dente até o osso. Vai ter que extrair, disse o doutor. Eu disse que tudo bem. Duzentos e oitenta, ele disse. Depois completou: Até duas vezes, se quiser. Sem problemas, eu disse. Tomei um comprimido e depois me sentei na sala de espera. Ia demorar pelo menos uns vinte minutos pra realizar a extração. Tinha uma fonte d’água borbulhando embaixo da escada, logo atrás da mesa da secretária. Eu me levantei e fui dar uma olhada. Não tinha mais nada pra fazer. O poço artificial era bem realista. Revestido de pedras escuras e com plantas espalhadas de um lado a outro. E as carpas amarelas nadando de um lado a outro. A imagem bruxuleante de rabos serpenteando vermelhos e as bocas num abre e fecha igual velhos banguelas mascando a própria língua.

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O ônibus cruzou a Av. Santa Catarina e entrou na Alba. Era um desses dias secos e quentes em que a camisa gruda feito lesma nas costas e o Sistema Cantareira cai dois pontos e você não aguenta mais engolir saliva na inútil expectativa de dar um jeito na boca seca. Lá fora o céu oferecia um azul embaçado e pálido. Nenhuma nuvem. Era sexta-feira. A gente tinha pensado e descer pro litoral, mas eu precisava entregar um trabalho. E também já tinha usado todas as faltas daquela matéria. Na sexta-feira as ruas sempre ficam cheias de churrasqueiras e homens com latinha de cerveja e fumando cigarros desses maços de nomes indecifráveis. Alguns de uniforme e outros nos trajes mais neutros. Nalgumas vezes aparece um chapéu, sem qualquer retórica de modismo, uma noção de elegância que não existe mais. O fato é que bem no pé do morro um córrego negro segue seu rumo, a despeito do lixo brotando de todos os lados. E então vem aquele cheiro de esgoto e o cheiro suculento de carne fresca na brasa. Tudo ao mesmo tempo. É difícil saber o que sentir. Mas num desses corredores, onde ainda despencam cartazes de políticos da eleição municipal de 2012, misturados com as eleições deste ano, crianças correm livres. Na rua. Ao redor de carcaças de carros e motos. Descalças. Sem camisa. E ao longo do morro, depois da ponte, mulheres sentadas no passeio, com cadeiras na porta de casa. Janelas abertas, portas arreganhadas. Nada de grades. E bebês de colo engatinhado na calçada. A liberdade de um parque dinamarquês ou de cidade de interior.

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Num farol antes da avenida que dá para o metrô, há uma oficina de eletrônicos. TV’s de tubo, Microsystem CEE e até um toca-discos. Comfortably Numb está tocando tão alto que abafa o barulho do motor do ônibus e os ruídos da cidade. Dois homens conversam aos gritos e rindo e cada um com uma latinha de Antarctica na mão. As telas atrás deles estão todas sem vida. Os homens parecem companheiros de longa data, como toda dupla de bêbados. Parecem estar naquele ponto da conversa onde se alcança algum tipo de grande iluminação sobre um fato mais ou menos obscuro da vida: nostalgia, morte, amor, a extinção das fitas K7.

Mas a gente sabe como isso termina. 

E sexta, hein, Roberto?, diz um deles, quando se encontram na segunda. 

O outro ainda se esforça, mas sabe que é inevitável: Não lembro de nada.

Nem eu.

18/11/2014

Revista Jangada




Só pra avisar que saiu um texto meu na Revista Jangada. Trata-se de um texto de ficção que faz parte de um projeto ainda em desenvolvimento e sem prazo pra terminar. Pra ler a parada é só clicar aqui.

Até.

04/11/2014

Além da imaginação






Amigos, escrevi um artigo sobre por que a versão original da série The Twilight Zone é tão assustadora. Se tiver interesse, é só clicar aqui. 



23/10/2014

Galos, quintais e as casas de sete dígitos



Como hábitos tradicionais e saudáveis só adquiriram valor e status depois que passamos a pagar — e caro — por eles






Dia desses fomos até a Zona Cerealista, no Brás, próximo ao Mercadão. É um conjunto de ruas cheias de armazéns que vendem todo tipo de coisa a granel. Depois que o Joaquim nasceu, a gente tem se esforçado em abastecer a casa com coisas saudáveis. Nem sempre é fácil. O preço dos orgânicos e integrais é bem mais salgado que os industrializados. E acho que nunca vou me acostumar com as cifras exorbitantes do quilo de chuchu – um troço que eu sempre comi de graça.

Cresci numa casa com um quintal repleto de galinhas e árvores frutíferas: goiaba branca e vermelha, jabuticaba, três qualidades de laranja e mexericas, gigantescas bananeiras com cachos despencando. E o abacateiro robusto com uma casinha de João de Barro mal ajambrada nos galhos. Sem contar os vastos canteiros de hortaliças que meu pai cultivava desde sempre. Couves com folhas que davam para fazer um chapéu.

Tive vários cachorros e gatos, que conviviam em harmonia com porcos e pintinhos. Era quase um sítio.

Meu pai também costumava arrendar terrenos e plantar feijão, arroz e milho. Lembro dele com o típico chapéu de palha na cabeça batendo feijão no fim de semana. A vara estralava e os grãos se soltavam na lona. Depois ele varria tudo e passava na peneira e guardava tudo numas latas de metal de vinte litros. Muita gente fazia o mesmo. Acho que a prática não deve ter desaparecido de todo, mas no meu tempo de criança era comum andar pela rua e ver feijão secando na frente de inúmeras casas. E mesmo nos armazéns e mercados havia arroz e feijão a granel, tudo produção local, que a gente comprava com caderneta. Não sei se existe mais.

Até a carne do açougue vinha de um matadouro que ficava ali perto de casa. As vacas eram conhecidas – se é que você me entende.

O tempo foi passando, chegou o micro-ondas e as prateleiras dos mercados ficaram mais coloridas e variadas – a geração do meu pai foi logo seduzida pela publicidade das nítidas imagens da TV com Parabólica.

A ilusão de maximizar o tempo. O tempo economizado é gasto trabalhando mais para pagar as coisas que nos prometiam garantir mais tempo livre.

Sem querer parecer alarmista e romântico: a ideia de progresso e cidadania ancorada nas ilusões propagadas pelo consumismo ainda vai nos levar ao fundo do poço.

Ao invés de criar galinhas e matar na hora, de reservar os restos de comida para engordar porcos, passaram a comprar carnes e frutas industrializadas. Acho que em algum momento comer frutas orgânicas, diretas no pé, ou galinhas caipiras mortas na hora, manter um chiqueiro no fundo do quintal, era sinal de atraso e pobreza. E ninguém quer parecer pobre e atrasado. Era por isso que quando recebíamos convidados comprava-se Coca, ao invés de fazer um suco com laranja sangue de boi. Ou se comprava um frango anabolizado e peças de porco embaladas a vácuo. E as alfaces do mercado eram tão mais robustas, os tomates inchados e uma das mexericas da gôndola davam três daquelas que tinham no pé de casa. O gosto é insosso, mas o importante é agradar os olhos com o volume.

Numa cidade como São Paulo, para o Joaquim se alimentar como eu me alimentava na minha infância no interior de Minas, com orgânicos e integrais, eu teria que ganhar na Mega-Sena. Produtos orgânicos custam até 600% mais caro que o similar industrial. E não dá pra pensar na possibilidade de agricultura doméstica: uma casa com quintal do tamanho da casa dos meus pais, aqui em São Paulo, dependendo do lugar, chega fácil aos sete dígitos.

A varanda do apartamento que moro hoje mal cabe três pessoas. E a ainda tivemos que colocar uma tela de proteção, por causa do bebê. Tela na minúscula varanda e em todas as janelas. A vista dá de frente para uma trinca de outros prédios. Quadrados, cinzas, todos iguais. Para o meu desespero, o síndico mandou um punhado de árvores pro chão no mês passado. Mas ainda ouço uns passarinhos cantar lá fora, nas poucas árvores que sobraram. Dia desses tive a impressão de ouvir um galo cantar. Já passava das seis e meia da manhã e eu fumava o primeiro cigarro do dia. Ouricei os ouvidos e os olhos flanaram no horizonte. Um avião passou. Sirenes ao longe. Carros de farol baixo e manobrando no estacionamento lá frente. Joguei o cigarro fora —  ainda parei por um tempo — compenetrado. E nada. Pura miragem. Delírio.


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Obs: Acho que vou migrar o blog pro Medium. Por enquanto, ainda vou postando aqui e lá.

10/10/2014

Por que não voto em Aécio?

Ou como a redução da maioridade penal vai otimizar o poder do sistema carcerário em transformar menores infratores em profissionais do crime 


http://www.malvados.com.br/
Andre Dahmer


Independente de quem vença no segundo turno, o grande estrago já foi feito. Não bastasse os assustadores 500 mil votos de Levy Fidélix (PRTB), cujo discurso homofóbico gerou revolta em grande parte da sociedade, o Congresso eleito este ano é o mais conservador desde 1964.


Houve aumento da bancada de religiosos, militares e ruralistas. Num cenário assim, é possível prever uma flexibilização da legislação ambiental, diminuição de políticas públicas a favor das minorias e maior criminalização e desemparo dos movimentos sociais. Além disso, pautas urgentes como a legalização do aborto, criminalização da homofobia e descriminalização das drogas devem se tornar inviáveis. 

E o mais preocupante: a redução da maioridade penal deve entrar nas discussões e pode vir a ser uma realidade. Daí meu motivo concreto para não votar no candidato do PSDB. 

Grandes vozes do partido tucano são a favor da redução para 16 anos. O Governador Geraldo Alckmin, o candidato Aécio Neves e seu vice, o ex-guerrilheiro Aloysio Nunes, já declaram publicamente o desejo de encarcerar menores infratores. 

Em 2013, quando um vídeo de um jovem morto em um latrocínio na porta de casa foi exaustivamente repetido nos telejornais e na internet, sensibilizando o público, uma pesquisa feita ao calor da hora revelou que 93% dos paulistanos era a favor do endurecimento do tratamento a menores. Diante deste contexto, os dois tucanos paulistas encaminharam um projeto ao Senado. A Comissão de Constituição e Justiça da casa rejeitou o projeto de lei do senador. No entender do colegiado, o projeto era inconstitucional e feria os direitos das crianças e dos adolescentes. Mas agora, com um congresso com esse perfil e a possibilidade do PSDB no executivo, a realidade é outra. 

Respeito muito os sentimentos das famílias que perderam alguém vítima de um crime envolvendo menores. O desejo de que alguma coisa seja feita – até mesmo um sentimento de vingança – é totalmente compreensível em casos assim. Desde que fique no fórum íntimo. A Lei não existe para promover a vingança e tampouco pode amparar-se na subjetividade, em um sentimento. Por maior que seja a dor. Isso porque vingança não resolve o problema da criminalidade. Pelo contrário. Pode aumentar. E uma legislação baseada em sentimentos levaria a sociedade à barbárie.

O fato é que mandar menores de 16 anos para o sistema carcerário brasileiro, da forma que ele está, é aumentar as chances desse jovem que cometeu um delito cair numa espiral de reincidência. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 70% dos egressos nos presídios voltam a cometer crimes. Ou seja, de cada dez criminosos, apenas três se recuperam – sete voltam a ilegalidade. 

No Estado de São Paulo, ao contrário do que diz o senso-comum, o menor infrator não fica impune. Ele é também privado da liberdade. É apreendido e encaminhado para a Fundação Casa. A diferença é que o índice de reincidência na Fundação Casa é de 13%. Ou seja, de cada dez menores que cumprem medidas socioeducativas – 8,7 se recuperam. Apenas 1,3 voltam a cometer delitos. 

Sistema Prisional: de cada 100 presos, 70 voltam a criminalidade. 

Fundação Casa: de cada 100 menores, apenas 13 são reincidentes. 

Ou seja, ao propor que menores infratores sejam mandados para o sistema prisional, Alckmin, Aécio e Aloysio Nunes, ao contrário de combater a criminalidade, estão na verdade aumentando o índice de bandidos nas ruas. 

Não há nenhuma racionalidade em reduzir a maioridade penal. E não dá para votar em um partido que defenda essa bandeira.

São necessárias propostas que reduzam a reincidência tanto nos presídios como nas fundações para menores. Além de propostas concretas para inibir o ingresso de jovens no mundo do crime. Mesmo nesse tocante, a visão desses senhores é tacanha: repressão policial. E mais nada. Não dá para colocar sujeitos assim à frente de um país.

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Em tempo: Bruno Paes Manso, um dos melhores jornalista em atividade hoje no país, escreveu um artigo elucidador sobre a questão da maioridade penal. Não dá para ignorar esses dados:

“Foram pesquisados 3.233 casos de homicídios e latrocínios de 2005 ocorridos em São Paulo. Esse ano foi escolhido para que houvesse mais tempo para que os casos na justiça fossem dados como resolvidos. Os resultados são reveladores

- Do total, só 1,9% (69 casos) foram cometidos por adolescentes com menos de 18 anos de idade.

- No mesmo ano, 264 assassinatos (11%) foram de autoria de policiais militares.”

O artigo completo está aqui.


08/09/2014

Mulher de branco


Detalhe: “Alexandrina e sua Cidade”, de Carybé (1944),  (Foto: Divulgação)


Sábado passado fomos até o Tomie Ohtake ver Histórias Mestiças. Recomendo fortemente. Com a curadoria de Lilia Schwarcz, a exposição é ótima, reúne grandes obras, destas que a gente vê nos livros de histórias e literatura. O único problema é que não há nenhum lugar para sentar. É normal em exposições, mas não facilita a vida de casais com bebê de colo.

Com os joelhos frouxos, encontramos um minúsculo banco praticamente escondido sob as escadas, na saída do restaurante. Já tínhamos almoçado. Paramos antes num restaurante mineiro próximo de casa. Desfiei exaustivamente uma lasca suculenta de picanha para o Joaquim. E ele comeu todo o arroz e o purê de batata e o feijão e o angu que aqui eles fazem temperado. Era por isso que estava com sede e a Quel retirou o copinho da bolsa e começou a encher d’água. Havia pouca gente na exposição, o que me deixou intrigado. O acervo conta com obras de Adriana Varejão, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Portinari. Mas talvez ver esses troços ao vivo seja novidade apenas para mim, um caipira parcamente ilustrado.

Meus olhos flanavam ao longe, pensando em boletos, entrevistas de emprego e o maldito TCC. Logo aquele sábado terminaria e seria domingo já soterrado pela segunda. Essa ansiedade inevitável em aproveitar o fim de semana.

Surge uma família, saindo do restaurante. Um casal grisalho e um outro casal mais jovem, na faixa dos trinta e poucos. Eles avançam à frente naquele andar de leseira e bucho estufado, os dentes branquíssimos e as canelas brancas sob bermudas cáqui. Não olham para trás. No rastro vem uma senhora vestida de branco, cabelo crespo amarrado num coque e monitorando de perto os passos destoados de uma menina de pouco mais de um ano. 

Os dois casais à frente riem e conversam tão baixo que as bocas se movem em silêncio como peças publicitárias de banco sob efeito da tecla mute. A menina dá um giro e anda na direção contrária e fala alguma coisa. Apenas um dos homens olha para trás, de relance, mãos enfiadas nos bolsos, como quem olha um ônibus passar na rua. A mulher de branco tem um semblante alegre e cansado, as mangas arregaçadas, o suor lustrando a face. Está próxima o suficiente da criança para evitar um tombo. Pega a menina no colo e elas caminham na direção de uma vitrine. Elas conversam e riem e trocam beijos no rosto e se afastam cada vez mais da família, já no pé das escadas. O homem de bermuda olha para trás, como quem procura o cachorro fora da coleira. Faz um maneio de cabeça e começa a subir os degraus. A mulher de branco segue atrás. A menina mexe no cabelo da mulher e parece cantar. No alto da escada, o homem de bermuda espera, olhando de cima para baixo. Tira as mãos dos bolsos. Quando elas chegam ao topo, o homem estica os braços. Mas a menina se contorce, vira de costas, e se agarra à mulher de branco. Agarra. Chora. E balança os braços. O homem sorri. Enfia as mãos nos bolsos outra vez. E segue à diante.


09/08/2014

Primeira vez

Arquivo pessoal

Não sei com você, mas comigo é assim: o dia passa cada vez mais lento e os anos cada vez mais rápido. O relógio custa a girar até meio-dia, depois meia eternidade até o final do expediente. Mas ontem mesmo era janeiro e agora o calendário na geladeira me informa que estamos já entrando no fim da primeira quinzena de agosto. 

Tempo é um troço estranho.

Mas eu estava pensando essas coisas porque segunda já faz dez meses que meu filho nasceu. Parece que foi ontem que a Raquel e eu chegamos à maternidade, um tanto quanto amortecidos e anestesiados pelo nervoso. Ela participou de vários grupos, eu vi algumas palestras, pesquisamos muito a respeito do parto humanizado e visitamos uma meia dúzia de médicos e maternidades. Nosso desejo sempre foi fazer as coisas da melhor forma possível. Estávamos focados. E realmente tudo correu perfeitamente bem no parto, que foi natural, sem qualquer intervenção - até um pouco além das nossas expectativas. 


Claro que os dias na maternidade são um conto de fadas. A gente acha que o parto é o maior desafio e quando ele acaba parece que tá tudo resolvido. Ainda mais com refeição quentinha servida de três em três horas. Enfermeiras que trocam as fraldas do bebê e dão banho. Sem contar nas arrumadeiras que limpam tudo e só faltam nos servir cerveja com picanha. E a quantidade constrangedora de presentes chegando? Dá até vergonha, mas a gente acaba aceitando que é uma necessidade da nova família viver esses primeiros dias assim. É só curtição. Mas quando voltamos pra casa, são outros quinhentos. Descobrimos que o parto é só uma ínfima parte de todo processo. E nunca se está preparado para uma coisa como essa: éramos dois, agora somos três. Acompanhar o pré-natal e o parto e tentar se preparar para a paternidade é o mínimo a fazer. Só não evita o desespero em noites sem sono diante da exigência de uma dedicação integral. A logística das mamadeiras, das fraldas, do colo. E o mais duro é tentar reconstruir aos poucos aquela vida de casal de antes. Uma entrega que talvez você nunca tenha imaginado dispôr. Mas precisa ter. Como todas as grandes coisas que valem a pena nessa vida, essa disposição não tem fórmula. Tem que aprender por si mesmo.

***

Dia desses, o Joaquim ficava virado de costas como uma tartaruginha batendo as perninhas de ponta cabeça. Agora engatinha pra todo lado e já cai os primeiros tombos. Passa rápido. E a coisa que mais me surpreende é o modo como a relação entre pai e filho é construída e solidificada ao longo do tempo. Parece óbvio. Mas não é. Num primeiro momento, é pura emoção. E a prevalência de um instinto muito forte de proteção e acolhimento. À medida que os meses passam, o vínculo fica mais profundo e complexo. É natural que seja assim. Não existe amor a priori. Toda relação precisa de tempo para tecer conexões mais complexas, sedimentar as experiências compartilhadas. Precisa sobretudo de memórias em comum, de reconhecimento. E quanto maior a convivência, maior o vínculo. Isso vale para os dois lados.

Daí que o desafio da nossa geração é passar mais tempo com os filhos. Trabalhando o dia todo e depois encarando uma jornada noturna na faculdade, é difícil. E eu sou totalmente contra essa tendência de despejarem os filhos na casa dos avós de segunda a sexta, enquanto os pais fazem frila de pais aos finais de semana. Há casais que abandonam empregos ou mudam de ramo ou contratam babás ou colocam os miudinhos no berçário. É uma sinuca de bico. O que é o melhor? Não sei.

Domingo é meu primeiro dia dos pais e o tempo é a única coisa que me preocupa agora. Mas espero que faça sol e que meu time saia da lanterna. Espero que possamos todos sobreviver a esse bombardeio da publicidade infantil e não mergulhar nesse ciclo de consumismo precoce e ridículo. E também espero que os circos não acabem. E espero também ter muita paciência pra frequentar os aniversários de outras crianças cujos pais sem noção marcam as festas para às 18hs. Espero ser um bom pai, desses que encontram o equilíbrio entre a tolerância e a severidade. E também espero que amanhã o feijão da sogra não esteja salgado. E que tenham comprado uma caixa de cerveja extra.

Tudo bem ganhar três pares de meia.

04/08/2014

E um gosto de óleo no fundo da garganta


Arquivo pessoal


A mancha de sol desaparece atrás dos prédios e os postes e os carros já com as luzes acesas. O mormaço de centenas de motores em ponto morto e os carros buzinando e os motoqueiros também buzinando e subindo na calçada e acelerando avenida afora. “Como se todo mundo estivesse muito apertado pra ir ao banheiro”, alguém diz. O cheiro de borracha queimada e um gosto de óleo no fundo da garganta. Mesmo com as janelas abertas o ar é sufocante no ônibus. É tipo uma sala de espera. Nada acontece até um estrondo grave preencher tudo. Depois apenas o barulho de metal se partindo e se arrastando no asfalto. As pessoas gritam e a porta do ônibus se abre e eu tento escapar da multidão. É inútil. Vejo uma carreta cegonha caída e uma dezena desses carros em infinitos tons de cinzas prateados e retorcidos. Gigantescas bolas de papel alumínio. É difícil avançar. Há uma viatura da CET estacionada na calçada. No meio da pista e já embicado na contramão está o Chevrolet D60. Bege. Sem para-choques. Tombado de lado e com os pneus ainda girando no ar. Os braços de um homem surgem escalando a porta do passageiro. Ele fica em pé no caminhão tombado. A luz dos faróis cai sobre sua cabeça e os braços brilham como que cobertos por um verniz escuro. Há uma beleza perturbadora no rosto e cabelo ensanguentados e a camisa tingida de vermelho. Uma criança que tivesse brincado com tinta. Ele salta como se já tivesse feito aquilo infinitas vezes e dois homens correm para ajudá-lo. Eu fico muito contrariado com aquilo tudo. O homem me parece familiar, o caminhão também, mas ainda não sei quem é. Penso em dar meia volta e olhar a placa do caminhão, mas o movimento da multidão é unilateral. Os caras do SAMU pedem pra todo mundo se afastar e um cara do meu lado me pega pelo braço e balança a cabeça. “Vão sacrificar os cavalos”, diz. Não compreendo a frase até ver os animais caídos. Seis ou sete, aos espasmos, movendo os joelhos e as pernas em ângulos que lembram aranhas. Os olhos dos bichos brilham arregalados e negros e o sangue vaza das ventas, num sopro ofegante, como se tentassem refugar o inexorável. Acendo um cigarro. Acontece de tudo nesse cidade. Há muitas pessoas na rua e elas caminham em duplas e trios e cochichando coisas que não consigo entender. Não há buzinas e o barulho dos motores e as luzes ao longe são entidades imateriais. À medida que me afasto uma camionete estaciona próximo dos bichos. Dois homens descem e batem as portas e sem pressa mexem na carroceria e conversam e riem. Fuçam debaixo de uma lona preta e riem e conversam e apontam para os animais. A última coisa que eu vejo é o brilho da lâmina de um machado. Só aí eu acordo.

24/07/2014

Fotopintura




Hoje voltando de ônibus me lembrei de uma notícia que li algum tempo atrás. Um senhor de oitenta e seis anos que cometeu suicídio, saltando da janela do seu apartamento. Não lembro da cidade ou do ano, ou do andar, mas lembro que fiquei um tanto quanto impressionado.

Em tese, além dos oitenta e tanto anos não há muito o que se esperar. Já se enterrou o pai, mãe, meia dúzia de amigos, o amor, sete gerações de gatos e quem sabe um ou dois filhos. O mundo que você nasceu, cresceu e envelheceu não existe mais. O pior já passou. 

E a despeito do corpo que apodrece, do abandono dos parentes, da catarata e da osteoporose, das reprises de novelas e programas de humor no meio da tarde, você não está preso a nada. Tanto faz: livre. Daí que é meio chocante um sujeito saltar de uma janela já no crepúsculo da vida.

Não é preciso viver oitenta e tanto anos pra perceber que os dias nos tornam mais duros. Não falo de experiência, apenas de aridez. Essa é a verdadeira serenidade. Esse músculo no peito fecha-se num único calo.

***

A minha avó arranjou um namorado depois do sessenta. Já estava viúva há trinta anos. Namorava escondido dos filhos, dos netos. E até da fotopintura do meu avô no meio da sala. Quando o namorado chegava, ele jogava um pano por cima do retrato.

O namorado era um sujeito do século passado, com calça de brim e um chapéu miúdo na cabeça, uns vinte anos mais novo. Lembro dele caminhando numa toada mansa, com roupas escuras num solzão de estalar mamona. Exalava um odor de guarda-roupas trancado e tinha muita dificuldade pra entender qualquer coisa que não fosse explicada aos berros. Era um bom sujeito. 

O namoro durou quinze anos, um romance moderno, em casas separadas. 

Segundo consta nas fofocas da família, o homem dormia por lá toda madrugada. E escapava na surdina, antes que o sol apontasse. Apesar do espírito adolescente, era uma pessoa de bem. Queria casar e até visitou meus tios, escondido, pediu permissão, consentimento. 

Queria tudo às claras. Regularizar-se junto à família. 

Mas minha avó começou a reparar que o colchão do lado onde o namorado dormia estava começando a afundar. Ao invés de trocar o colchão, terminou o namoro. O sujeito ficou inconsolável. Abandonado assim, de um dia pra outro, por nada. Sumiu por um tempo e depois só lembro de vê-lo anos depois no dia do enterro. Soluçando, em silêncio. 

Meu avô deve ter ficado feliz. Nunca mais precisou dormir debaixo do pano.


23/07/2014

Dedo de prosa


Amigos, troquei um dedo de prosa com a querida escritora e jornalista Moema Vilela, sobre o Quebranto. Falei um pouco das minhas influências e do processo criativo em geral. E também sobre a questão do interior na minha ficção.

É só clicar aqui.

Até.

11/06/2014

interior



O ano é 2010. O Brasil era um dos favorito pra Copa com o tal do Luis Fabiano e do Felipe Melo e eu desembarco em Porto Alegre em março com uma mala cheia de roupas e sem pijama. Tinha quinhentos reais trocados em notas de vinte, um esqueiro bic amarelo e um maço de Luxor amaçado e um pedaço de papel dobrado com o endereço de um boliviano que vivia em Canoas e iria me hospedar por uns tempos ao valor de cento e vinte reais por semana. Tudo ótimo. Estava tão empolgado que tomei um porre monumental no Parangolé e cheguei trocando as pernas e perdi a chave da casa do sujeito.

Nem precisei pagar a primeira semana.

Encontrei a chave, mas não conhecia ninguém na cidade. Passei a segunda noite num hotel no centro com clima de Linha Direta e enredo de música do Odair José até que encontrei uma pensão de família num apartamento sublocado onde moravam um músico gaúcho e um vendedor de creme de cabelo de cinquenta anos e um jovem advogado catarinense que estudava o dia todo pra um concurso de promotor. Não sei o que aconteceu com eles. Logo me mudei pra uma república na Lucas de Oliveira com a colega de curso que depois virou amiga e que fazia tapioca com salada quase todo dia e gostava de Alice Munro. 

Ela é jornalista e tinha abandonado um emprego no Mato Grosso e a gente estava na cidade pra fazer a oficina de contos da PUCRS. Ela gostava do meu feijão mas quase nunca bebia o meu café ou uma dose sequer das garrafas de Ypioca limão que eu comprava na sexta-feira. O Luís também aparecia sempre pra discutir uns textos e beber umas cervejas e colocar alecrim nas batatas assadas no forno. Nunca li e escrevi tanto na minha vida. E foi nessa época que eu comecei a esboçar os primeiros contos que compõem Quebranto.

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Eu li o Luiz Vilela pela primeira vez há mais ou menos uns dez anos. O impacto foi forte. Lembro que pensei algo mais ou menos assim: “Eu conheço essas pessoas”. Até então acostumado a ler apenas literatura estrangeira, entre romances policiais e clássicos, era a primeira vez que encontrava personagens tão nítidos e vívidos que se confundiam com as pessoas que eu encontrava no cotidiano. O impacto foi semelhante quando li Amilcar Bettega, Carver e depois Alice Munro. Dentro do gênero conto, são os que mais gosto no momento.

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O título inicial do livro era Interior despedaçado. Os contos que eu vinha escrevendo ao longo do ano de 2011, 2012 e 2013 tratavam do mesmo ambiente e temas. Passei praticamente toda a minha vida no interior. É impossível que não haja influência. A ideia sempre foi explorar essas paisagens e personagens sem cair num discurso regionalista, provinciano e bairrista.

Mudei o título porque Quebranto é a palavra que melhor dialoga com a paisagem destes contos. Tanto no aspecto do interior geográfico como do interior psicológico.

Espero que gostem.

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Para comprar o livro basta clicar nos links abaixo. Exclusivo em e-book. Se você não tem um leitor digital, fique tranquilo. Dá pra ler no celular, no tablet e também no PC. Você escolhe. É só baixar o aplicativo na loja de sua preferência.

03/05/2014

Nebraska


Woody Grant (Bruce Dern) é um velho alcóolatra e cabeça dura que acredita ter ganho US$ 1 milhão de dólares. Embora seja motivo de piada na família, ele insiste em deixar sua casa em Billings, Montana, para ir buscar o dinheiro em Lincoln, Nebraska. Incapaz de dissuadir o pai, David (Will Forte) acaba levando-o na viagem. Pai e filho vivem uma relação distante e apagada e essa jornada por paisagens desoladas e vazias serve como uma espécie de acerto de contas - entre os dois - e cada um com a própria consciência.

A teimosia de Woody lembra um pouco o velho Alfred de As Correções, do Franzen.



Mas além do drama familiar, o filme traz como pano de fundo uma América devastada pela crise, com jovens sem perspectiva e velhos decadentes prostrados diante da televisão. Um EUA à procura de um pote de ouro no fim do arco-íris, desconectado e saudoso dos velhos tempos. 

Com uma fotografia preto e branco, planos abertos e cheios de vazio, o diretor Alexander Payne fez um dos melhores filmes de 2013. Um excelente road movie, que me fez lembrar do também excelente The Straight Story, de David Lynch.