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23/07/2014

Dedo de prosa


Amigos, troquei um dedo de prosa com a querida escritora e jornalista Moema Vilela, sobre o Quebranto. Falei um pouco das minhas influências e do processo criativo em geral. E também sobre a questão do interior na minha ficção.

É só clicar aqui.

Até.

19/01/2011

Oficina de escritores, Stephen Koch


Ontem eu tava lendo “Oficina de escritores: manual para a arte da ficção”, de Stephen Koch, tradução de Marcelo Dias Almada (Editora Martins Fontes: 2008). É um livro divertido e me fez pensar numa porrada de coisas.

Stephen Koch lecionou durante vinte e um anos escrita criativa na pós-graduação da Universidade de Columbia e durante sete anos na graduação da Universidade de Princeton. Ainda não terminei o livro, mas, até o momento, Koch não citou quem foram os alunos que passaram por ele, se algum realmente foi bem sucedido após frequentar suas oficinas. Fiz uma rápida pesquisa na internet, e estranho, o senhor Stephen Koch não tem sequer um verbete na wikipédia. Não que isso seja necessário para dar credibilidade ao trabalho, mas, sempre que me deparo com um sujeito palestrando sobre “receitas para o sucesso” e não apresentando dados concretos, é inevitável recorrer ao “complexo de Richard”, o pai da Little Miss Sunshine e sua célebre palestra sobre como se dar bem, na abertura do filme, numa sala cheia de cadeiras vazias. Pode ser também que o Sr. Koch seja um desses sujeitos mais reservados e não queira expôr resultados de maneira quantitativa. Mostrar quantos alunos passaram por suas aulas, quantos publicaram depois do curso de escrita criativa, quantos seguiram adiante na carreira de escritor, quantos produziram obras realmente relevantes. Seria pelo menos interessante, não é? Não que uma oficina seja uma indústria de talentos, forjando sujeitos aptos a boa literatura. Uma oficina não faz milagres, mais ou menos como qualquer curso superior ou uma pós-graduação. Já conheci pessoas que saíram da faculdade sem saber interpretar um texto, outros com a alcunha de doutores, teses e teses publicadas, e completamente imbecis.

Mas o livro não é picaretem, pelo menos até o momento não pareceu.

Claro, há algumas obviedades. Tipo, como uma descrição com termos concretos funciona melhor em relação a uma descrição com termos abstratos, como mostrar através da ação funciona melhor do que dizer, etc. Essas coisas que qualquer leitor, escritor aspirante, com o mínimo de leitura entende. E claro, se você escreve, logo descobre que não há receitas. Que não dá pra esperar pela inspiração. Que o melhor momento pra escrever é qualquer momento. E que os grandes autores criam seus caminhos, apesar de toda a adversidade. E que essas receitas no início até ajudam, te ajudam a experimentar as várias formas de dizer alguma coisa, de contar uma história, mas depois são um entrave, principalmente quando você precisa encontrar aquela voz que te distingue de todas as outras vozes, aquela voz que faz do teu texto algo válido e minimante relevante. E pra encontrar essa voz, bom, aí não tem receita, senão escrever.

Afinal, só se escreve escrevendo. Às vezes acontece de você esperar pelo momento ideal, mas não existe momento ideal. E se existe uma coisa que aprendi nesse breve caminho inicial de escrita é o seguinte: quanto mais se escreve mais motivado se fica. Não adianta esperar pela motivação pra escrever. Esperar pela ideia genial, esperar pela inspiração, esperar pelo momento ideal e pela motivação; são pequenas desculpas que a gente inventa pra adiar a escrita, pra deixar para o dia seguinte.

Vai esperando...

Você só terá um texto para melhorar e torná-lo apresentável se escrevê-lo. Você só terá uma história, enredo, personagens, forma, estrutura, diálogos, se você escrever essas coisas. Se você escrever essa história. Não adianta esperar pela ideia genial que cai pronta do céu e toma o controle como um espírito toma conta de um médium. Não adianta querer que a coisa jorre genial desde a primeira frase.

A maioria dos jovens escritores e aspirantes querem ser Guimarães Rosa, Clarice, Bukowski ou J. K. Rowling desde a primeira frase, da primeira versão, do primeiro texto que se dispõe a escrever. Querem revolucionar a literatura ou vender milhões. Querem que os editores batam em suas portas e dêem tapinhas nas suas costas e digam que são gênios. Querem já na primeira frase ter seu nome estampado nas livrarias, nos cadernos de cultura, querem assinar um contrato com a Companhia das Letras e ir na Flip. E ficam pensando nessas coisas, e não escrevem. Ficam nos bares reclamando, na mesa de bar, e não escrevem. E acham tudo uma bobagem (porque estão de fora) e tecem textos virulentos reclamando do mercado literário, de editores maus, do coitado do leitor burro e desinteressado e do sistema literário injusto. (geralmente, como apontado nos comentários de um post anterior, o sujeito reclamão que diz "ninguém lê", na verdade, está dizendo ninguém ME lê).

Afinal, pra que ficar aí desferindo seu ódio adolescente às coisas?

Um escritor geralmente está ocupado demais escrevendo alguma coisa pra se preocupar com essas bobagens, diria Faulkner.

Se você diz que não tem tempo pra escrever, então, meu caro, desista. Porque se você não encontra tempo pra escrever é porque está ocupado demais com outras coisas mais importantes pra você. Então vá cuidar dessas coisas e desista de escrever.

Ps: acho que escrevi esse texto pra mim mesmo, ou não. 

22/11/2010

Da personagem que pensa demais


Sou levado a interrogar em que medida as primeiras leituras feitas na vida, as primeiras leituras que realmente marcam, aquelas leituras que são qualificadas como leituras de formação, são difíceis de se abandonar.

Primeiras leituras, leituras de formação, chamem como quiserem, essas que nos afetam de tal maneira que levamos anos para digerir. Porque pra quem tem essa pretensão de escrita, elas não são apenas responsáveis pelo gosto norteador das leituras posteriores; essas leituras de formação meio que encarnam na nossa escrita. Porque, afinal, é partir delas que começamos, são a matéria prima do nosso fazer. Ou o instrumento do fazer. Como a criança que imita frases ou expressões dos adultos, mesmo que não entenda muito bem o sentido daquelas frases; até que a criança seja capaz de formar suas próprias frases, sua própria linha de pensamento.

Mas é possível se livrar realmente dessas falas? Não ecoam lá no fundo?

Porque, afinal, a criança não só imita o modo de falar, imita também os assuntos, aquilo que os adultos falam. E se livrar dos assuntos, acho, é mais penoso do que se livrar da forma de falar. Como alguma coisa que gruda, como uma geleia grudenta daquele conto "Hereditário" do Amilcar Bettega.

Em alguns momentos me sinto meio que obsediado por aquelas primeiras leituras, pelas leituras de formação; mesmo que o esforço de rejeição seja forte; mesmo que em tese meus argumentos e ideias tenham superado aquilo que aquelas leituras impingiram. É difícil se livrar delas. Não falo nem dos maneirismo, ou cacoetes de linguagem, numa imitação de estilo daqueles autores que carregava debaixo do braço, porque esse tipo de imitação talvez seja por demais evidente e fácil de superar; ou pelo menos aparentemente fácil. Falo de um outro vício, dessas ideazinhas, do hábito dos personagem por uma certa postura reflexiva, um certo afastamento à realidade, um ímpeto para questionar, entender suas razões de ser, de estar no mundo, essas bobagens, essa veia pseudo-metafísica, pseudo-existencialista, com seus problemas típicos: liberdade, verdade subjetiva, solidão, esses tipos sem importância buscando razões para encontrar sua importância nesse mundo sem razão e sem importância.

A construção desses tipos, sempre se dá de dentro para fora, alguma coisa que flui de uma espécie de centro de abertura desse personagem, do núcleo da personagem; com um que de defeito e vai engolindo tudo ao redor, questionamento à medida que alarga, que expande, feito um vazamento, vai alagando tudo, desconstruindo ideias, colocando dúvidas, vai dissolvendo as coisas concretas, tornando tudo pastoso, líquido, dissolvendo tijolos, pedras, dissolvendo o esqueleto do próprio personagem. E fica só um grande núcleo, essa voz do personagem, falando tanto que não diz nada, falando no centro de um grande oco, esvaziando o próprio sentido das palavras, e fica só esse desespero sem saída, ruminando, ruminando; e porque o personagem já engoliu tudo e fica sem alteridade, fica tudo igual e vazio, um personagem escorrendo por todos os lados, igual por todos os lados, sem distinção, e que no fim das contas, sem encontrar onde se reconhecer, se apega ao silêncio como última saída de alteridade, e eu, me apego ao silêncio dessa personagem e também me calo.

Cansei de personagens que pensam demais.

22/10/2010

O demônio que mora no texto


Voz autoral, esse é o segredo de qualquer texto literário. 

Voz autoral é aquilo que separa um texto comum,de um texto literário. É o feitiço do texto, a varinha mágica que abre uma fresta na realidade, faz do processo de leitura uma espécie de mergulho, submersão, faz do entorno algo suspenso, quebra o pacto de ligação com o cotidiano, provoca a suspensão de juízos, é a quarta parede da representação textual.

Se você não consegue construir uma voz autoral, desista. Essa é a lei.

Porque é a voz autoral que coordena a voz narrativa, que coordena cada narrador de cada história, sustenta todos eles, como um maestro sustenta uma orquestra. Voz autoral é aquilo que faz de cada autor um autor. De cada livro um livro, cada capítulo um capítulo. Faz de Kafka, Kafka. Faz de O castelo, O castelo, e de A metamorfose, A metamorfose. Faz Riobaldo sussurrar verdades ao Dr. interlocutor de orelhas murchas; faz preás gordos e enormes marejar os olhos da gente. Faz Marina, Maga, Capitu, Lolita, Diadorim, Marla Singer. Voz autoral, maldita voz autoral.

Voz autoral é a mãe da voz narrativa. Às vezes, ela nem aparece. Não aparecer faz parte do jogo. Voz autoral é quando o texto fala, mesmo em silêncio. É quando o texto deixa de ser só um encadeamento de palavras, deixa de ser apenas um conjunto de construções rebuscadas, gramaticalmente corretas, seguindo uma sintaxe adequada e originalmente aceita, deixa ser apenas uma história que se conta, por mais verdadeira que seja, por mais que tenha acontecido de verdade, com você, por mais mirabolante, verossímil, estruturalmente impecável e original que seja o enredo, a trama, o subtexto; é quando o texto deixa de ser todas essas coisas, pra ser outra coisa, deixa de ser palavras, gramática, história, sintaxe, trama, subtexto; é quando acontece o  salto; e quando acontece o milagre: o texto fala, fala algo que encontra ressonância na gente; essa estranha ressonância das coisas desconhecidas nunca vivenciadas, coisas que nos enganam e parecem nos pertencer desde sempre.


Voz autoral é o demônio que sopra pequenos segredos no interior das palavras. Sem voz autoral, são só palavras, palavras, palavras. Sem voz autoral, não é literatura, é só história. Voz autoral é aquilo que nos prende ao texto em que nada acontece. Voz autoral, maldito demônio.

Voz autoral é o que transforma essas dezenas de plots de cinco linhas, rascunhados e ruminados durante semanas e meses, naqueles contos que são como um soco no estômago. Como é A terceira margem do rio, Baleia, Bliss, O canário, Gut, Aqueles dois, Visor, como é Espera, Fazendo a barba, Uma namorada, O buraco e um punhado de outros que li e suponho gostar. Aquilo que está nos poemas The genius of the crowd, Making a Fist, O haver; é o cante A palo seco do qual nos fala João Cabral. Abrir o silêncio com sua chama nua; não é um cante a esmo; é como um submarino de couçara absoluta, tão dura, que rasga o interior desse abismo e resiste a todas as bestas.

Sem voz autoral, o personagen não anda. Bonecos. Ideias de chapéu. Então, prefiro não fazer.

Voz autoral. Procuro por ela, procuro, capino seu caminho com leituras que julgo importantes, ouço com atenção senhores que tomo por superiores, leio ensaios, clássicos, supostos gênios. Leituras porcas, mal compreendidas. A vida passa, os dentes amarelam, os olhos afundam no rosto. Um cante, a palo seco.

Com boa vontade encontro um parágrafo, duas linhas, três frases privadas de adjetivos inúteis. Elaboro argumentos, sofismas escorregadios que justificam minhas limitações. Recobro a consciência de imediato, reconheço se tratar de miragens. Arremedos de autores que gosto, cacoetes de prosa falada. Nada mais que isso. Nada que valha. Nada. Bobagens.

Mesmo assim continuo.


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