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20/08/2012

A arte de encontrar uma vaga para estacionar



"Só tinha se dado conta naquele momento de que encontrar uma vaga para estacionar o carro seria um problema. Durante os vinte e cinco minutos seguintes, Louis e Renée passaram pelo prédio de Peter Stoorhuys oito vezes. O trânsito estava intenso e anormal, os carros se arrastando pelos quarteirões aburguesados num cakewall invertido, todos esperando que um espaço vagasse. Louis dava voltas e mais voltas, a cada uma delas se afastando cada vez mais do prédio de Peter. Ignorava vagas que lhe pareciam distantes demais e depois, quando voltava a elas com uma ideia mais bem informada de seu valor, elas já tinham sido ocupadas. (Era como aprender da forma mais difícil em que momentos comprar ações da Bolsa.) Tentava fazer o carro entrar em vagas que ele já sabia que eram pequenas demais. Metia o pé no freio quando passava em frente a hidrantes e em seguida metia o pé no acelerador. Furou sinais vermelhos. E quando, mais perto das dez horas do que das nove, encontrou uma vaga livre a um quarteirão do prédio de Peter, quase ficou desconfiado demais para pegá-la. Três carros na frente dele haviam passado por ela com o júbilo dos insiders. Não parecia haver nenhum hidrante, nem entrada de garagem, nem placa informando ser a vaga exclusiva do morador, e, embora devesse ter acabado de aparecer, o espaço de alguma forma não parecia fresco. Louis entrou de ré na vaga, franzindo o cenho ressabiado, como um tigre na floresta faria se encontrasse uma picanha crua embrulhada em papel encerrado. Seu quadril estava molhado do suor que tinha escorrido de suas axilas.


'Parecia boa a festa lá' ".


Jonathan Franzen, Tremor. Tradução: Sonia Morreira. Companhia das Letras, 2012. p. 136-137

18/08/2012

"pó de ferrugem"


Ashes, 1894. Edvard Munch


"Um ano depois, mudam-se para um sobradinho na periferia da cidade. Com 54 metros quadrados, é a miniatura de uma casa, o que de certa forma misteriosa lhe agrada. Num dos quartos minúsculos do segundo andar, faz uma estante primitiva que cobre a parede inteira e cujas tábuas de araucária, lixadas, pintadas e repintadas, montadas, desmontadas e refeitas, seguirão por toda a sua vida, numa transformação perpétua. Ele gosta de mexer com madeira. (Sonha às vezes com um espaço de garagem, uma bancada, um torno, uma minimarcenaria que jamais terá na vida.) E a altura e largura da estante serão o termômetro da melhora de seu padrão de vida, nas mudanças seguintes, pela parede a mais que sobrar, para os lados e para cima, O preço do sobrado era convidativo; a prestação, menos que um aluguel; a entrada, o cheque que recebeu por um trabalho avulso na área das letras. Tudo parece fácil. Deram o sinal num sábado à tarde; na terça seguinte, ao revisitar o sobradinho, descobre que há uma serra­ria próxima e que o ruído das máquinas, um zumbido inextinguível, acompanhará cada linha que escrever. À noite, uma mulher nua e louca, loira como o pecado, impressionante sob o luar, às vezes sai à rua — de chão batido, cortando terrenos baldios, estão no limite do mundo — gritando as mesmas fra­ses ininteligíveis, até que alguém venha buscá-la com um roupão para protegê-la, e ela volte em transe, na sua loucura cir­cular. Ele vê aquilo das sombras e nas sombras, e transforma mentalmente a imagem num quadro de Münch, para se defender — mas o metal histérico da voz de araponga permanece horas no ar, ressoando. Uma manhã descobre que lhe roubaram o botijão de gás, que ficava no pequeno pátio dos fundos, cortando a mangueirinha que atravessava a parede. Começa a comprar cadeados, correntes, grades. Manda erguer um portão de ferro. No espaço da frente, um quadrado de dois por dois metros, que poderia ser um jardim, planta pepi­no, girassol, salsinha, rabanete. Uma tarde uma senhora para diante dele e diz que admira quem aproveita o menor terreno para produzir alguma coisa. Ele agradece — gostou de ouvir aquilo. Ele se sente — ou se faz de — um teimoso personagem de William Faulkner, obedecendo a algum chamado an­cestral que não compreende mas que precisa levar adiante por alguma força imemorial que está além da razão. É uma bela imagem literária, mas isso não é ele. Sente-se em falso; ainda lhe deforma o senso o velho cordão umbilical do seu imaginário da infância, o pai que ele não teve, com o sonho rousseauniano — afastar-se dessa merda de cidade, refugiar-se fora do sistema, viver no mundo da lua, estabelecer as próprias regras, dar as costas à História. É difícil — as coisas parece que vão perdendo o controle. Uma fase atormentada. A mulher tem de pegar dois ônibus para ir ao trabalho, que fica no outro lado da cidade. Por que não pensou nisso antes? Ela não queria comprar o sobrado; ele que insistiu, obtuso e sorridente. Ele cuida da casa, dá aulas particulares, faz revisão de textos e teses. Para dizer onde mora, tem de desenhar um mapa, assinalar placas indicativas, setas, nomes de ruas que ninguém conhece. A ruazinha do sobrado tem nome de um poeta medíocre: Luiz Delfino. Por um bom tempo não tem telefone. Autista, debruça-se sobre o novo romance que escreve já há alguns meses, Trapo, indiferente ao mundo, enquanto não consegue publicar o anterior. Vai pondo na ga­veta as cartas de recusa das editoras e engolindo em seco as derrotas dos concursos literários, mas nada disso o incomo­da de fato. É como se uma parte dele negasse o confronto desigual — melhor baixar a cabeça, discreto, e tentar uma outra esquina do labirinto. O mundo é muito mais forte, impressionante e poderoso do que ele. A medida da província entranha-se na sua alma. Talvez fosse o momento de reler Nietzsche, começar de novo, mas ele não tem mais tempo. Ouve pela primeira vez rodar a engrenagem poderosa do tem­po, e um discreto pó de ferrugem já transparece nos objetos que toca. Finalmente, o tempo começa a passar". 

Cristovão Tezza, O filho eterno. 13ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2012.

05/10/2011

O Sol, Abraão e "A Cicatriz de Ulisses"

"5. E o sol desponta e o sol se põe
E ao mesmo ponto
Aspira de onde ele reponta


6. Vai rumo ao sul
e volve rumo ao norte
Volve revolve e o vento vai
e às voltas revolto o vento volta

7. Todos os rios correm para o mar
e o mar não replena
Ao lugar onde os rios acorrem
para lá de novo correm




8. Tudo tédio palavras
como dizê-lo em palavras
O olho não se sacia de ver
e o ouvido não se satura de ouvir


9. Aquilo que já foi é aquilo que será
e aquilo que foi feito é aquilo que será
e aquilo que foi feito aquilo se fará
E não há nada de novo sob o sol".


Qohelet/ O-que-sabe, Haroldo de Campos. Cap. 1: 5-9.

Eclesiastes, 1: 5-9.


***

Abraham and Isaac (1783), William Blake


"A singularidade do estilo homérico fica ainda mais nítida quando se lhe contrapõe um outro texto, igualmente antigo, igualmente épico surgido de um outro mundo de formas.Tentarei a comparação com o relato do sacrifício de Isaac, narração inteiramente redigida pelo assim chamado Eloísta. Na versão King James, a introdução vem assim traduzida: 'Depois disto, Deus provou Abraão. E disse-lhe: Abraão! - Eis-me aqui, respondeu ele.' Já este princípio nos deixa perplexos, quando viemos de Homero. Onde estão os dois interlocutores? Isto não é dito. Mas o leitor sabe muito bem que normalmente não se acham no mesmo lugar terreno, que um deles, Deus, deve vir de algum lugar, deve irromper de alguma altura ou profundeza no terreno, para falar com Abraão. De onde vem ele, de onde se dirige a Abraão? Nada disto é dito. Ele não vem, como Zeus ou Posseidon, das Etiópias, onde se regozijara com um holocausto. Nada se diz, também, da causa que o movera a tentar Abraão tão terrivelmente. Ele não a discutira, como Zeus, com outros deuses, numa assembléia, em ordenado discurso; também não nos é comunicado o que ponderara no seu próprio coração; inesperada e enigmaticamente penetra na cena, chegado de altura ou profundeza desconhecidas e chama: 'Abraão!' A noção judaica de Deus não é somente causa, mas antes, sintoma do seu particular modo de ver e de representar. Isto fica ainda mais claro, quando nos voltamos para o outro interlocutor, Abraão. Onde está ele? Não o sabemos. Ele diz, contudo: 'Eis-me aqui'."

A Cicatriz de Ulisses, Mímeses, Erich Auerbach, São Paulo: Perspectiva, 4ª. ed. 1998.

20/09/2011

"Ontem construí um barco de pedra"

By Troche


"40.

Ontem construí um barco de pedra.
Não funcionou. 

Dói meu ponto de vista, o oceano ainda não se encontra preparado para as grandes invenções.
Um barco de pedra é uma grande invenção.
A água não percebeu assim, paciência.

Gosto de inventar coisas.
Principalmente coisas inúteis.
Por isso mesmo umas pessoas chamam-me poeta, outras vagabundo.
Infelizmente são mais as pessoas que me chamam vagabundo.
Mas tudo bem.
O mundo sempre foi assim.
Sempre houve maior número de idiotas do que de outras pessoas.
A isso chama-se multidão.

Se um tipo fica sem voz vem logo uma pá de gente
oferecer remédios para a garganta, 
mas depois, quando começamos a falar, ninguém nos ouve.
Dão-nos remédios para a garganta e depois
pedem-nos silêncio.
Não me parece bem.
Ou não nos davam os remédios,
ou deixavam-nos falar.

Enfim.

O mundo é isto.

***

50.

Gostava de vos dizer uma coisa para terminar.
Às vezes tenho medo. Muito medo.
Às vezes, sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na possibilidade
de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou um familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.


Todas as doenças pertencem a toda gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Deixo de querer parecer inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e que está a envelhecer. Só aquela mãe
que amo e que está a envelhecer.
Só aquele amigo que se tornou amargo
porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
Alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às
mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,
mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou vão deixar de nos telefonar, ou então deixamos de lhes
querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter idéias, tentamos distrair as pessoas, tentamos
fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e
isso é bom, e pode até ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada."


***

Gonçalo M. Tavares, O Homem ou é Tonto ou é MulherCasa Da Palavra.

Ilustração, Troche: http://portroche.blogspot.com/


14/08/2011

parzinho


“O parzinho no comboio. Ambos feios. Ela agarra-se a ele, ri, excitada, seduzindo-o. Ele, de olhar sombrio, sente-se embaraçado por ser amado diante de toda a gente por uma mulher da qual não se orgulha.” 

Albert Camus, Cadernos (1962-Editions Gallimard), tradução de Gina de Freitas, Colecção Miniatura das Edições “Livros do Brasil”, Caderno nº2 ( Setembro de 1937/ Abril de 1939).



11/08/2011

"o sonoro choque do ar contra o ar"

"Acontece muito raramente. O eixo da Terra guincha e acaba parando. Tudo então fica sem se mover: tempestades, navios, nuvens pastando pelos vales. Tudo. Mesmo cavalos num pasto se tornam imóveis como num jogo de xadrez.

E depois de um tempo o mundo se move de novo. Algum oceano engole e regurgita, vales devolvem seus vapores e cavalos passam do campo escuro para o campo branco. Também se ouve o sonoro choque do ar contra o ar."

Quando o mundo para, Zbigniew Herbert In: Dubito Ergo sum.

27/07/2011

Oswaldo França Júnior



setembro de 1959.


O escritor Joca Terron escreveu uma coluna sobre os escritores e a grana, no Blog da Cia das Letras, que me lembrou uma entrevista do Oswaldo França Júnior (foto), um escritor mineiro que esteve na crista da onda (sic), lá pelos anos 70/80. Ganhou um dos mais importantes prêmios literários da época (o Prêmio Walmap, uns dos jurados era Guimarães Rosa). Seus livros foram traduzidos na França, EUA, Alemanha, entre outros países. Gosto bastante de dois livros do Oswaldo França Júnior, Os dois irmãos e As laranjas iguais. Mas seu livro mais famoso é Jorge, um brasileiro, que inspirou o seriado Carga pesada e foi adaptado para o cinema. Oswaldo França Júnior faleceu num acidente de carro, em 1989. 

Antes de se enveredar pela escrita, Oswaldo França Júnior foi piloto da FAB (inclusive, quase matou o Brizola, naquele incidente dos militares em Porto Alegre, em 1961). Depois que deixou a FAB, em razão do Golpe de 64, Oswaldo França Júnior vinha pulando de cidade em cidade e de emprego em emprego. Fez de tudo um pouco, vendedor de carros usados, corretor de imóveis e até pipoqueiro. O que ele conta neste trecho da entrevista, além do dinheiro, se refere a escrita e publicação do seu primeiro livro, O viúvo, graças a uma mentira que ele pregou no Rubem Braga.

"Eu gosto demais do Rubem Braga e do que ele escreve. Aquilo é o que julgo escrever bem. Quem melhor escreve em língua portuguesa é o Rubem Braga. Eu trouxe uns contos numa pasta e liguei para ele. Olhei o número do telefone no catálogo, e falei que precisava falar com ele. Eu me lembro que ele perguntou: "Qual é o assunto?" Eu fiquei com vergonha de dizer que queria que ele lesse alguns contos meus, aí falei: "olha, eu não posso falar". Ele respondeu: "Tá difícil conversamos, eu não te conheço". Eu respondi: "Não, eu não posso falar por telefone, mas é um assunto do seu interesse." Naquela época existia muita censura por telefone. Ele respondeu: "Está bem, venha até minha casa." 

Fui até lá, bati na porta, ele mesmo abriu, eu eu disse que escrevia contos e gostaria de saber se eram publicáveis. Ele olhou para mim e pediu que escrevesse meu endereço no pacote. Uma semana depois, recebi uma carta dele, dizendo que havia lido os contos, gostado, e quando eu voltasse ao Rio que o procurasse. Quando voltamos a nos encontrar, ele disse: "olha, li e gostei. Por coincidência estou montando uma editora, inclusive eu estava disposto a editar este seu livro, mas mostrei-o aos meus companheiros e surgiu um problema: ninguém te conhece. Se você fosse um cantor de rádio, um artista de televisão, dava para editar, mas você é um desconhecido, e isso é arriscado. Nos precisamos de um retorno rápido de dinheiro." E ele ainda me perguntou: "você tem dinheiro para pagar a edição?" Eu respondi: "Mas como se eu tenho dinheiro? Eu quero editar é para ganhar dinheiro." E ele respondeu: "Ah, então é difícil. Ainda mais por ser conto, se fosse romance eu teria coragem de editar." 

Aí eu menti para ele: "Eu tenho um romance." E ele: "Então porque não trouxe?" Eu respondi: "Porque ele ainda precisa de uns reparos." 

Ele disse para mim: "Então você vai para casa, faz as correções e traz para eu ler." Eu disse a ele: "Olha, vai demorar um pouco, são muitas correções." Bom, vendi os carros que estavam em minha mão, voltei a BH, me tranquei no quarto e avisei a minha mulher: "Não azucrina minha cabeça, não deixa o menino fazer bagunça, porque eu vou fazer um trabalho importante." Eu fui escrever o romance. Escrevi a estória de um vizinho meu que tinha perdido a mulher e ficado viúvo.

Você mandou o romance ao Rubem Braga?

Mandei. E ele me telegrafou que ia editar. Depois perdi contato com ele. Eu estava numa luta muito grande para sobreviver. Mudando muito. Um dia, olho para a vitrine de uma livraria e levo um susto: meu livro estava lá. 

Aí o dinheiro começou a aparecer?

Que dinheiro?"

____


Aliás, há uma edição especial, de outubro de 2009, muito bem feita, sobre o Oswaldo França Júnior. Bem legal mesmo. PDF.

E algumas fotos legais, como essa que abre o post, no Acervo de Escritores Mineiros.

24/07/2011

"Ninguém me pediu para ser um escritor"

Carver, verão de 1969, by Gordon Lish
fonte: http://thisrecording.com 
ENTREVISTADOR

Em um artigo que você fez para The Book Review New York Times você mencionou uma história "muito entediante para falar aqui", sobre o motivo de você optar por escrever contos ao invés de romances. Você quer entrar nessa história agora?

CARVER

A história "muito entediante para falar", tem a ver com uma série de coisas que não são muito agradáveis ​​de falar. Eu comentei algumas dessas coisas no ensaio "Fires", que foi publicado pela Antaeus. Eu disse que um escritor é julgado pelo que escreve, e essa é a forma como deve ser. As circunstâncias da escrita são outra coisa, coisas extraliterárias. Ninguém me pediu para ser um escritor. Era difícil tentar sobreviver, pagar as contas, colocar comida na mesa e, ao mesmo tempo, pensar em mim como um escritor, me preocupar em aprender a escrever. Depois de anos trabalhando em empregos nojentos e criando filhos e tentando escrever, percebi que eu precisava escrever coisas que pudesse terminar em pouco tempo, coisas que davam para fazer mais rápido. Eu não poderia escrever um romance, porque não podia trabalhar por dois ou três anos em um único projeto. Eu precisava escrever algo que oferecesse algum tipo de recompensa imediata, e não no ano que vem, ou daqui a três anos. Por isso optei por escrever poemas e histórias curtas. Eu estava começando a ver que minha vida não era, digamos, que não era o que eu queria que fosse. Havia sempre um vagão cheio de frustração para lidar com - querer escrever e não ser capaz de encontrar o tempo ou o lugar apropriado. Eu costumava sentar no carro e tentava escrever algo com uma almofada no meu joelho. Isso foi quando meus filhos estavam na adolescência. Eu estava na casa dos vinte ou trinta e poucos anos. Estávamos ainda em estado de penúria, tivemos uma falência. Anos de trabalho duro para quase nada, exceto um carro velho, uma casa alugada, e novos credores nas costas. Foi deprimente, eu me sentia espiritualmente imobilizado. O álcool se tornou um problema. Eu mais ou menos desisti, joguei a toalha, passava o tempo todo bebendo demais. Em parte, é disso que eu falo quando falo "muito tedioso para falar".


Raymond Carver, The Art of Fiction n º 76, entrevistado por Mona Simpson e Lewis Buzbee. In: http://www.theparisreview.org

21/07/2011

Completamente vestido, apoiado em dois travesseiros.

Ole Andreson é um ex-pugilista sueco, peso pesado. Está deitado na cama, completamente vestido, apoiado em dois travesseiros, quando recebe o aviso de Nick Adams. 

"Eu estava no Harry’s – disse Nick, – e dois sujeitos entraram, amarraram a mim e ao cozinheiro, e disseram que iam matá-lo."

Ole Andreson mal olha para Nick. Não diz nada.

"Eles nos puseram na cozinha – continuou Nick. Eles iam atirar em você quando entrasse para jantar."

Ole Andreson permanece calado, fitando a parede. Até que diz: 

"Não há nada que eu possa fazer a respeito."

Nick insiste. Diz que Andreson poderia fazer alguma coisa, qualquer coisa, deixar a cidade, fugir para algum lugar. Mas não. Todas as sugestões de Nick são refutadas por Andreson, completamente vestido, o corpo maior que a cama, apoiado em dois travesseiros.

"O pior é que – disse ele (Andreson) , voltado para a parede – eu simplesmente não consigo me decidir a sair. Fiquei aqui o dia todo."

Completamente vestido, apoiado em dois travesseiros.
***


18/07/2011

"Quando as pessoas avisam que tão te dizendo a verdade"

"- Sabe o que é engraçado? - ele apoiava-se na parede. - Quando as pessoas avisam que tão te dizendo a verdade. - Escorregou o corpo para o chão. Sentou ao lado dela.

- Como assim?

- Por que ninguém te diz 'pra ser desonesto, eu...'? 'Na mentira, eu...', 'Mentirosamente, eu...'? As pessoas sinalizam a verdade - ele disse. - É como se a mentira fosse esperada, mas a verdade surpreendesse."

Luisa Geisler, Contos de Mentira, Record, 2011. p. 19

16/07/2011

Sermerssuaq



"Sermerssuaq tinha tanta força que conseguia levantar um caiaque com três dedos. Ela era capaz de matar uma foca só esmurrando sua cabeça. Conseguia rasgar em pedaços uma raposa ou uma lebre. Certa vez travou uma luta corpo a corpo com Qasordlanguaq, outra mulher muito poderosa, e surrou-a com tanta facilidade que no final comentou: “Essa pobre Qasordlanguaq não consegue nem vencer um de seus próprios piolhos”. Ela conseguia vencer a maioria dos homens e então lhes dizia: “Onde você estava quando fizeram a distribuição de testículos?”. Às vezes essa Sermerssuaq exibia o próprio clitóris. Ele era tão grande que a pele de uma raposa não podia cobri-lo por completo. Aja, e como se isso não bastasse, ela ainda era mãe de nove filhos!"

História inuíte In: Angela Carter, A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medoTradução de Luciano Vieira Machado. Penguin Companhia das Letras, 2011. p. 25

14/07/2011

"Como se sua opinião fosse um ato de Deus"

"Claro, podem bater na madeira: todos nós gostaríamos de ganhar mais dinheiro com menos trabalho. Mas trair os outros, virar crítico, fingir que sabe tudo, dar rasteiras em pessoas que tentam ganhar a vida tirando pele de língua de vitela, aparando gorduras de rins, e arrancando membranas de fígados… enquanto os críticos ficam sentados em seus escritórios limpos, digitando reclamações com belos dedos limpos… isso simplesmente não é direito.

Claro, é só a opinião dele. Mas aparece junto das notícias verdadeiras, como fome, assassinatos em série e terremotos, recebendo o mesmo grau de importância. E alguém reclamando porque a massa que pediu não estava bem al dente. Como se sua opinião fosse um ato de Deus."

Colocação de Produtos, Assombro, Chuck Palahniuk, Editora Rocco. 2007. Tradução: Paulo Reis. IN Complexo de Cassandra

30/06/2011

"Inverno da nossa liberdade "


Um fragmento dessa beleza de texto do Martim Vasques da Cunha, sobre Liberdade do Jonathan Franzen

"O que Ted Hughes elaborou em seiscentas páginas, eu resolvi em um parágrafo, Shakespeare precisou de 36 peças, dois poemas longos, 152 sonetos e um poema curto – e Jonathan Franzen resolveu dramatizar em mais quase setecentas folhas. Para quê tudo isso, meus amigos? Desaprendemos aquilo que Gertrudes dizia, de que brevity is the soul of the wit? Não, o que desaprendemos foi a capacidade nos espantar, independente se ele se estende para quase mil páginas ou se concentra em uma linha, e quando isso acontece, não é apenas a humanidade que perde, mas principalmente a nossa capacidade de contarmos histórias – e, claro, o tal do romance, que, como diz o termo original em inglês, deveria ser uma novidade.

O problema é que perdemos a fé no espanto de narrar, o que Chesterton afirmava ser o sense of wonder, o assombro aristotélico. Franzen tenta recuperar com sua odisséia do ressentimento subterrâneo – e que se estende por trinta anos de história americana, que vão de Jimmy Carter a Barack Obama (e eu só citei este nome para obviamente o Google captar este texto na nuvem da ignorância dos meus pensamentos) – justamente para mostrar a tragédia em que vivemos ao recusarmos o fado (e o fardo) do amor e de vivê-lo em suas conseqüências. Ao optarmos por isto, vivemos sem querer querendo o inverno de nossa existência, de nossa liberdade. Jamais saberemos o que é ser livre porque não agüentamos mais o tranco que alguém lá em cima nos deu.

Se Leontes passou por quinze anos de purgação para ter sua Hermione ressuscitada, Franzen faz o seu Walter e a sua Patty passarem por cinco antes do reencontro definitivo. Antes disso, Walter conversa com seu irmão mais velho, um sujeito rude, divorciado três vezes, com cinco filhos abandonados pelo mundo, nada a ver com o caçula que freqüentou as melhores universidades e quase se tornou diretor de uma grande organização não-governamental (a razão de seu fracasso é hilária e vale o preço do exemplar). Walter pergunta se o primogênito acha que isso é uma trajetória decente. A resposta marca a cena mais bela do romance: “Sou um homem livre”.

Ou seja, neste mundo, quem é verdadeiramente livre é quem reconhece que tem demônios a enfrentar – e vive com eles como pode. E quem cria os nossos demônios somos nós mesmos – através da recusa de amar e substituindo o amor pela inveja e o ressentimento. Em um ensaio para a New Yorker, publicado há um mês, Jonathan Franzen mostra que a competição com David Foster Wallace não foi tão amigável como parecia ser. O que estava em disputa era quem ia mais longe no horizonte da literatura, na salvação do romance como forma de recuperar a fé na condição humana. Wallace chegou perto da perfeição, segundo Franzen, e foi justamente isso que o fez pensar sobre as infinitas variações do desespero que resultam no suicídio. Ao atingir a sua meta, Foster Wallace foi trespassado pelo tédio. O que fazer quando já se está no topo? Nada e tudo, não é mesmo? Então é melhor jogar uma corda no pescoço e balançar como o pêndulo de Foucault."


Martim Vasques da Cunha, in: http://www.dicta.com.br 30 de maio de 2011.

28/06/2011

Fruição do presente.



"Como se tivéssemos largado a torneira aberta. Por dias. Semanas. Ouvindo a água pingando. Batendo na louça, dentro da pia; no ralo, durante a madrugada. Mas como se tivéssemos tido preguiça de nos levantar da cama. De deixar o quente das cobertas. Tirar a cabeça do amassado do travesseiro. De calçar os chinelos e andar até a cozinha para dar mais meio giro. Apenas metade de uma outra volta que acabaria com o ruído. Com o gasto de água. Com o barulho dos pingos batendo na louça. No canto do prato. Na ponta da faca. No ralo, de madrugada. Vazamento esvaziando o reservatório por descaso. Litros e litros pelo cano por nossa culpa. Não, não foi de repente. Não foi surpresa. Nosso amor secou aos poucos, gota a gota. E nós ouvimos todos os pingos."

Eduardo Baszczyn, Desamores, 7Letras, 2007. p. 7

16/06/2011

Poemas de Guenádi Aigui




O Nosso

devo
chegar com meus lábios
aos seus olhos iluminados

e então hei de me surpreender com as veias pulsando de
leve,
suboculares,
e hei de compreender: é por causa de sua transparência
e de seu incorpóreo
que são assim claros e doentes
esses olhos ligeiramente trêmulos

e eu hei de amá-la com minhas mãos e meus lábios,
com o silêncio, o sono e as ruas dos meus versos
com a mentira - para o Estado
com a verdade - para a vida.

Guenádi Aigui, tradução Boris Schnaiderman IN: http://omarona.blogspot.com



Nuvens

Nesta
aldeia de ninguém
trapos indigentes nas cercas —
teréns de ninguém.

E sobre elas nuvens de ninguém,

e adiante — anúncios sobre a infância:
crianças esquálidas, bravias;

e música sobre o nu
de mulheres hunas e citas;

e aqui, no leito, ao rés dos olhos,
algures, junto a pestanas úmidas,
alguém morria e chorava,

enquanto eu compreendia
de uma vez por todas — era

minha mãe.

Guenádi Aigui, tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. 


Jardim-Tristeza

é
(talvez)
o vento
que inclina – tão leve
(para a morte)
o coração

Guenádi Aigui, tradução: JPF. IN: http://escritablog.blogspot.com



Silêncio


1

no clarão
da angústia desfeita em pó
conheço o desnecessário como os pobres conhecem a
roupa última
e os velhos trastes
e sei que este desnecessário
é o que o país precisa de mim
confiável como um acordo secreto
o calar-se como vida
e para toda a minha vida



2

no entanto, o calar-se é doação, e para mim mesmo: o
silêncio



3

acostumar-me a tal silêncio
que seja como o coração que não se ouve bater
como a vida
que pareça um de seus lugares
e nisso eu sou – como a Poesia é
e eu sei
que meu trabalho é árduo e existe para si mesmo
como no cemitério da cidade
a insônia do vigia



1954–1956

Guenádi Aigui, tradução: Boris Schnaiderman. IN: http://www.erratica.com.br

13/06/2011

"Certas Manhãs", Cioran


A Visão de Jó (1825), de William Blake


"Pesar por não ser Atlas, por não poder sacudir os ombros para assistir ao desmoronamento desta risível matéria... a raiva segue o caminho inverso da cosmogonia. Por que mistério despertamos certas manhãs com a sede de demolir o conjunto inerte e vivo? Quando o diabo penetra em nossas veias, quando nossas idéias sofrem convulsões, e nossos desejos cortam a luz, os elementos se inflamam e se consomem, enquanto nossos dedos filtram a cinza.

Que pesadelos suportamos durante as noites para acordarmos inimigos do sol? Devemos liquidar a nós mesmos para acabar com o todo? Que cumplicidade, que laços nos prolongam em uma intimidade com o tempo? A vida seria intolerável sem as forças que a negam. Donos de uma saída possível, da idéia de uma fuga, poderíamos facilmente abolir e, no auge do delírio, expectorar este universo. Ou, então, rezar e esperar outras manhãs.

(Escrever seria um ato insípido e supérfluo se pudéssemos chorar à vontade, e imitar as crianças e as mulheres tomadas pelo furor... Na matéria de que somos moldados, em sua mais profunda impureza, encontra-se um princípio de amargura, que só as lágrimas suavizam. Se cada vez que os desgostos nos assaltam, tivéssemos a possibilidade de nos livrar deles pelo pranto, as doenças vagas e a poesia desapareceriam. Mas uma reticência inata, agravada pela educação, ou um funcionamento defeituoso das glândulas lacrimais, condena-nos ao martírio dos olhos secos. Aliás, os gritos, as tempestades de pragas, a automaceração e as unhas cravadas na carne, com as consolações de um espetáculo de sangue, não figuram mais entre nossos procedimento terapêuticos. Daí se segue que estamos enfermos e que necessitaríamos de uma Saara cada um para berrar à vontade, ou as margens de um mar elegíaco e fogoso para mesclar a seus lamentos desenfreados nossos lamentos mais desenfreados ainda. Nossos paroxismos exigem o cenário de um sublime caricatural, de um infinito apoplético, a visão de uma força onde o firmamento serviria de patíbulo a nossas carcaças e aos elementos.)" 

Breviário da decomposição, Emil Cioran: tradução de José Thomaz Brum. Editora Rocco. 2ª Edição, Rio de Janeiro, 1993. p.50-51


09/06/2011

e.e. cummings





eu
estou
te pedindo
querida é pra
que mais poderia um
não mas não é o que
claro mas você não parece
entender que eu não posso ser
mais claro a guerra não é o que
imaginamos mas por favor pelo amor de Oh
que diabo sim é verdade que fui
eu mas esse eu não sou eu
você não vê que agora não nem
sequer cristo mas você
precisa compreender
como porque
eu estou
morto

( tradução: Augusto de Campos )


nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

( tradução: Augusto de Campos )



agora ar é ar e coisa é coisa:traço

nenhum da terra celestial seduz
nossos olhos sem ênfase onde luz

a verdade magnífica do espaço.

Montanhas são montanhas;céus são céus -
e uma tal liberdade nos aquece
que é como se o universo uno,sem véus,

total,de nós(somente nós)viesse

- sim;como se, despertas do torpor
do verão,nossas almas mergulhassem
no branco sono onde se irá depor
toda a curiosidade deste mundo
(com júbilo de amor)imortal e a coragem

de receber do tempo o sonho mais profundo

( tradução: Augusto de Campos )


In: http://www.culturapara.art.br/opoema/

08/06/2011

sempre específico

"O simples fato é que a tentativa de ser perfeitamente curtível é incompatível com os relacionamentos amorosos. Mais cedo ou mais tarde, por exemplo, você se verá numa briga horrível, aos berros, e ouvirá saindo de sua boca palavras que você mesmo não curte nem um pouco, coisas que estilhaçam sua autoimagem de pessoa justa, gentil, bacana, atraente, controlada, divertida e curtível. Alguma coisa mais real do que a curtibilidade surgiu de você e de repente você se vê levando uma vida real.

Subitamente existe uma escolha de verdade a ser feita – não uma falsa escolha de consumidor entre BlackBerry e iPhone, e sim uma pergunta: Será que eu amo esta pessoa? E, para o outro, será que esta pessoa me ama?

Não existe a possibilidade de curtir cada partícula da personalidade de uma pessoa real. É por isso que um mundo de curtição acaba se revelando uma mentira. Mas é possível pensar na ideia de amar cada partícula de uma determinada pessoa. E é por isso que o amor representa tamanha ameaça existencial à ordem tecnoconsumista: ele denuncia a mentira.

Isso não equivale a dizer que o amor envolve apenas as brigas. O amor é questão de empatia ilimitada, nascida de uma revelação feita pelo coração mostrando que outra pessoa é tão real quanto você. E é por isso que o amor, ao menos no meu entendimento, é sempre específico. Tentar amar a toda a humanidade pode ser um empreendimento digno, mas, de um jeito engraçado, isso mantém o foco no eu, no bem estar moral ou espiritual do eu. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com as lutas dela como se fossem as suas, é preciso abrir mão de parte de si."

Jonathan Franzen, Curtir é covardia, tradução de Augusto Calil. IN: http://blogs.estadao.com.br/link

24/05/2011

"tribo amazônica desconhece conceito de tempo"

Texto/matéria da  BBC NEWS na Folha. Imagens meramente ilustrativas: INCREDIBILIS a creative blog by Enrico M.


"Pesquisadores brasileiros e britânicos identificaram uma tribo amazônica que, segundo eles, não tem noção do conceito abstrato de tempo.



Chamada Amondawa, a tribo não possui as estruturas linguísticas que relacionam tempo e espaço --como, por exemplo, na tradicional ideia de "no ano que vem".

O estudo feito com os Amondawa, chamado 'Língua e Cognição', mostra que, ainda que a tribo entenda que os eventos ocorrem ao longo do tempo, este não existe como um conceito separado.



(...)

O primeiro contato dos Amondawa com o mundo externo ocorreu em 1986, e, agora, pesquisadores da Universidade de Portsmouth (Reino Unido) e da Universidade Federal de Roraima começaram a analisar a ideia de tempo da forma como ela aparece no idioma falado pela tribo.


"Não estamos dizendo que eles são 'pessoas sem tempo' ou 'fora do tempo'", explicou o professor de psicologia da língua na Universidade de Portsmouth, Chris Sinha.

"O povo Amondawa, como qualquer outro, pode falar sobre eventos e sequências de eventos", disse ele à BBC. "O que não encontramos foi a noção de tempo como sendo independente dos eventos que estão ocorrendo. Eles não percebem o tempo como algo em que os eventos ocorrem."

Tanto que a tribo não tem uma palavra equivalente a "tempo", nem mesmo para descrever períodos como "mês" ou "ano".

As pessoas da tribo não se referem a suas idades --em vez disso, assumem diferentes nomes em diferentes estágios da vida, à medida que assumem novos status dentro de sua comunidade."

Matéria completa.

*
E a estética transcendental kantiana, e a condição de possibilidade a priori do conhecimento uma hora dessas, campeão?

16/05/2011

suite et fin



"O ônibus começou a frear e o barulho do motor retendo-se cresceu às minhas costas.

'E para onde tu vai?', eu perguntei, quase sem escutar minha própria voz.

O ônibus encostava, a porta já vinha aberta.

'Vou para a França', ela falou, esforçando-se para não ter a voz abafada pelo ruído dos automóveis.

Marta levava a mão ao suporte que a ajudaria a subir no ônibus, e eu não sabia o que dizer. Eu sentia calor, cansaço, e o barulho dos carros passando me envolvia numa espécie de massa de ruído, uma espécie de bolha que me impedia o acesso a qualquer outro som que não fosse aquele enervante dos motores dos automóveis passando sem cessar ao nosso lado. Através da bolha, vi que Marta subia no ônibus. Ela já tinha alcançado o último degrau quando finalmente eu disse: 'tu me escreve?', e consegui sorrir, furando a bolha: 'um cartão-postal?".

Os carros continuavam a passar em grande velocidade e eram cada vez mais numerosos. Marta já estava dentro do ônibus, que começava arrancar novamente.

'O quê?', e a porta se fechava.

'Tu me escreve?', berrei, formando uma concha com as mãos.

A porta do ônibus já tinha se fechado, e inúmeros, infinitos automóveis passavam em alta velocidade ao meu lado, produzindo aquele barulho que enchia meus ouvidos. Mas acho que consegui ler os lábios de Marta, sorrindo por trás do vidro:

'Escrevo.' "

Amilcar Bettega, O puzzle (suite et fin), Os lados do círculo, Companhia das Letras, 2004. p. 154.

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