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24/09/2010

Fábula do suicida


Segundo um antigo livro de fábulas dos gentios, a pena mais terrível do inferno (conferida especialmente aos suicidas) é montar quebra-cabeças de rostos humanos. O espectro é acorrentado a uma mesa e tem de efetuar o trabalho de encaixar peças para evitar torturas maiores (agulhas quentes entalhadas nos olhos, marteladas nos tornozelos, mergulho na câmara das vespas ou no fosso das serpentes). À medida que cada peça é encaixada e o rosto vai tomando forma, a alma do espectro no inferno se aproxima da alma do vivo ao qual o quebra-cabeça se remete. Compartilham sentimentos com tamanha reciprocidade como se fossem donos de um mesmo e único coração. Quando o condenado assenta a última peça, o dono do rosto no quebra-cabeça é acometido por uma inquietação tremenda, um vazio e dor tão terríveis, que não vê saída e comete suicídio.

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