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25/10/2011

"De tudo fica um pouco"

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Já tinha comentado no twitter  e no facebook. De toda forma, fica o convite.

São dezesseis autores e cada um participa com dois contos.
Os meus são Silenciosamente e A calha.

A organização é do Assis Brasil.


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O excelente trabalho de edição é da Editora Dublinense, de Porto Alegre, coordenada pelo Rodrigo Rosp, que também assina a orelha. Na quarta capa, texto do Amilcar Bettega Barbosa.

A arte da capa é do Samir Machado

Ah, aos queridos leitores de longe que não vão poder ir ao lançamento, já dá pra comprar o livro pelo site da editora.

É isso aí. : )


09/06/2010

Fôlego

...
“Deseja mais alguma coisa?”, é o garçom tesourando às reflexões na cabeça dela.

“Uma vodca.”

É um ato falho que ela percebe logo de cara, mas deixa passar na ausência de uma solução eficiente. Beber vodca é coisa feita entre quinze e dezoito anos e problemas com os garotos, ou tédio, ou as crises existenciais falsas, bem embasadas é claro, com notas de rodapé de Oscar Wilde e Chico Buarque. Lágrimas gratuitas e vômito, é para esfregar na cara dos amigos; aquilo de chamar atenção dentro do bando, fumar maconha, beber no gargalo, citar Fernando Pessoa e filmes franceses que só ela tinha visto; aquilo de reunir-se na praça de uma cidade do interior, num bar alternativo, roupas pretas, cabelo tingido de vermelho e o violão Gianini arranhando canções dos The Smashing Pumpkins que ninguém sabia muito bem a letra; e todos cantavam alto; aquilo que parece que foi ontem mesmo, mas que já faz dez anos ou mais; aquele tempo que parece estático, como uma cidade distante da qual perdeu-se o caminho de volta; a cidade imaginária, onde cada uma das pessoas de antigamente não envelhece e continua fazendo as mesmas coisas; como antes, desde sempre. Em verdade, a única coisa que permanece é a disputa pela atenção do bando; tal e qual como antes. Muda-se o aspecto, a intencionalidade é a mesma. Trocam-se as antigas diabruras de porre, vaidade intelectual, citar falas de filmes franceses, pelo ato de exibir o melhor emprego, salário, a casa, o carro, o marido, o doutorado, a cidade em que se mora, a precocidade cultural e boa educação dos filhos; aquilo de mostrar o quanto você deu certo na vida e está feliz com o amor exemplar ou comum da sua família: antes, hoje, sempre. É nessa hora que você percebe os mesmos adolescentes por baixo da barba, do terninho e maquiagem discreta, dos diplomas, da agenda apertada e da casa bem decorada. Perdidos, batendo cabeça na aresta da vida à procura de algum elemento substancial onde possam ancorar-se, tomar fôlego e seguir em frente. 

...

14/05/2010

A vida é minha


Se houvesse realmente um destino, eu nunca teria saído daquela casa, Nina disse. Alguma coisa iria me segurar. Milena devolveu a caneca de chopp na mesa, engasgada em risadas, antes de retrucar dizendo que a Nina era uma louca. Depois perguntou se a Nina esperava por um anjo, ou melhor, que um Nicolas Cage a pegasse pelo braço bem na hora que saia do apartamento e a convencesse meio que por feitiço que, ela e ele, a Nina e o Paulo, eram almas gêmeas ou qualquer sinônimo disso. E Nicolas Cage diria a Nina que Deus estava bravo com essa tentativa de abortar os planos perfeitos d'Ele pra ela. Os planos perfeitos que, de tão perfeitos que eram, a Nina poderia mudar quando bem quisesse.

A vida é minha, Milena.

A vida é tua, mas tu não vive sozinha, Nina.

Caladas sob o chorinho brotando das cordas do violão e da voz grave cantando “Nunca vai ser, nunca vai dar”, ouviram o cara da mesa à esquerda dizer que tinha de acordar cedo amanhã: e uma garrafa de Polar escorregar pra dentro do isolante vermelho, e o ato mecânico de Milena pedir por outro chopp e dizer que tem preguiça dessas coisas de criar laços assim, de uma hora pra outra, e depois desfazer. Então, começa a falar de um tal de Eduardo que era tudo na vida dela, que achava que ia casar com o Eduardo. Que o pai dela adorava o Eduardo e que já tinham até escolhido o nome dos filhos; tu lembra? Sim, Nina responde com o olhar pregado na previsibilidade do movimento da rua. A mesma previsibilidade daquela história que Milena não se cansa de contar; talvez, porque seja o único relacionamento sério que teve, a única história que pode oferecer em contrapartida; e que a Nina se cansara de fingir que ouvia. 

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Mais da Nina