Mostrando postagens com marcador Nuri Bilge Ceylan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nuri Bilge Ceylan. Mostrar todas as postagens

15/09/2013

Perspectiva

Cada vez que descubro um diretor de talento acima da média (a mesma coisa ocorre também com um escritor), um sujeito que eu mal suspeitava a existência (e sobreviveria muito bem sem conhecer, assim como se sobrevive muito bem sem provar o cheiro da Mona Lisa, sem comer a Nicole Kidman, ou coçar os olhos numa tempestade de areia no Saara), cada vez que me deparo com uma obra cinematográfica dessa envergadura, é como se a vastidão caipira da minha ignorância contemplasse a vastidão desse horizonte a se perder de vista que é o mundo do cinema para além dos cartazes pregados no terceiro piso sempre limpo dos shoppings, onde cidadãos suburbanos trabalham até dez horas da noite de um sábado ou domingo a troco de mixaria, para servir pipoca e coca-cola e garantir a diversão unidimensional de um casal unidimensional que acha genial essas comédias pasteurizadas tipo Globo Filmes.


Climas (2006)


Esse pequeno adendo mal humorado apenas para dizer que eu mal fazia ideia de quem era Nuri Bilge Ceylan, quando fui ver Era uma vez na Anatólia. É sempre um risco e nem sempre recompensado, mas eu gosto de ver filmes sem planejar, sem manuais interpretativos a priori. Além de ser uma boa estratégia para escapar da cartilha publicitária que arrasta nós todos a esses objetos de puro consumo disfarçados de cinema, um bom filme é uma das poucas coisas na vida capaz de te forçar a experimentar outra realidade. Assumir outra perspectiva.

Embora seja apenas um suspiro de duas horas na escalada de Sísifo de uma segunda a outra, encarar outra perspectiva além do centro gravitacional do ego é salutar. Essa imersão, pelo menos pra mim, costuma ser mais efetiva com a leitura, mas no cinema – assim como uma viagem ou uma mudança de cidade, ou quando você acaba criando vínculos razoavelmente satisfatórios com pessoas que têm crenças e princípios contrários aos seus – há essa possibilidade de experimentar a si mesmo e o mundo por outra ótica.

***

Se alguém me perguntasse de supetão o que é a beleza, em sentido radical, eu diria que a beleza é uma destas poucas coisas que te mobiliza a continuar vivendo. E a beleza em Ceylan – além dos planos longos e abertos, da opção pelo silêncio, do apreço pela fotografia – está nessa habilidade simples e ao mesmo tempo sofisticada de projetar os dramas das personagens na natureza concreta. Em Climas, essa projeção da subjetividade das personagens na natureza conduz o filme em dois planos narrativos distintos. Sutil e sofisticado, o clima lá fora é inversamente proporcional ao sentimento do casal. Em 3 Macacos, por sua vez, a ausência do filho afogado se enrosca ao pescoço do pai, literalmente. E como numa espécie de parábola mística, aquele céu negro ao final sugere que a culpa não expiada se propaga indefinidamente, como uma hemorragia contagiosa. Enquanto signo de um possível perdão, o céu se fecha e ameaça desabar. Não há salvação. Diante da fragilidade humana, a culpa assume contornos de maldição. Curiosamente, em Era uma vez na Anatólia, um sujeito a persegue intencionalmente, tentando incorporá-la, satisfazê-la, mesmo que no lugar de outrem. 

De resto, basta dizer que são três ótimos filmes de um excelente diretor. Vale muito a pena conhecer. Mesmo que atrasado, como eu.

10/06/2013

É tudo vento que passa: Camille e Era uma vez na Anatólia


Camille Redouble (Noémie Lvovsky, 2012)


O enredo é manjado: uma mulher na iminência da separação é lançada de forma misteriosa à sua adolescência para reviver os momentos em que conhece o seu grande amor. Mas não é o enredo – nem a forma como a adolescência e seus dramas se tornam ridículos e quase alienígenas sob a perspectiva da experiência. Há que se dizer que o filme é regular, contundo, fora o tom das filosofices discursivas típicas dos filmes franceses, há um clima que vai se formando (o uso do gravador para preservar a voz dos pais, por exemplo) e que culmina em uma cena que talvez seja a melhor cena sobre a precariedade da vida - e inevitabilidade da experiência da morte (a morte do outro) - que eu já vi no cinema. É realmente fora da curva de tão boa. Não vou adiantar as coisas pra não estragar a fruição de quem for ver o filme. Basta dizer que a coisa acontece na cozinha. E uma semana depois de ter assistido o filme, ainda estou com a cena cabeça.

***

 Era uma vez na Anatólia, (Nuri Bilge Ceylan, 2010)

Caímos de gaiato em uma sessão de Era uma vez na Anatólia, no CineSesc. Digo de gaiato porque comecei a assistir o filme sem saber que o danado tinha 150 min. Veja bem: um filme turco com mais de duas de duração. Soma-se a isso o fato que o enredo é lento, a câmera trafega sem pressa nenhuma por estradas de cascalho desertas, mostrando um bando de homens que procuram um corpo cujo guia não sabe onde está. Na maior parte do filme esses sujeitos barbudos ficam descendo e subindo do carro, procurando uma árvore, procurando um sinal qualquer. Enquanto isso, conversam sobre banalidades. E olha só: o filme é excelente. Como se fosse a Árvore da Vida sem os monólogos etéreos em cenas de comercial de shampoo. A câmera é contemplativa e os diálogos cirúrgicos. Trabalhando no nível do subtexto, sempre deixando indícios, sinais: símbolos que remetessem a alguma coisa que ao mesmo tempo está e não está lá. Olha, esses turcos têm ciência. Era uma vez na Anatólia é um filme sobre o Eclesiastes. É tudo vento que passa.