11/09/2010

Frame


O motor murmura sob a lataria e os seis pneus girando sobre a superfície negra da estrada e cruzando com outros ônibus de cores diferentes e idênticas e carros médios cheios de malas cheias de roupas dobradas e zíperes e rodinhas que não funcionam direito e crianças sem cinto ou vendedores de frango ou chicletes de limão e os fios de arrame farpado em três linhas tortas às vezes retas grudadas ao mourão torto a cada três metros e a mesma cidadezinha a cada dez quilômetros e as vacas e as serras e motéis ou postos de gasolina se repetindo como um programa de televisão em loop infinito através do vidro empoeirado da janela como as palavras das duas mulheres de voz aguda falando de doenças terríveis e novelas antigas e o sabor gorduroso do pastel engordurado e o café requentado devorado há meia hora no projeto de terminal rodoviário vêm à tona através de um arroto blasé com o punho cerrado sobre a face abatida e desconfortável do estranho de cabelo lambido penteado de lado e cheirando à desodorante de farmácia na poltrona à esquerda; e enquanto na poltrona detrás os dentes do garoto trituram batatas fritas como se nada disso importasse senão rapar o fundo do pacote de batatas e limpar os farelos do rosto e raspar a superfície interior dos dentes com a língua em um gesto de higiene ancestral e remoto e desde sempre presente como o sexo ou o soco no estômago do idiota que deu em cima da sua mulher naquela festa há dois anos com uma banda de três caras esquisitos que cantavam músicas que ninguém conhecia e por isso todos idolatravam aos gritos cada riff besta de guitarra e você bebia como se nada importasse e achava aquilo tudo uma merda como essa viagem de agora e o sol se exibido em frame através das nuvens que na verdade são ocas quando se passa por elas e igual a quando se passa por um momento qualquer da vida; como agora se passa por mais uma cidadezinha com uma igreja cheia de faixas de pano branco com tinta azul e vermelha cobrando dízimo e impondo salvação da alma e da mesma forma que se passa por bares procurando mulheres que sejam melhores ou iguais a mulher ideal que você inventou por necessidade como uma linha de pedreiro esticada próxima a parede impondo estabilidade aos tijolos no prumo para que nada disso desabe sobre a cabeça de algum inocente; e você deseja apenas que acabe de uma forma ou de outra, que a coisa termine como termina essa viagem e o ônibus estacionado na sombra da plataforma 24D com o bagageiro aberto e o cobrador com a gravata dependurada rastreando etiquetas adesivadas nas malas e o sorriso de dentes amarelos quando a simetria dos números se realiza e a voz tediosa no alto-falante clama atenção dos passageiros para mais uma última chamada enquanto um mendigo clama por moedas para inteirar a passagem rumo a algum lugar melhor e você ignora porque não é problema seu e você julga ter problemas demais para participar da farsa refente à consciência tranquila e faça sua parte e enquanto vê o garoto outrora na poltrona detrás agora debruçado sobre o balcão da lanchonete comprar outro pacote de batatas para triturar e rapar o farelo no fundo do pacote e raspar a superfície interior dos dentes com a língua como se nada disso importasse; e aí que você vai até a lanchonete e saca as moedas que seriam a passagem do mendigo para algum lugar melhor e compra seu próprio pacote de batatas e vai se sentar na terceira cadeira de frente para a plataforma 14E e triturar as batatas e rapar o fundo do pacote e limpar os farelos no seu colo e raspar a superfície interior dos dentes como se nada importasse; mas não é a mesma coisa.

*******


3 comentários:

  1. Meu blog está temporariamente parado, mas uau, que surpresa imensa ao ver me seguindo "o autor de Inércia". Marquei seu livro como vou ler no Skoob e, embora (infelizmente) ainda não tenha conseguido comprar, estou muito curiosa. Depois lerei com calma seu blog, mas tive que vir aqui dizer algo. Parabéns pelo livro!

    ResponderExcluir
  2. Meu nome não é Jonny25 de setembro de 2010 02:36

    Ao que parece, o subtexto inerente ao texto, a cena do garoto comendo salgadinhos, esconde alguma coisa que narrador sabe que está lá, mas não compreende. O narrador tenta recuperar isso, também comendo batatas. Alguma refência machadiana ao vencedor as batatas?
    A passagem do tempo fica referênciada no texto contínuo, o tempo que flui, e nesse fluir algo se perde para sempre. O leitor se perde junto ao narrador diante da velocidade das coisas que são mostradas em frame, como num filme caótico: vem e vão embora.
    Mas ainda prefiro a Ana e outros demônios.

    ResponderExcluir

oi.