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07/11/2011

Sr. Walkman



Todo lugar tem seus personagens exóticos. Em Luminárias, há muitos. E ontem me lembrei de um sujeito que andava com um rádio debaixo braço. Antena em riste. Volume alto.

Às vezes era indo pro ribeirão que topava com o sujeito. Ele ia à beira da estrada, numa toada contemplativa - o rádio no colo, trabalhando sereno.

Não era partidário dos fones de ouvido (pra isso bastaria adquirir um walkman, que era o que existia na época). Mas não. Usava um motorádio, com o volume sempre no talo. Era como um desses carros cheios de equipamento de som a zanzar por aí. Compartilhando seu gosto musical com todos que cruzassem seu caminho.

Algumas vezes, voltando pra casa de madrugada, eu ouvia uma música se aproximar por detrás de uma esquina. Então topava com o sujeito. Tranquilo, sintonizando a estação, espantando os chiados à medida que avança.

Sempre sozinho.

Outro fato curioso, embora faça muito sentido, é que o sujeito costumava frequentar com assiduidade os pontos mais alto da cidade. Nalguma vezes, ia até o Morro do Cristo, tentar ampliar ao máximo a capacidade de recepção do aparelho.

Dá pra imaginar: fosse visível ao olho do homem, as ondas, arrastando a beleza triste das modas caipiras, iam cobrir o céu - um céu de Monet. Vento na cara, sorriso largo, empunhando a antena enquanto ia passando delicadamente de uma estação pra outra, como quem pintasse um quadro.

Há uma grande ternura quixotesca nisso tudo.

Costumava ser motivo de risada na cidade. Afinal, parecia não se importar muito com as coisas, exceto com seu rádio. Ou era meio maluco, é o que todos diziam. É o que todo mundo diz quando alguém segue o próprio rumo.

Pra mim, esse sujeito sempre foi uma espécie de walkmam em pessoa. 

Faz muito tempo que não o vejo, e nem sei mais se mora por aqui. Mas se descesse pela rua à noite, e ouvisse um rádio chiando, acho que ficaria feliz.

07/10/2011

Gostava de ficar ouvindo o rádio falar


homem não identificado: APM


Eu não tinha nenhuma expectativa em relação àquela prova pra recenseador em 2000.

Por isso tinha bebido além da conta no sábado. Conhaque. Vodka. O escambau. Acordei no meio da madrugada na casa da minha namorada. E sem entender muito bem o que tinha acontecido na noite anterior.

Tudo bem. Não importava o que tinha acontecido. Nunca levei muito a sério essa coisa de tentar entender o passado. É só um lugar que ninguém nunca visitou. Que você nunca vai visitar. Por isso há tantos boatos sobre o passado. Boatos. Ninguém sabe porcaria nenhuma sobre o passado.

Sei que saí sem me despedir direito. Sem dizer nada. Talvez um grunhido, um beijo de má vontade, uma coisa assim.

Desci pelas ruas vazias, ainda bêbado. E você não imagina como são vazias e silenciosas as ruas de uma cidade tão miúda a essa hora da madrugada. O vigor do silêncio. De repente você está num episódio de O mundo sem ninguém. Nada, exceto carros e caminhões parados de frente as casas de portas fechadas e luzes apagadas e tudo aquilo imóvel como se tudo tivesse sido abandonado.

Vidros suando por causa do sereno. O chiado do transformador num poste de energia. E você pode ouvir os seus passos como em nenhuma outra hora. Às vezes os grilos, ao longe. O barulho de uma televisão que dormiu ligada. E se você der sorte, muita sorte, pode topar com uma coruja descendo em rasante, asas escancaradas, abrindo caminho no vento.

Bati na cama e já levantei como se o tempo não tivesse passado. E se não é o sol escorrendo nos seus olhos, não dá pra acreditar que o tempo passou. Não troquei de roupa. Não comi nada direito. E também não precisei calçar tênis, porque ainda estavam enfiados nos pés. Conferi o dinheiro e o documento enquanto subia no rumo do ônibus, enquanto minha cabeça martelava.

Fiz a prova nas coxas. E não lembro muito bem dos detalhes.

Mas é certo que devo ter usado meu método infalível nas questões de matemática. Letra C de fora a fora. E fora isso, nada. Deixei a sala e avistei uma lanchonete do outro lado da rua. Pedi uma cerveja e duas coxinhas.

De resto, tava tudo bem.

*** 

Não acreditei muito quando me falaram que tinha passado na prova.

Eu conhecia os outros caras que estavam concorrendo pro mesmo lugar que eu. Coisa que não é complicado num lugar onde só há seis mil e poucas pessoas. E os caras eram caras mais velhos e mais estudados, alguns cursando faculdade e tal, enquanto eu ainda me arrastava pra sair do ensino médio.

E acontece que eu tinha passado lá pelas últimas posições. Então acabei ficando com um setor fodido pra caralho. Um lugar no fim do mundo, dentro do fim do mundo. Nos limites do município. Num ermo. Ao pé da Serra do Santo Inácio.

Pra começar, o IBGE não dava condução nem nada. Tampouco ajudinha de custo, nem gorjetinha. Porcaria nenhuma. Eu tinha que me virar. E não era esses cacarecos de hoje, não. Era tudo analógico. Formulários e mais formulários. Mapa, pastas, meia dúzia de canetas Bic. Tudo entulhado na bolsa.

Meu pai resolveu me acompanhar no primeiro dia. Disse que ia comigo no lugar mais complicado.

A gente pegou carona num desses ônibus que vão pra pedreira. E foi até mais ou menos ali na Serra Grande, um pouco antes da entrada pra pedreira do Marcinho. De lá, desceu caminhando. E foi uma hora caminhando até chegar no primeiro ponto marcando no mapa. Uma fazenda dessas maiores, mas não me lembro do nome. Mas me lembro muito bem da fartura do café, da gordura das lascas de queijo fresco.

Foi aí que perguntei sobre uma casinha que tava marcada no mapa. E perguntei como é que chegava lá. O cara disse que não sabia direito, que não ia muito lá pra aqueles lados. Tampouco sabia se esse homem ainda morava lá. E se a casa ainda existia.

Dois ou três sítios depois, já era hora do almoço. A gente atravessou um córrego e entrou numa mata bem fechada. Daí, entrou numa trilha cortando um pasto alto e vazio, sem sinal de criação ou qualquer coisa do tipo. 

Meu pai disse que não tinha nada lá, mas que fazia muito tempo que ele não passava ali. Eu disse que tudo certo. Tudo certo e tudo bem. Mas é que tinha um sinal no mapa, porque no outro Censo alguém tinha passado ali e marcado aquela casa. Morava um homem lá.

Já deve ter morrido, disse meu pai.

Eu olhei aquela trilha cheia de mato e pensei que talvez meu pai tivesse razão.

Mas eu precisava continuar. Então a gente prosseguiu por uns vinte minutos. Chegamos numa cerca de arrame bambo, fios enferrujados e estendidos num tocos de morões podres e frouxos. Logo adiante havia um pomar, todo tomado por capim gordura, pés-de-vassoura, ervas daninhas de todo tipo.

Não tem ninguém, disse meu pai.

A gente foi avançando. E só parei ao ver a casa. Era dessas construções antigas, tijolos de adobe. Telhado colonial com telhas portuguesas, dessas grandes e largas, já escuras de lodo.

Não tem ninguém, disse meu pai.

Bati na porta e comecei a chamar.

Ouvi um barulho de ferrolho e a porta se abriu. Um homem velho, de chapéu enfiado na cabeça. A barba bem feita e bem arrumado. A mãos, bem frias, tremeram ao me cumprimentar. E ele mal me escutava. Demorou um pouco pra entender que eu era do Censo e tal.

Lá dentro, ele nos serviu um café, que tava meio frio. Porque fazia tempo, ele disse, fazia bem tempo que tinha coado. Eu já queria ir embora. Então comecei a aplicar o questionário meio com pressa.

E não me lembro dos detalhes e me arrependo de não ter feito uma cópia daquele questionário e guardado comigo. O pouco que lembro, a impressão geral da conversa <<pra cada pergunta que fazia, o homem me contava uma longa história>>, é que ele tinha três filhos que há seis anos não o visitavam. Não tinha energia elétrica, e não sabia ler. A mulher tinha morrido há uns vinte anos, e ele gostava de morar ali mesmo, sozinho. Só um rádio a pilha.

Meu pai não aguentou e perguntou pro velho o que velho ficava arrumado ali sozinho, sem luz, sem ninguém. O homem disse que cuidava de uma horta nos fundos da casa. E gostava muito do rádio. Gostava de sentar ali no fim da tarde, gostava de ficar ouvindo o rádio falar.

Não lembro de muita coisa.

No caminho de volta, meu pai, que é muito quieto, começou a falar sem parar. Falar que aquele homem tava maluco da cabeça pra ficar ali. Que tava doido de ficar ali enfurnado naquele lugar. Sem luz, sem nada. Sem ninguém. Eu ouvia meu pai falar e só pensava e ir embora. Chegar em casa, colocar uma música e ficar sozinho.

Não lembro de muita coisa. Só sei que volta e meia me pego pensado naquele velho. Sei lá. Nessa coisa de ficar sentado, sozinho, ouvindo o rádio falar.

É mais ou menos isso.

16/09/2011

"e o coração dele batia feito um louco".

Um livrinho de poemas do Paulo Mendes Campos, de capa branca. Não sei onde foi parar. Procurei por ele entre meus livros [não é a primeira vez que procuro por ele], mas não encontrei. Sinto uma saudade muito grande desse livrinho.

***

Eu estava começando o ensino médio. Gostava bastante daquela enciclopédia que vinha toda semana na revista ISTOÉ. Foi lá que li o nome Proust [ou melhor, vi aquela foto de olho caído, olhar blasé e fiquei impressionado: aquilo sim era um escritor de verdade], e ao ler que esse cara cheio de pose tinha passado grande parte da vida escrevendo sobre a mesma coisa, Em busca do tempo perdido, só aumentou minha admiração, me pareceu, à época [e talvez ainda persista esse ranço de inquietação] que aquele cara sabia de alguma coisa que ninguém mais sabia, ou que todo mundo sabia, mas que só ele sabia falar direito. Era realmente um escritor de verdade, eu sentia olhando aquela foto, às vezes uns vinte minutos, lendo e relendo o texto sobre o cara, e sempre com a certeza que era um cara bem diferente daqueles caras chatos que nos apresentavam na escola, no texto-fragmento com o vocabulário no rodapé, seguido de exercícios, ditado, no mesmo livro que se falava de um tal de Emplasto Sabiá [ref. Faraco & Moura, três volumes separados, capa listrada], que a gente comprava usado ou quando dava sorte, que foi o meu caso, pegava emprestado com um aluno do segundo ano. 

Foi também naquela enciclopédia da ISTOÉ que vi pela primeira vez uma "foto" de Rimbaud [e lia como se fosse Rim-baude, porque nunca tinha ouvido ninguém pronunciar], e fiquei abismado com o moleque, que tinha escrito tudo e largado tudo, assim do nada. Isso sim era um poeta de verdade, diferente daqueles poetas chatos que assinavam aqueles poemas quadrados chatos que a gente era obrigado a interpretar, dissecar, classificar as palavras, entender tudo, e do jeito certo, e ninguém queria saber se a gente tinha gostado ou não.

***

Não era nenhum poema do Paulo Mendes Campos, nenhuma crônica. Havia duas traduções ao fim do livro. Provérbios do inferno, do Blake, e uma tradução do Monólogo de Molly Bloom, do Joyce.


***

Um dos primeiros livros que peguei na biblioteca na UFSJ, foi o volume I de Em busca do tempo de perdido, No caminho de Swann, junto de Ulysses do Joyce. Era a primeira vez que tinha aqueles livros ali, tão perto. Porque da cidade que eu vinha [ref. caipira lifestyle], não havia livraria nenhuma [e ainda não há], tampouco uma biblioteca decente [hoje há]. E ninguém que eu convivia tinha esses livros. Lembro que voltei pra casa com a mochila pesada e ansioso. Meu colega de casa tinha ido a alguma dessas festas pra calouros de início de semestre. Eu disse que ia ficar em casa, disse que estava cansado. Menti em prol da literatura. Passei um café rápido e abri o livro do Proust com a sensação de finalmente ter encontrado aquele cara. De estar pronto a ouvir o que ele tinha a me dizer, pronto a receber alguma coisa grandiosa.

Mas não. Eu não estava pronto.

Apesar dos meus esforços, avancei algumas poucas páginas, e abandonei o livro. A mesma coisa com Joyce. Me senti profundamente culpado e burro.

Mas naquela mesma biblioteca, e por influência de amigos que gostavam também de literatura, descobri Kafka, Camus, Dostoievski, Henry Miller, Nabokov, Chuck Palahniuk, Graciliano, e aos poucos me esqueci dessa grande frustração.

Afinal, como diria Nietzsche:

"No fim das contas ninguém pode captar coisas, incluídos os livros, mais do que ele mesmo já sabe. Para aquilo que a gente não alcança através da vivência, a gente também não tem ouvidos." Ecce Homo.


Talvez seja hora de tentar outra vez.

***
Mas, hoje, sinto uma saudade terrível daquele livrinho do Paulo Mendes Campos de capa branca. Aquele exemplar em especial. Tinha rabiscado algumas coisas nas costas da última página do livro. Já não sei que coisas são. Só gostaria de pegá-lo agora, abrir, e ler.

"e puxei ele para mim para que sentisse meus seios perfumadíssimos sim
e o coração dele batia feito um louco
e sim
eu disse sim
eu quero muito
Sim".

15/09/2011

Cacos de telhas, estilhaços de tijolos de adobe, ruas estreitas, sempre o mesmo sonho.

 Head (1948), Francis Bacon


Não sei bem quando começou. Mas é sempre o mesmo sonho. A bem da verdade, o enredo do sonho costuma variar, mas a paisagem [o clima, ou a atmosfera], é sempre igual. Cacos de telhas, estilhaços de construções de tijolos de adobe, ruas estreitas, às vezes de pedra, noutras vezes, cascalho escuro, ou terra batida meio que coberta por fuligem, cacos de telhas escuras e tijolos jogados no chão. As ripas podres e o fedor [sim, há odor nesses sonhos], o fedor de fezes de pombos, às vezes uns esqueletos de pombos, fedor de penas, lascas de asas.

O clima [embora o enredo varie], é ter que sair daquele lugar. Muitas vezes começa dentro de uma igreja, aos cacos, imagens de santos aos cacos. Noutras vezes, começa numa praça labiríntica, com estátuas escuras, vielas e muretas de pedras escuras na altura da cabeça, abarrotada de gente estranha, vestida para algum tipo de festa. Fora essa multidão que costuma aparecer uma vez ou outra, não há ninguém. 

Vou seguindo por aquelas ruas. À medida que avanço vou me deparando com as ruínas de casarões antigos, janelas caídas, mais e mais igrejas antigas, sinos estilhaçados, portas soltas encostadas nas paredes, caibros podres despencando dos telhados destruídos, montes de entulhos de fora a fora nas calçadas e o fedor de fezes de pombos. Como se aquele lugar tivesse sido bombardeado [Tiradentes apodrecida, é o que parece], mas não penso nisso durante o sonho. Penso depois. No momento do sonho, eu apenas contemplo aquelas ruínas e vou seguindo, dobrando esquinas, atravessando o interior vazio das casas, das igrejas aos cacos, tentando sair dali, sem saber o motivo. Mas nunca consigo sair. Sempre acordo no meio do sonho.


13/09/2011

Três e quarenta e cinco, cigarrete, pão de trigo, sapato marrom e nenhum lugar pra ir.


"Há maneira de falhar na solidão, como em sociedade".



Três e quarenta e cinco e o terminal rodoviário de uma cidade pequena como Três Corações a essa hora não é nada acolhedor. Talvez em nenhuma outra hora. Os dois ou três gatos pingados arrastando os pés entre cadeiras vazias, de frente a guichês fechados, são daquele tipo de sujeito que não tem medo de nada. Nenhum lugar pra ir, nada a perder. Completamente livres e soltos. Claro, é o que você imagina. Porque você não sabe nada a respeito desses caras. E no fim das contas, pensando direito, você sabe muito bem que sabe muito pouco sobre as poucas pessoas que lhe são mais íntimas, as que você julga conhecer, e sabe menos ainda sobre si mesmo, [ou pelo menos acha que sabe alguma coisa];  o que dizer desses caras vagando a esmo, dos quais você não sabe absolutamente nada a respeito?

Nada a dizer.

O único lugar aberto no terminal é uma lanchonete fuleira. Mesmo assim, o lugar está apenas tecnicamente aberto. Não dá pra entrar lá dentro. Cadeiras amarelas de plástico empilhadas funcionam como uma espécie de muro de contenção na entrada do lugar. Um cara de tronco quadrado e blusa de militar folheia um livro [a arte de pregar a palavra, alguma coisa assim], enquanto a televisão num volume muito alto e mal sintonizada exibe a imagem de um pastor falando que não adianta o pão de trigo [não, não adianta nada], se o pão do amor não está na sua mesa.

***

Era ali que o cara estava. Bem arrumado. Uma sacolinha enfiada debaixo do braço, de frente ao balcão, espiando o pastor falar, espiando aquele bar na esquina do outro lado da rua, onde uns caras gritavam e riam. Mas eu não reparei nos sapatos do cara.

Eu acendi um cigarro e me lembrei que a bateria do meu celular estava nas últimas. E me lembrei de tudo que tinha acontecido até ali. Das tantas vezes que tinha parado naquele lugar [mas nunca as três e quarenta e cinco]. Uma passagem no bolso, o sol escorrendo no gramado do outro lado, comendo uma cigarrete e o coração cheio de expectativas. E no fim das contas, me pareceu uma boa ideia comer uma cigarrete àquela hora.

Olhei na estufa. Três coxinhas com manchas de gordura, um espetinho esturricado. De resto, travessas de alumínio engorduradas, e aquelas travessas de alumínio vazias me deram vontade de chorar.

“Me empresta o fogo?”, disse o cara.

Eu estiquei a guimba do cigarro e o cara acendeu a ponta de um cigarro de palha. Agradeceu e soltou um  longo e demorado trago, formando uma bola de fumaça que encobriu o rosto do cara.

Não adianta ter o pão de trigo, se o pão do amor não entrar na sua casa.

Um bando de caras saiu do bar do outro lado da rua. Caras de boné e capuz enfiando na cabeça. Falando alto demais. Então de repente se calaram e ficaram parados encostados num carro, do outro lado, olhando.

“O senhor vai pegar o ônibus das cinco?”, eu perguntei pro cara.

“Não, não... Vou pra BH hoje ainda. Tô esperando a assistência social me arranjar a passagem”.

“Certo”.

“Tá foda. Bati perna pra caramba hoje. Até furei o sapato”.

Ele virou o sapato pra mim, e a sola tinha despregado do resto. Um sapato marrom, de couro. E o cara estava sem meias.

“É foda”, eu disse.

“Tem lugar que a gente nem pode ficar assim, esperando amanhecer. Não deixam a gente nem sentar. É muito nóia, irmão. Muito nóia”.


Eu olhei meio disfarçado pros caras do outro lado da rua. Continuavam lá, capuz enfiado na cabeça, conversando baixinho. E me lembrei que tinha que dar um jeito na bateria do celular. Então fui até o balcão. Perguntei pro cara com blusa de militar se eu podia dar uma carga no celular. O cara fez que sim, e disse pra mim ter cuidado, ficar de olho, ficar esperto. E voltou a ler aquele livro.

A arte de crucificar a palavra, eu pensei, seria um bom título prum livro ainda não escrito.

Empurrei as cadeiras amarelas pro lado. Coloquei o celular pra carregar e escrevi uma mensagem. Quando voltei, acendi outro cigarro.

“Bati lá no albergue, mas tá fechado”, disse o cara. “Depois me falaram que não abre mais”.

“É complicado”, eu disse.

“Uns vinte e cinco anos, mais ou menos”, disse o cara, “a gente chegava numa pensão e mostrava os documentos e o pessoal recebia a gente bem demais. A gente tinha documento, sabe? E às vezes até arranjava uma coisa pra gente fazer, um servicinho. Hoje tá complicado. Se não pagar adiantado, não tem conversa. Documento hoje não vale nada”.

Eu não sabia o que dizer. Pensei em oferecer um café pro cara. Mas não queria tirar o pouco dinheiro do bolso àquela hora. E os carinhas do outro lado da rua continuavam olhando.

“Tinha muito gato também. O cara via a gente chegando com uma trouxinha nas costas e já chegava: 'Irmão, tá querendo serviço?', daí arrumava um alojamento e um trampo pra gente. Às vezes serviço de roça, qualquer coisa. Hoje não tem mais isso. No tempo da ferrovia também era beleza. Carregamento de calcário, brita, carvão. Era pesado pra caramba. Mas tinha muito serviço”.

Eu ouvia e não sabia o que dizer. Fiquei pensando como a vida daquele cara tinha tomado aquele rumo. E por que tinha tomado aquele rumo. À deriva. Conduzido aquele cara até aquele lugar, completamente sozinho, agarrado a esperança de conseguir uma passagem. Uma passagem e mais nada.

Uma gaiola  saiu à procura de um pássaro, como diria Kafka.

“Pra entrar numa firma aí, precisa de comprovante de residência, mas pra alugar uma casinha aí, precisa de fiador. Mas ninguém conhece a gente, cara. Como é que arranja fiador?”.

Pensei em dizer pro cara [citando Kafka] que há esperança, esperança infinita, mas não para nós. Mas não. Não disse nada.

Dois carinhas saíram do bando lá do outro lado e vieram caminhando na direção da rodoviária.

Olhei pros lados, sei lá procurando o quê. Abaixei a cabeça e continuei ouvindo o cara falar. Ouvindo o pastor falar de pão, trigo, amor.

O cara de capuz chegou e pediu um cigarro. Olhou pra trás enquanto o cara de casaco militar mexia nos maços de cigarro. E não sei porque, mas olhei pro cara. Os olhos do cara estavam vidrados, no meio do rosto recortado pelo capuz. Então eu abaixei a cabeça e fiquei olhando pros sapatos marrons do cara.

Um dos caras do outro lado da rua gritou alguma coisa. Barulhos de portas de carro batendo. Barulhos, apenas. E quando dei por mim, estava tudo quieto demais, o carinha de capuz tinha ido embora.

O pastor continuava falando de pão, amor, trigo. E como a palavra do senhor é transformadora. Aceite o Senhor na sua vida, dê a mão à Jesus e deixe que ele conduza a sua vida no caminho da glória e da felicidade. O caminho da paz, da vitória, do amor incondicional. Estenda a mão ao mestre Jesus. Estenda a mão, meu irmão!

Estiquei a mão pro cara. Deixei o resto do meu maço de cigarro com ele. Uns quatro ou cinco cigarros. Meu ônibus já estava no terminal. Entrei, joguei a mochila na poltrona do lado. Puxei uma barra de cereal na sacolinha. E quando o ônibus saiu, desabei a chorar.



27/08/2011

gatinho

Faz uns dez anos mais ou menos. Não sei muito bem o que o gatinho tinha. Estava apenas amuado. Eu ia lá e colocava comida, água, ração. Tentava brincar com ele, mas ele parecia imune a qualquer afeto. Desistiu de arranhar os troncos. De perseguir as galinhas. E tinha até parado de beber os ovos lá no ninho. Então, assim do nada, sumiu. Procurei por toda parte e não havia nem sinal. 

*** 

Uns quatro dias depois, meu pai foi até a horta, lá debaixo de casa, pra arrancar umas mandiocas. E mexendo numa moita lá no fundo, encontrou o gatinho: morto. 


*** 

Invejo essa dignidade dos gatos. Não choramingam. Não vão lá lamber os pés do dono pra pedir ajuda, ou  sinalizar que não dão conta daquilo sozinhos. Simplesmente se afastam, procuram um lugar escondido. Afastam-se dos olhares de piedade daqueles que os amam. Ajeitam-se numa moitinha de capim, acompanhados apenas da escuridão. E completamente sozinhos (como se soubessem de alguma coisa que nós não entendemos), se entregam ao silêncio derradeiro, com a maior dignidade do mundo.



20/08/2011

O ilustre Sr. Décimo Terceiro



O Antônio Lalá era bem surdo. Morava três casas pra baixo da nossa casa. Dava pra saber o que ele tava assistindo pelo barulho da televisão.

Não sei por que, mas o Antônio Lalá tava querendo vender a televisão. Era colorida. E a gente não tinha televisão colorida.

A lá de casa era miúda e redonda. E a grama dos campos era cinza. O Pica-Pau era cinza, o He-Man era cinza. Tudo quanto é coisa era cinza naquele diabo de televisão.

Eu devia ter uns quatro ou cinco anos. E fui com a minha mãe até a casa do Antônio Lalá.

"Vai comprar mesmo?", perguntou o Antônio Lalá, naquele tom de voz elevadíssimo. "Olha, é uma beleza de televisão!".

Eu olhava na cara colorida do Cid Moreira e ficava até meio hipnotizado.

"Eu sei, Seu Antônio", disse minha mãe.

"Hein?".

"Parece boa mesmo!", minha mãe gritou.

"É um colosso!", disse, e lascou um tapa por cima da televisão, para ressaltar a qualidade do produto.

"Mas eu tenho que esperar o Décimo Terceiro chegar, seu Antônio".

"Esperar quem?".

"O Décimo Terceiro!".

“Ah, sim!”, disse o Antônio Lalá: “O Décimo Terceiro. E quando ele vem?”.

"Ainda não sei".

E o tal do Décimo Terceiro me pareceu um senhor de barba. Algum tipo de autoridade que operava milagres. Vagando de lugar em lugar resolvendo negócios. Um funcionário que despachava. Liberava. Autorizava. Negócios. Emitia cheques cheios de cifras que eu não entendia. Negócios. Mandava vender e comprar. Negócios.

Mas o Sr. Décimo Terceiro era meio enrolado, ao que parece. Por causa do jeito que a minha mãe falava dele, o tom de voz. Praguejando junto das amigas na cozinha de casa, fumando e bebendo café. 

"Será que ele vai demorar a sair?", disse uma das amigas da minha mãe.

Eu pensei comigo que o Sr. Décimo Terceiro era daquelas pessoas que demoravam demais pra se arrumar. Trocava uma roupa atrás da outra. Penteava e despenteava o cabelo. Perguntava à mulher como é que estava a calça. Se o sapato tava combinando. Um homem muito vaidoso.

Sempre demorava. E não foram poucas vezes que minha mãe e as amigas ficaram muito irritadas com a demora do Sr. Décimo Terceiro. Soltavam uns palavrões contra um tal de Estado, noutras, contra um tal de Newton Cardoso. Deviam ser chefes do Sr. Décimo Terceiro. Estado, Newton Cardoso. E uma tal de Sra. Primeira Parcela, provavelmente esposa do Sr. Décimo Terceiro. E duas irmãs pequenas, pelo o que entendi, que se chamavam Segunda e Terceira Parcela. Eu ficava de lado com a cabeça embaralhada. Eram  figuras tão misteriosas pra mim. Nunca os tinha visto! E essa turma parecia a turma mais importante do mundo pra minha mãe e as amigas professoras.

Estado. Newton Cardoso. Décimo Terceiro. Primeira Parcela. Estado. Elas repetiam e repetiam, como se estivessem evocando santidades.

Da última vez que o Sr. Décimo Terceiro tinha vindo, embora não o tenha visto, ganhei um bonequinho do Comandos em Ação. E foi por causa do Sr. Décimo Terceiro que a gente pagou um táxis e foi até Lavras, e encheu o carrinho de compras, tomou sorvete e depois encheu a geladeira de danone. O tal do Sr. Décimo Terceiro era um homem muito bom. O Sr. Décimo Terceiro deixava minha mãe muito feliz. Agradava muito minha mãe. Pensei comigo, será que meu pai não tinha ciúmes? Afinal, minha mãe só falava do Sr. Décimo Terceiro. A alegria dela parecia depender da chegada do Sr. Décimo Terceiro. Como se o Sr. Décimo Terceiro fosse um namorado antigo, que havia lhe partido o coração em outros tempos, e depois de anos, tentava reatar os laços. Confesso que eu ficava meio confuso às vezes. Porque também estava muito ansioso pela chegada do Sr. Décimo Terceiro. Não aguentava mais o Chapolin Colorado descolorido.

No fim das contas, pelo pouco que eu entendi, a vinda do Sr. Décimo Terceiro dependia da boa vontade do Sr. Estado, e do Sr. Newton Cardoso, e talvez da liberação da esposa, a Sra. Primeira Parcela. Lembro que me subiu um arrepio na nuca. Não entendia tantas burocracias. E pensei comigo: e se o Sr. Estado e o Sr. Newton Cardoso estivessem mal-humorados? E se a Sra. Primeira Parcela ficasse com ciúmes da minha mãe? Enfim, fosse qual fosse o motivo: e se o Sr. Décimo Terceiro não viesse?

Seria uma tristeza de um cinza sem fim.

Passei a tarde jogando bola ali perto do Hospital. Depois, vagando por lotes vazios, derrubando latas de óleo com pedradas. No fim do dia, já na rua, antes de entrar em casa, ouvi a voz do seu Antônio Lalá. Entrei correndo. Ele e meu pai estavam ajeitando a televisão na estande. Então eu soube que tinha corrido tudo certo. O Sr. Décimo Terceiro tinha passado mais uma vez. 

Infelizmente, como das outras vezes, eu não o tinha visto. Tudo bem. Quando o Cavalo de Fogo surgiu roxo azulado na tela, correndo com os olhos vesgos, eu fui me esquecendo daquilo tudo.



19/08/2011

Dois lados


O cara me enviou o conto por email. Não gostei do texto e fiz alguns apontamentos. Mostrando alguns probleminhas e coisas explícitas demais. Dessas coisas mais simples que a gente faz numa oficina literária. Dá e ouve opiniões. Aceita as que fazem sentido e descarta as que não fazem. Enfim, sugeri a ele que cortasse alguns trechos e expressões meio batidas, e que no fim das contas, ele deveria reescrever, deveria trabalhar mais o texto. Ele me respondeu furioso. Disse-me que o conto estava pronto e que não ia mudar nenhuma linha. Disse que tinha uma obra sólida, mais de quarenta livros publicados, mais de trinta anos de literatura!, como se esfregasse isso tudo na minha cara. Fiquei um pouco chocado com isso tudo. (Eu, que nem tenho obra ainda, um livrinho só, dois anos de literatura? que talvez nunca tenha uma obra sólida, afinal, tudo que é sólido se dissolve no ar, eu pensei). E pensei em dizer a ele que o fato de ter quarenta livros publicados e um prêmio, e trinta anos de literatura, não fazia daquele conto um bom conto. E muito menos me obrigava a gostar daquele texto. E que tinha gasto meu tempo (de graça!) lendo aquele conto, na maior boa vontade. Tinha me dado ao trabalho de comentar, de apontar, de sugerir. E da forma mais honesta possível, oferecido minha impressão de leitura. Agora, no fim das contas, ele me retribuía isso com ofensas e indiretas? Mas não. Tudo bem. Respirei fundo, contei até dez, e disse que eu tinha feito apenas algumas sugestões, (o que de fato era verdade), e não estava questionando a obra dele (outra verdade), e quanto ao texto, ele tinha liberdade e autonomia pra fazer aquilo que achasse melhor. E ficou tudo bem.
Foi mais ou menos isso.

*** 

Faz um ano que venho trabalhando naquilo que eu espero que seja um livro. Precisava muito de um olhar externo para saber mais ou menos como a coisa está. Primeiro, porque o texto é produzido na mais absoluta solidão. É só você e o texto. É só assim que funciona. E eu tenho tentado construir um estilo bem diferente do meu primeiro livro. Enfim. Nunca é fácil. A gente muitas vezes sente intuitivamente se a coisa vai vingar ou não, e vai avançando, mas, têm horas que a coisa complica, e essa leitura externa mais ou menos imparcial é fundamental. Enviei um trecho a um escritor que admiro e respeito muito o trabalho. Ele foi o mais direto possível: “não gostei do texto”. Apontou os motivos, fez marcações e ainda corrigiu umas crases! Explicou aquilo que o incomodava. E ainda se deu ao trabalho de apontar claramente no primeiro parágrafo aquilo que na visão dele enfraquecia o texto. Ou seja, de uma honestidade e generosidade que não há como retribuir. Não há muita gente assim por aí, não é?

Bom, é mais que evidente que isso não me desanima e muito menos me deixa ofendido. Muito pelo contrário! Abre possibilidades: ver as coisas de forma mais arejada. Voltar ao texto com outro olhar. Melhorar. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Me ajudou demais.
Eu só tenho a agradecer.

***

Isso tudo me lembrou o José Lins do Rego. Segundo o Graciliano, o Lins do Rego, sempre que recebia um texto, já tinha uma resposta pronta: “Adorei seu texto, achei tudo lindo e maravilhoso!”. Ficava bem com todo mundo, é claro. Mas, por outro lado, assassinava uma centena de bons escritores em potencial. No fim das contas, se a gente for pensar bem, era uma boa forma de eliminar a concorrência.

09/08/2011

Ele é muito velho



A janela ficava sempre fechava e o rádio chiando o tempo todo. A madeira encarnava um cinza fosco, recortado por manchas pretas. Quando eu subia aquela rua, ouvia as rezas em loop contínuo se aproximarem, misturado aos chiados do rádio vacilante, sintonizado em AM. Eu pregava os olhos na janela e continuava subindo. Acho que era um terço, algo assim. Aquilo que a legião de vozes sussurrava através do rádio, chiando, como se a mensagem viesse de uma dimensão paralela ou coisa do tipo. Eu sabia pouco. Sempre soube pouco. Mas fiquei curioso com aquilo. Havia um homem lá dentro e aquela janela estava sempre fechada. Não entendia porque um homem ficaria o dia todo lá dentro, provavelmente deitado, ouvindo rezas e rezas. Lembro que perguntei a minha mãe por que o homem não saía de lá.

“Ele é muito velho”.

Não sei muito bem como encarei essa explicação. Talvez tenha entendido a debilidade física. A incapacidade de juntar-se àqueles velhos que ficavam na praça, que eu via todos os dias. Àquele que carregava alfaces frescas na rua. Não sei bem. Talvez ele tivesse algum problema. Talvez fosse tão velho que já não conseguisse andar. Talvez não tivesse pernas ou elas simplesmente não funcionassem. Mas mesmo isso não explicava a janela fechada, e muito menos explicava aquele rádio, rezando dia após dia, como se fosse expulsar uma legião de demônios, ou aliviar uma culpa secreta, dessas que esmagam o coração de um homem.

Quando o homem morreu eu fui ao velório. As rezas eram as mesmas. Só que agora eram os vizinhos ali, rezando. Outros vizinhos na cozinha, rindo. Barulho de xícaras e copos. Tinha mais crianças ali, outras correndo na rua. O homem estava estendido na sala. Era realmente muito velho. A pele igual papel de tão branca e fina. Mas não era isso que me impressionava tanto. Fui andando na direção do quarto. O assoalho de madeira cheio de vãos. Lembro do cheiro de roupa guardada, um cheiro forte. A cama desarrumada. Um lençol fino, branco, misturado ao cobertor leve e sem cor definida. Restos de velas no criado mudo. Uma caixa de fósforo e o rádio. Era pequeno, cinza, com a antena encolhida. As pessoas atrás de mim continuavam repetindo como que hipnotizadas. Eu simplesmente estiquei a mão, ia rodar a chavinha. Mas minha mãe me puxou. Me levou de volta pra sala. Fiquei ali encolhido, no meio de todo mundo. Encolhido num canto, arremedando aquelas vozes da melhor forma que podia.

29/07/2011

Eu preciso aprender muitas coisas sobre fogueiras



Para o Elvis, in memoriam


Quem já acampou comigo, conhece bem essa minha mania. Tenho uma preocupação excessiva com a fogueira. Mas essa atração pelo fogo não é de hoje. Conta minha mãe que, quando eu tinha uns três anos e pouco, quase meti fogo na casa. As prateleiras da cozinha eram forradas com jornal, e eu, miúdo, saquei um fósforo que tava de bobeira em cima da mesa e tasquei fogo na pontinha de uma folha, lá no pé da prateleira. Quando minha mãe entrou na cozinha, eu, aquele pingo de gente, tava com a caixa de fósforo na mão, olhinhos arregalados [sereno], contemplando as chamas que iam lambendo as prateleiras com tudo, de cima para baixo. Eu não lembro do caso, mas deve ter sido uma beleza de fogo. 

Talvez seja culpa dos astros. Na astrologia, eu sou praticamente um dragão industrial, revestido de trempes, cuspindo labaredas para tudo que é canto. Meu elemento astrológico [adivinhe] é o fogo, tanto do signo como no ascendente. Meu astro regente é o sol. E até na filosofia, entre os pré-socráticos, embora goste bastante do Anaximandro, eu sempre fui meio fascinado com os fragmentos do velho Heráclito. 

Mas voltemos ao acampamento. Enquanto alguns são obcecados pela montagem metódica da barraca, outros preocupados com a comida, o meu negócio é a fogueira (os motivos parecem óbvios). A primeira coisa que eu faço é caminhar pelo local, seja o alto de uma serra, beira de rio ou ribeirão, juntando galhos e gravetos, troncos velhos, amontoando folhas secas. Vou ajeitando tudo de maneira exemplar num cantinho. Depois vou montando a fogueira com calma e bastante cuidado. 

Você precisa saber que não é apenas jogar os galhos uns sobre os outros. Você precisa deixar espaços entre os troncos maiores. O ar, o comburente, precisa circular de maneira adequada. Tem que ir forrando os galhos com folhas secas, trançando a coisa da melhor maneira possível. Sem deixar lacunas em excesso, sem abafar demais. É meio como escrever. Tem muito da escritura na montagem de uma fogueira. Você escolhe as palavras como escolhe os troncos, e nem sempre o tronco, galho, graveto, é aquele que você esperava encontrar. Dificilmente você vai encontrar uma lenha virgem já pronta para a fogueira. Você precisa partir os galhos, diminuir o tamanho. Precisa ver se o tronco não está verde. Precisa arquitetar a montagem, escolher o lugar certo e deixar uma boa reserva de lenha para alimentar o fogo de tempos em tempos. E mesmo que a condição não seja ideal, e nunca é ideal, você usa o que tem. No fim das contas, você sabe, o importante é construir uma fogueira que funcione da forma que tem que funcionar. Uma fogueira capaz de aquecer e iluminar durante a noite, o tempo que for necessário. E não pode queimar rápido demais. O fogo precisa equilibrar consistência e vigor; se fraquejar, as chamas serão engolidas pelo sereno, soterradas silenciosamente pela escuridão. 

*** 

Choveu a semana inteira. E quando estiou, o Elvis e eu, juntamos as coisas e fomos acampar. Eu achava que era impossível acender uma fogueira com a lenha encharcada daquele jeito, mas o Elvis disse que era fácil, coisa simples, bastava um pouco de querosene. Tá certo, eu disse. 

O querosene tava numa dessas garrafinhas descartáveis. O Elvis despejou cuidadosamente sobre uns galhos e gravetos, e riscou o isqueiro. Mas a coisa não funcionou de imediato. Tava tudo muito encharcado. Ele persistiu tentando, resmungando, soprando, riscando o isqueiro. Não deu certo. 

“Tá danado”, ele disse. 

As tentativas falhas prosseguiram, e eu já ia me acostumando com a ideia de passar a noite sem fogueira. As sombras de uma noite fria e silenciosa tomavam conta da minha cabeça. Mas quando tudo parecia perdido, o Elvis levantou, foi até suas coisas, e arrancou uma lasca do colchão. Eu não entendi.

“Agora quero ver se pega ou não pega”, ele disse. 

Molhou aquilo com querosene, riscou o isqueiro, e rapidamente as chamas da lasca de colchão, exalando uma fumacinha preta, enxugaram os gravetos. Secos, os gravetos começaram a queimar e enxugar outros gravetos. E quando já tinha uma quantidade boa, o Elvis arrastou um tronco maior, banhou de querosene e ficou olhando. O tronco levou um certo tempo para enxugar, mas quando enxugou, já era. 

À noite, enquanto a gente bebia e conversava, de frente do fogo que subia firme, vigoroso e imponente, virei para o Elvis e soltei uma piadinha para quebrar o silêncio:

"Eu preciso aprender muitas coisas sobre fogueiras".

Sem desviar os olhos do fogo, ele respondeu:

"Eu preciso aprender muitas coisas sobre muitas coisas".

As risadas foram engolidas pelo silêncio da noite que avançava fria e úmida, forrada pelo barulho do rio escorrendo como sempre, sobre as pedras; o barulho de estalos secos na fogueira, as chamas lambendo troncos e galhos, reduzindo tudo as cinzas.


19/07/2011

feito bicho, sem sol, amuado

Você estica os dedos e a catraca suga seu bilhetinho como se tivesse fome desses bilhetinhos que custam dois e noventa. E você é um dos poucos que tem o bilhetinho, todo mundo têm um cartãozinho mágico que libera catracas de trens, ônibus, metrô, e deve até abrir portas de cofres, ou corações calejados por pancadas secas de indiferença e silêncio. Uma chave mágica. Você tem um único bilhetinho, são muitas catracas, muitos buraquinhos de sugar bilhetinhos. E talvez seja carência, a causar essa fissura libidinosa da catraca, ao engolir seu bilhetinho como se chupasse e dissolvesse o último fiapo de algodão doce do planeta. 

Nas catracas ao lado da sua, apenas o barulhinho indiferente de um cartão magnético, o baque da catraca que gira, os sapatos velozes de quem avança como se fugisse de alguma coisa. E todo mundo corre como se tivesse feito alguma merda, ou tivesse que evitar alguma dessas merdas inevitáveis. Daí a sensação de que tem porque tem alguma coisa muito louca acontecendo nalgum lugar. 

Mas não tem nada acontecendo. É só impressão. A sua impressão.

Seu bilhetinho desaparece e você está livre para empurrar. 

E você empurra. 

Mas não é agora que vem a frase (ou imagem) na sua cabeça. Há a fila, e você precisa manter-se à direita da escada como um caminhão carregado de areia na estrada (é uma regra), facilitar a passagem do cara que acordou dez minutos atrasado (por causa daquele filme), e a mulher que parou de conversinha com a vizinha na saída de casa (a filha do Seu Guilherme do 304 tá grávida), o menino que precisa chegar dez minutos mais cedo para ver a menina de cabelos amendoados (saltar do carro do pai e atravessar o portão da escola), e o cara que finalmente conseguiu uma boa entrevista de emprego e precisa chegar com tempo de sobra (porque não sabe muito bem onde é), toda uma legião de etcéteras subjectivos, com pressa, à sua esquerda, elevando ao dobro o movimento rumo ao fundo, onde a fila se dispersa em pequenas filas marcadas pela faixa amarela. 

Atrás da faixa amarela até soar o alarme, a porta mecânica se abre. 

Se a sorte estiver do seu lado, você poderá ficar de pé por duas estações, no máximo três. Senão, ficará de pé até o final. Mas não é esse o problema. 

Não há sol aqui. E talvez seja essa a causa do sono, cravando pés de ferro dentro dos olhos, que pesam, afundam de forma incontrolável, governados por algum tipo de maquinismo obscuro. E você não é o único. Todo mundo está meio sonolento ou cochilando, contaminado: o sonífero exalado da ausência de luz natural, à medida que o friccionar de trilhos, cabos, ferragens, se propagada num movimento que parece ir sempre no mesmo sentido.

É só impressão. A sua impressão.

Se você conseguir uma vaga para sentar-se, logo estará com o braço apoiado no vidro, formando um arco para apoiar a cabeça, grogue, meio-zen. Dissolvido.

Feito bicho, sem sol, amuado. Essa é (era) a frase na sua cabeça.

05/07/2011

Escavações da infância



Entre aquelas história que a mulher da esquina contava, quando éramos crianças, a que mais me impressionava era de uma missa:

Um homem vem a cavalo até à cidade, assistir à Missa do Galo. A igreja está lotada. Mesmo que não reconheça ninguém ali, nem mesmo o padre, o homem encontra um lugar ao fundo da igreja e assiste à missa tranquilamente. Reza, agradece, toma hóstia. Ao final, deixa o lugar em silêncio.

Sobe no cavalo e toma o rumo de volta, até que cruza com um conhecido.

“Não vai na missa?”, pergunta o conhecido.

“Uai, tô vindo de lá, a Igreja tava lotada”, responde o homem.

“Tá doido?”, diz o outro. “Agora que são onze e meia. Que missa é essa que cê foi?”. 

Descrente, o homem acompanha o conhecido de volta à cidade. Chegando lá, reconhece o padre, o coroinha, reconhece quase todo mundo. Então constata, perplexo, que a Missa do Galo, de verdade, estava prestes a começar. 

A mulher falava que tinha acontecido naquela igreja ali, que por aqui chamamos de Igreja Velha. 

A Igreja Velha (1798), entre outras coisas, remete à fundação do município. Ali foi erguida a primeira capela, nos tempos que esse lugar ainda era um povoado, antes mesmo de ser elevado à distrito, pertencente à Lavras do Funil.

No entorno, havia um cemitério, depois desativado, sem deixar quaisquer sinais.

Nessa mesma época que a mulher da esquina nos contava essas histórias - as máquinas escavaram o terreno da Igreja, na ocasião de uma reforma. Gostávamos muito de ver aquelas máquinas trabalhando. Eu, Rodrigo, Lindomar, Marcelinho Black, Joãozinho, Ti Rani.

Ficávamos impressionados com a lâmina gigantesca da patrol cortando e empurrado a terra; a carregadeira furiosa, elevando a boca absurda no ar, infestada de dentes de aço; além dos movimentos das engrenagens, braços e articulações jurássicas, e o caminhão basculante despejando um mundo de areia e cascalho no chão. 

Num daqueles dias, enquanto a gente brincava no banco de areia debaixo da Igreja, a carregadeira, revirando a terra, encontrou umas ossadas. 

É uma das visões mais marcantes da minha infância, junto da vez que vi uma jararacuçu engolindo um rato,  do dia que deixei o pote de mel cair no meio da rua. Não me esqueço de ver aquele pedaço de crânio, com o fosso dos olhos, o fêmur, costelas, e outros cacos de ossos despontando de tempos imemoriáveis, da vermelhidão da terra. Afinal, naquela época, além das histórias que a mulher da esquina contava, minha imaginação vivia povoada com as escavações de Indiana Jones, com as aventuras de Atreyu, com as gravuras das enciclopédias que folheava (e como não sabia ler, para apropriar do livro), recortava e pregava dentro do guarda-roupas, para o desespero dos meus pais. 

Os homens juntaram aqueles ossos num saco. Enfiaram na traseira de uma camionete e sumiram com aquilo, talvez para mostrar a alguém entendido, algum superior misterioso, escondido numa sala secreta, nos porões de alguma repartição pública. Nunca soube o que aconteceu. Sei que fiquei frustrado, porque para mim, aquela ossada pertencia a uma das personagens daquela história que a mulher contava. Era a prova científica de uma lenda. E por isso, aquela história do homem que ia à Missa do Galo, era a história que eu mais gostava. 

***

Fiquei muitos dias pensando naquela ossada. Minha ideia era organizar uma escavação por ali. Mas os homens que trabalhavam na reforma, depois de encontrado a ossada, tinham recebido ordens para nos manter afastados do local. Além, é claro, dos nossos pais nos proibirem de ir lá, com medo de doenças, ou qualquer coisa do tipo. 

Mas a vontade era maior. 

Quem topou ir comigo foi o Marcelinho Black, com quem eu tinha o hábito de ir pegar girinos no Córrego Grande, para criar em aquários improvisados com bacias de alumínio, latas de óleo, copos de massa de tomate. Não fazíamos muito bem essa ligação do girino com aquilo que ele se tornava quando adulto. E ainda bem que nossas mães sempre jogavam nossos viveiros de anfíbios fora, afinal, não sei qual seria a minha reação ao acordar com um sapo ou uma rã saltando dentro do quarto. Tem tempo que não vejo o Marcelinho Black, mas confesso: não fiquei espantado, no dia que fiquei sabendo, que ele, hoje, é biólogo. Sempre foi, mesmo em potência.

Nosso plano era esperar os caras irem embora da Igreja. Então, cavucar aquela terra à procura de uma caveira, um braço, uma mão, um dedo do pé que fosse. Ficamos matando o tempo com uma bola dente de leite, espiando de longe os caras trabalhando, o caminhão que ia e vinha, até chegar a hora. Deu certo. 

Ao cair da tardinha, com o lugar vazio, munidos de duas caixas de sapatos e uma pequena pá de juntar cisco, tomada emprestada da cozinha da minha casa, mergulhamos nas escavações. Enquanto mergulhava a pá na terra vermelha, minha cabeça visualizava esqueletos completos, algo como o exército do imperador Qin fundido as caveirinhas de Golden Axe, e até um corpo-seco, essa múmia mineira, com unhas e cabelos crescidos depois de morto. 

Como é comum, a realidade é sempre mais estreita. Nada de caveirinhas armadas de escudos, ou fazendeiros de outro século, com leite fresco na barba grande. Encontramos uns caquinhos de osso, bem miúdos, encardidos de terra. Sete caquinhos ao todo. O Marcelinho Black ficou com quatro, porque eram menores, eu fiquei com três, que eram maiores. Depois de dividir, tocamos para casa. 

Entrei com aquela caixa debaixo do braço na maior naturalidade. Meu pai assistia ao jornal e nem perguntou do que se tratava. Passei direto para o quarto. Coloquei a caixa de sapato no melhor esconderijo do mundo. Embaixo da cama. 

Mais tarde, antes de dormir, puxei aquela caixa e fiquei mexendo nos ossos. Tentando supor a que parte do corpo pertenciam tais pedaços. E se aqueles pedaços, assim como imaginei da caveira que a máquina tinha arrancando da terra, pertenciam também às personages fantasmagóricas daquela história, que a mulher da esquina nos contava. 

Minhas investigações arqueológicas duraram pouco. No dia seguinte, enquanto eu estava tomando café, antes de ir à aula, ouvi minha mãe gritar do quarto, perguntando o que é que era aquilo embaixo da cama. Primeiro falei que eram ossos de vaca, tentando diminuir o baque. Mas não funcionou, ela fez uma cara de nojo e disse que eu tava maluco em trazer osso de bicho para dentro de casa. Então eu disse que era osso de gente, lá da igreja, na tentativa de atestar o valor daquela caixa de sapato. 

Mas foi pior. 

“De gente?”, ela disse, como se estivesse segurando uma lasca de fígado ainda quente, antes de correr com aquilo para o quintal e tascar a caixa com tudo, lá no lote vazio, do lado da nossa casa. 

Eu senti um aperto terrível, me enfiei no quarto sem entender muito bem. 

Mas quando encontrei o Marcelinho Black, no outro dia, na esquina de casa, ele me contou que, além de sumir com os ossinhos dele, a mãe dele tinha colocado ele de castigo. Daí, eu me senti melhor. A realidade era frustrante - tudo bem - mas pelo menos não estava sozinho naquela situação.


20/06/2011

É um falso exílio

Yvie Booth, in: http://incredibilis.tumblr.com

Sempre que volto de São Paulo, quando entro no ônibus da Trectur que vai de Três Corações até Luminárias, me sinto novamente no Brasil. 

O outro ônibus, que atravessa a Fernão Dias de São Paulo para Três Corações (e vice-versa), é outra coisa. É quase um avião pregado ao asfalto, com pessoas na maioria das vezes silenciosas, o ar condicionado, as largas janelas, poltronas reclináveis, motor silencioso.

O ônibus brasileiro é de outro naipe. O estofado da poltrona é esquelético, colado à madeira. A lataria range, a suspensão é dura. Está sempre lotado, e fico impressionado com a capacidade de abstração do cobrador e seu bloquinho de passagens: o xerox analógico do carbono, os bolsos da pochete cheios de moedas e notas miúdas, a rapidez das contas de cabeça. No outro ônibus, esse avião de rodas coladas no asfalto, não há cobrador. 

No ônibus brasileiro ainda há sujeitos de chapéu, o cheiro de suor dos trabalhadores, mulheres com crianças no colo, falando de doenças, do preço dos remédios, o cheiro de salame e salgadinho, a alegria transgressora e irracional dos cachaceiros que bebem mais uma, na parada, naquilo que chamam de terminal rodoviário; e os pacotes de arroz, latas de óleo, fardos de açúcar chacoalhando nos bagageiros, os mantimentos - o necessário; pessoas que saltam no meio da estrada porque moram por ali, e você pensa: essas pessoas realmente vivem ali. No outro ônibus, fones atolados nos ouvidos, é tudo muito organizado, todo mundo parece turista, de férias, a passeio, desnecessário.

Descer do ônibus que vai de São Paulo até Três Corações e pegar o ônibus que vai para Luminárias (e vice-versa), é como cruzar uma fronteira. 

***

Nunca fui muito esperto ao pular muros, hesitava no momento do salto, como hesitava ao atravessar por baixo das cercas de arame farpado; o que dirá, atravessar fronteiras. É sempre uma parte que fica quando deveria se desprender e ir, e uma parte que não volta quando se retorna. 

***
Afinal, toda geografia é sentimental.

***
É como ser um estrangeiro sem pátria de origem. Esse constante estado de estranhamento mesmo diante daquilo que é mais reconhecível. Ou deveria ser.
É um falso exílio, no fim das contas.


15/06/2011

amor é onde nós nunca estivemos: [n°3 intenções]


Desligou o telefone e a essa altura usando o tom de voz que soaria ridículo a um estranho, como o próprio tom de voz dele soaria ridículo a outro estranho, como o tom de voz dos dois soaria ridículo a um terceiro estranho, a manifestação do carinho coando o timbre da voz no telefone, que não expulsava de todo o tom áspero de ainda a pouco, pairava um ranço, mesmo pouco, mesmo quando, ela sorria e ele sorria de volta, o tom áspero do pequeno atrito de meia hora antes se prolongava, era a segunda vez naquele dia e por decisão dela, talvez mais sábia, mais calejada, interromperam a conversa naquele ponto que era o ponto mais tenso da conversa, onde nenhum dos dois abria mão de nada do que tinha dito, e ficavam cegos, não conseguiam passar para o outro lado, se é que conseguiam em algum momento passar para o outro lado, se é que existia tal coisa como um outro lado, por mais que se esforçassem e conversassem sobre isso quase sempre, os pequenos atritos que não eram graves mais surgiam vez ou outra, ele otimista nato tentando se defender dos seus defeitos, ingenuamente querendo ser o melhor possível era o que dizia, tentando sustentar as palavras das melhores horas para afastar esse ranço das piores horas, tentando recuperar as declarações espontâneas no silêncio escuro daquele quarto, tentando passar daquelas coisas que eles diziam a coisa prática efetuada, desejo de ser cada vez melhor e mais sensato ele dizia, e disse a ela que esses atritos os definiam, davam o limite daquilo mesmo que eles eram, e quando no meio da tarde ela ligou dizendo que tinha lido o artigo, uma coisa de trabalho sobre bebês e pensando nele, e que era ele então que ela queria ao lado dela, ainda que indagasse, depois de dizer tudo, se não era loucura pensar assim numa coisa dessas assim de cara, não como se escolhe um curso ou trocar de carro e financiar uma casa, ao que ele disse que ficava feliz de ouvir isso dela, no meio da tarde assim do nada ao ler o artigo, e tivesse se lembrado dele como aquele cara que ela queria ao lado dela, e ele pensou que aquele dia era um dos melhores dias, como uma surpresa dessas caía bem assim do nada, assim do nada como eles se conheceram e avançaram. Desligou o telefone e ficou pensado nessas coisas assim do nada, como questionar o ponto de vista dela irredutível (ele ou ela), o que era de fato uma coisa ruim de se fazer assim logo de cara, talvez pior do que se omitir e se calar resignado, tentando recuperar o tom escuro e silencioso daquele quarto, e não entendia porque alguma coisa dentro dele disparava, decidia automática que questionar e irredutível era o melhor, como um daqueles caras que ele leu um tempo antes, que escrevera nunca se escolhe o mal mesmo quando equivocado, ao que um ditado popular ironizou pulverizando: bem intencionadas apenas as caldeiras do inferno fervem vigorosas, desde sempre lotadas.



07/06/2011

amor é onde nós nunca estivemos: [n° 1 obviedades]

Photographed by John Degotardi Jr.

Se calaram sob as cobertas. A luz do abajur caía fraca sobre o quarto. Então ele começou a falar de um bazar onde havia uma besta de plástico, meia dúzia de flechas pretas com borrachinhas vermelhas na ponta, dessas que grudavam na porta da geladeira, em vidro plano, metal liso. Depois da escola,  passava na frente do bazar, para constatar que a besta permanecia intocável, no alto da prateleira, lacrada, na caixa. Se alguém comprasse aquela besta antes dele seria terrível. A moça dos olhos azuis disse que não podia reservar. 

Tinha uns seis anos na época e lhe pareceu que, dentro daquela caixa, a besta, meia dúzia de flechas, havia alguma coisa a ser atingida (por ele), exatamente ali (anos depois, quando essa sensação voltou, ele poderia chamar de felicidade o ponto a ser atingido, e mais tarde ainda, embora nunca tenha entendido completamente, intuía que não tinha nada a ver com o alvo, e sim com o mirar, mesmo que não houvesse chances), mas aos seis anos era nítido essa ilusão de que a felicidade estava materializada exatamente ali, na besta, meia dúzia de setas com borrachinha vermelha. Precisava ter aquela besta, não havia escolha. 

Ele disse que esperou o mês todo até que sua mãe pudesse comprar a besta. E aquele movimento da moça escalando a escada e descendo com a caixa, que ele não deixou embrulhar e abriu ali mesmo, de fora da loja, arrancando o plástico que brilhava debaixo do sol, o cheiro de brinquedo novo, o cheiro borrachinhas vermelhas e o primeiro tiro foi na porta da loja, isso ele não esqueceu. E foi a primeira vez que alguma coisa que ele desejava de verdade, esperava, aconteceu de verdade. 

Dormiu com a besta ao lado da cama e no dia seguinte bombardeou a geladeira, janelas de metal, paredes, guarda-roupas. 

Onde é a cozinha, era uma varanda, ele disse. E ao lado ficava um lote vago, sem a casa que tem hoje, era só pé de mamono e branquiária alta. Então eu cheguei na beira da varanda, ele disse, fez uma pausa: - e joguei tudo lá. 

Ela não disse nada. 

Nunca entendi por que fiz aquilo, eu queria tanto aquela besta. 

Mas e depois? 

Eu não me lembro muito bem, ele disse, sei que umas semanas depois, sabe-se lá quantos, uns caras tavam andando lá dentro do lote. Eu lembro que cheguei na cerca e perguntei: “ei, cêis num viu uma besta e umas flechinhas aí não?”, “não, não vi não”. É a última coisa que eu lembro. 

Ela se arrastou na cama e se encostou nele, apenas respirando. Ele deu-lhe um beijo na testa e disse que ia fumar e logo voltava. Mas ele precisava apenas respirar um pouco. Por saber, que no fim das contas, a maioria das coisas que haviam conversado, eram dois monólogos, paralelos, se esbarrando aqui ou ali. E ele não fazia a mínima ideia de como resolver isso, mas por hora, bastava chegar a janela, acender um cigarro e respirar um pouco, sabendo que a noite ficaria cada vez mais fria. E talvez ele enfiasse duas meias nos pés essa noite.

14°C ontem?, ele perguntou ao voltar para o quarto.

Ela cochilava. Abriu os olhos e perguntou ou disse alguma coisa, e ele não entendeu. Ele apenas se deitou, ouvindo ela respirar, e assim estava bom, pensou por um segundo, mas logo a sensação se dissipou, feito um plugzinho miúdo que se soltasse, não conseguia parar de pensar no motivo de jogar aquela maldita besta fora. E não seria dessa vez que entenderia.

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25/05/2011

de quando buscava água com meu pai


INCREDIBILIS a creative blog by Enrico M. painter/designer


Faltava água na cidade, sempre, mas não me lembro a causa. Apenas das torneiras secas. 

A prefeitura emitia um aviso, ia faltar água por três ou quatro dias, e a caixa sobre o banheiro se silenciava. Como se obedecesse a decretos, as torneiras giravam em vão, a mangueira ressequida, esturricando no sol.

Não sei o motivo da falta d'água, porque tinha as pernas miúdas, os braços miúdos que não aguentavam carregar uma lata maior. A lata maior era meu pai quem levava, num carrinho de mão cinza escuro, o eixo mal lubrificado, que descia a ladeira da Igreja Velha, rangendo. 

Eu ia sentado na ponta do carrinho, com uma leiteirinha amassada nas bordas, apertada no colo. Lembro da imagem da estrada de cascalho à frente descendo e subindo, e quando às vezes meu pai acelerava, eu imaginava um tombo, meus joelhos esfolando no cascalho, sangue cheio de caquinhos de pedra, pontudos, grudados na pele, então apertava a borda do carrinho de mão com força, com medo. Até fechava os olhos, com medo, e não falava. Continuava quieto, apertando, segurando. Meu pai diminuía a toada e eu podia soltar as mãos, e o barulho do carrinho de mão avançando, agora lento, na estrada, o barulho dos chilenos do meu pai arrastando no cascalho, lentos, o barulho oco da lata maior rebatendo contra o metal do carrinho, me aliviava. 

Então eu podia reparar nas ranhuras da estrada. Marcas de pneus de caminhão, ferraduras de cavalos, carros, manadas de gado. E era como se as marcas trouxessem aqueles que as provocaram a presença. Como se a estrada, então vazia, fosse, aos poucos, povoada com as vacas se desviando do caminhão fumacento, e os cavalos em trotes imponentes se desviando das vacas, dos carros acelerando morro acima. 

Na curva perto do Matadouro, já dava pra ver a fila. Essa imagem real das pessoas próximas a bica soterrava meus devaneios, devaneios inspirados pelas ranhuras na estrada. Meu pai e eu assumíamos nosso lugar, esperando que a fila avançasse, para que pudéssemos encher nossas latas e tomar o caminho de volta. 

Mas meu desejo de que a fila avançasse não era tanto da água, jorrando infinita da bica, da água que ia servir para minha mãe cozinhar, para matar minha sede depois de uma partida de futebol à frente de casa. 

Eu queria mesmo era sentar na ponta do carrinho de mão - subir a ladeira de volta - e reparar as ranhuras na estrada.

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09/05/2011

Doce de leite

O ônibus chegou meia-hora antes do previsto e ele não tinha com o que aproveitar o tempo extra, e a própria expressão tempo extra lhe pareceu inadequada diante daquela situação. Afinal, logo estariam juntos e quando estavam juntos os minúsculos duendes invisíveis, travessos e sádicos, invadiam o interior dos relógios e aceleravam os ponteiros enquanto arreganhavam os dentes, se divertindo com o desespero silencioso dela, se divertindo com o desespero nos olhos dele. No piso dois, ele pensou em entrar na livraria e procurar um exemplar de Iniciantes para presenteá-la, mas então se lembrou, pela segunda vez, que ela havia comentando algo sobre doce de leite (que, aliás, não era recomendável que ela comesse), mas isso durou só um segundo, e ele atravessou à multidão, em debandada feito gado, saindo do metrô e se espalhando no terminal lotado em função do feriado. Ele desceu na saída da Av. Cruzeiro do Sul já com o isqueiro à mão. Lá fora, embora houvesse um fiapo de sol laranja caindo sobre o concreto aos seus pés, o céu estava cinza, e o ar estava cinza, feito uma cortina semi-transparente que caísse por toda parte. O último cigarro tinha saído da sua boca três horas antes enquanto olhava para os carros cortando a rodovia, de fora do restaurante onde ele tinha visto o doce de leite e se lembrando, pela primeira vez, que ela comentou, por alto, que estava com desejo de comer doce de leite; ele pegou o vidro, fez contas de cabeça conferindo o preço, e quase levou o doce, mas então se lembrou que não era recomendável que ela comesse, em função da alergia, e ele devolveu o vidro no lugar onde estava; e ali, três horas depois, rodeado por pessoas que não se olhavam nos olhos, também fumando, ele pensou, que talvez tivesse sido mesmo uma boa ideia ter comprado aquele doce de leite. E imaginou que (caso tivesse comprado o doce de leite) mais tarde, quando estivessem no apartamento dela, ele diria, deixa que eu pego, e andaria descalço até a cozinha e pegaria o doce na geladeira, e de volta ao quarto, ele ficaria feliz ao vê-la lambuzar a boca com generosas colheradas de doce de leite, até se sentir satisfeita, e ele voltaria descalço até a cozinha, deixaria o doce de leite na geladeira e levaria um copo d'água, do qual, como era de hábito, ela beberia só a metade e abandonaria, ali, ao lado da cama, pra beber depois. Mas não tinha comprado o doce de leite, e havia esse vestido no embrulho, porque foi bater o olho: e ele viu o corpo dela lá dentro. Era parecido com aqueles vestidos que ela usava e que ele gostava tanto. E se não fosse improvável, não seria difícil crer que aquele vestido tivesse, de um modo sombrio, escapado do guarda-roupas dela e ido parar na loja. Quando acendeu o segundo cigarro no filtro do primeiro, ele se perguntou o quanto ela estava satisfeita com isso como ele supunha estar satisfeito com isso. E como essa coisa toda tinha começado num acaso demoníaco, e que agora, ele supunha, eles estavam assumindo as rédeas, espontânea e simultaneamente; um passo por vez. E era preciso estar atento aos detalhes, claro, não ficar omisso, não fazer nenhuma besteira; como era uma besteira não ter levado aquele maldito doce de leite: mesmo que não fosse recomendável que ela comesse.


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06/05/2011

Passarinhos pra tratar

Chema Madoz

Ela tem vinte e oito anos e diz que não é feliz. Está vestida com uma dessas roupas de ginástica, num preto meio apagado, sem maquiagem nenhuma no rosto, cabelo preso, mas não consegue esconder a beleza. Quando entrou na cozinha da casa da irmã, um pouco antes, disse que não aguentava mais o cara que ela chama de monstro. É o pai do filho pequeno que está perto dela. Ela diz tudo num tom de piada, eu não vejo graça, e eu penso que deve haver algo de errado comigo. Diz que trocou um pai por outro, que tem mais medo do cara do que tinha do seu pai quando era menina. Eu estou ali por acaso e acabo ouvindo tudo sem querer. Mas não posso escapar. Ela me diz, feliz é você que não tem nenhum passarinho pra tratar. Eu não sei onde enfiar a cara, então enfio a boca no copo e acendo mais um cigarro pensando que talvez seja a hora de arranjar uns passarinhos pra tratar. 

Ela continua falando que odeia o monstro, que logo vai dar um fim nisso, mas ri sempre, sempre num tom de brincadeira e ironia leve de quem ri da vida e cujo toque do celular ou status do facebook é deixa a vida me levar, vida leva eu. E eu penso comigo que há um buraco entre aquele sorriso, aquelas palavras que ela usa, e essa realidade submissa que ela supõe estar presa. Penso em sapecar uma dessas filosofias baratas do tipo liberdade é coisa de ave, e a gente é mamífero, felicidade é desejar aquilo que se tem.

Mas não. 

Eu só consigo pensar em que tipo de passarinho seria melhor eu arranjar. Se é muita burocracia registrar um passarinho. Se requer cuidados em demasia. Quanto me custaria uma gaiola. Eu tenho um tio que fazia gaiolas, não sei se ainda faz. Talvez seja a hora de arranjar uns passarinhos pra tratar; é, talvez seja. 

Então entra uma mulher de uns cinquenta e poucos anos com brincos enormes e muito maquiada. Começa a falar sem parar de si mesma como se estivesse fazendo propaganda para algum pretendente. Sou assim, ganho tanto, fulano me disse que eu tenho uma cabeça muito boa. Vou comprar um carro e entregar na mão do sujeito que for bom pra mim. Na hora que eu quiser eu arrumo, vivo bem sozinha. Deixa a vida me levar, vida leva eu. Olho para as mãos enrugadas, cheias de anéis e esmalte, o pescoço afundando, a boca murcha, a pele viscosa, e sou levado a pensar que a vida nem sempre faz bem. 

Penso que aquela menina de vinte oito anos que se diz infeliz, deixa a vida me levar, vida leva eu, está de alguma forma ligada a essa mulher de cinquenta e poucos, mas estou meio bêbado e não consigo entender muito bem qual é a ligação. 

Há uma lacuna que não eu não consigo preencher. 

Tudo bem. 

Há pouca gente na rua quando vou pra casa. O vento me bate nas ventas e refresca um pouco as ideias, mas continuo doidejando rua afora, calculando sacos de alpiste, anilha, enviesado sobre memórias há muito tempo soterradas. O alçapão do Lindomar, pardais na mira do estilingue do Fiinho, os trinta e seis sanhaços que o Marcelo e eu  pegamos uma vez e enfiamos no viveiro do meu pai, e depois soltamos; porque a gente não ia dar conta de tratar de tanto bicho. Estou na porta de casa e ainda não sei onde é que vou arranjar uns passarinhos pra tratar, uns canários, trinca-ferro, um periquito, qualquer coisa assim. Poderia providenciar duas gaiolas e colocar ali perto da varanda. E toda manhã eles quase arrebentariam o peito numa lareia afinada e estridente, quando o sol apontasse por trás da serra, diluindo os restos de escuridão da madrugada anterior. 

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