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03/03/2013

"Bariyer": primeiro romance de Almicar Bettega



"O primeiro romance de Amilcar Bettega Barbosa, Bariyer (‘barreira’ em turco) – título provisório –, começou a ser escrito em 2007, quando o escritor viveu, durante um mês, em Istambul, na Turquia. A viagem fazia parte do projeto Amores Expressos, que enviou 16 escritores para diferentes países, nos quais se inspirariam para criar narrativas sobre o amor. “Comecei a escrever, e a história ganhou uma dimensão muito maior”, conta. A trama foi construída basicamente sobre três personagens: uma fotógrafa brasileira; seu pai, um turco nascido em Istambul que se mudou para o Brasil ainda criança; e um francês, autor de guias de viagem. Aos vinte e poucos anos de idade, a fotógrafa decide ir a Istambul, conhecer a cidade de que seu pai tanto falava. Na Turquia conhece o francês, com quem engata um romance passageiro. E, ainda de lá, convence o pai a sair do Brasil para encontrá-la. Mas, quando ele chega, a jovem está desaparecida. Começa, então, uma busca pela filha e também por uma cidade que conheceu na infância e que já não existe mais."

A notícia foi pulicada no suplemento sobreCultura, da revista Ciência Hoje, em um box ao final da matéria assinada por Célio Yano.

A tese está disponível aqui. 

Otávio Marques da Costa, no Blog da Companhia das Letras, em dezembro do ano passado, já havia anunciado que o livro sairá este ano. 

Agora é esperar.

21/09/2011

Oswaldo França Júnior, narrar para narrar.


Oswaldo França Júnior, 1948, com 12 anos de idade.


"O velho falava de um conhecido dele e da Maria que se chamava Inácio e que soube que sua mulher gostava de um cabo da polícia depois do cabo ter morrido. E ele havia perguntado à mulher se ela e o cabo tinham tido mesmo um amor. Ela respondeu que haviam se gostado, sim. E o Inácio durante toda uma noite ficou pensando naquilo e no dia seguinte, pela manhã, foi ao cemitério e começou a dar tiros na sepultura do cabo."

Oswaldo França Júnior, Os dois irmãos. p. 105.


Impressionante a quantidade de micronarrativas dentro desse livro. A quantidade de episódios dentro de episódios, e muitas vezes desligados da trama principal. E mesmo assim, o livro avança no ritmo correto. A estrutura do livro está enraizada na mais pura narrativa [se parece com Saer, em As Nuvens, embora as descrições abundem no texto de Saer]. O narrador, em terceira pessoa, narra apenas para abrir espaço paras as personagens narrarem. Histórias dentro de histórias, sem um sentido maior. Sem uma preocupação afetada demais com subtexto. A mão corre leve. Sem tiques, truques ou joguinhos. E não é fácil dar a impressão de apenas narrar e ainda sim provocar estranhamento.

***

De toda forma, há esse fruir da história, e nem por isso é um livro óbvio. Pelo contrário. É um livro estranho. Intrincado. Personagens perseguindo ou atormentados por metas inexistentes, absurdas, inatingíveis; enquanto "o homem" fica sempre questionando por que diabos fazem isso, em especial, o irmão:

"— Para que todo este esforço? Outros já procuraram por aqui e desistiram.

Mas o irmão não havia dado resposta. Havia continuado seu trabalho, raspando o fundo de manhã à noite. Lutando um dia inteiro contra a correnteza para amarrar em cima da água duas tábuas e um feixe de paus.

— Isto não vai levá-lo a nada — dizia o homem.

Mas ele não respondia. Continuava de cima da sua espécie de plataforma puxando a enxada que vinha do fundo cheia de lama e de pedras."

***

Há esse clima parecido com o Antigo Testamento, ou com O Castelo, de Kafka. Às vezes, é engraçado [mas, mesmo o riso é um riso esquisito], e mesmo quando é alegre é uma alegria estranha. Quando é triste é uma tristeza bonita, que acalma.

A mim, pelo menos, é isso que parece.

***

“E ele cansou de esperar que os peixes aparecessem e que os figos ficassem do tamanho de uma abóbora. Cansou também de ouvir as pessoas perguntando sobre o recado de Deus. E um dia pegou uma espingarda e foi para a serra. E lá do alto começou a atirar para cima. Os que escutavam os tiros perguntavam o que estava acontecendo com ele.

— O que está acontecendo com o Claudiano?

E tinham medo de ir até a serra. Até os soldados ficaram embaixo, esperando que ele parasse com os tiros para então subirem.

— O único que foi e conversou com ele foi meu irmão — disse o homem.

E contou que o irmão tinha dito aos soldados quando voltou:

— Claudiano não quer parar com os tiros. Mas eles estão terminando.

E os soldados lhe perguntaram:

— O que ele está fazendo?

— Está dando tiros para o alto.

— Mas por que está fazendo isto?

— Está atirando em Deus.

— Em Deus? — estranharam os soldados.

— Ele disse que Deus mentiu para ele. E por isto está lá em cima tentando acertá-lo.”

Oswaldo França Júnior, Os dois irmãos. p. 79-80.

27/07/2011

Oswaldo França Júnior



setembro de 1959.


O escritor Joca Terron escreveu uma coluna sobre os escritores e a grana, no Blog da Cia das Letras, que me lembrou uma entrevista do Oswaldo França Júnior (foto), um escritor mineiro que esteve na crista da onda (sic), lá pelos anos 70/80. Ganhou um dos mais importantes prêmios literários da época (o Prêmio Walmap, uns dos jurados era Guimarães Rosa). Seus livros foram traduzidos na França, EUA, Alemanha, entre outros países. Gosto bastante de dois livros do Oswaldo França Júnior, Os dois irmãos e As laranjas iguais. Mas seu livro mais famoso é Jorge, um brasileiro, que inspirou o seriado Carga pesada e foi adaptado para o cinema. Oswaldo França Júnior faleceu num acidente de carro, em 1989. 

Antes de se enveredar pela escrita, Oswaldo França Júnior foi piloto da FAB (inclusive, quase matou o Brizola, naquele incidente dos militares em Porto Alegre, em 1961). Depois que deixou a FAB, em razão do Golpe de 64, Oswaldo França Júnior vinha pulando de cidade em cidade e de emprego em emprego. Fez de tudo um pouco, vendedor de carros usados, corretor de imóveis e até pipoqueiro. O que ele conta neste trecho da entrevista, além do dinheiro, se refere a escrita e publicação do seu primeiro livro, O viúvo, graças a uma mentira que ele pregou no Rubem Braga.

"Eu gosto demais do Rubem Braga e do que ele escreve. Aquilo é o que julgo escrever bem. Quem melhor escreve em língua portuguesa é o Rubem Braga. Eu trouxe uns contos numa pasta e liguei para ele. Olhei o número do telefone no catálogo, e falei que precisava falar com ele. Eu me lembro que ele perguntou: "Qual é o assunto?" Eu fiquei com vergonha de dizer que queria que ele lesse alguns contos meus, aí falei: "olha, eu não posso falar". Ele respondeu: "Tá difícil conversamos, eu não te conheço". Eu respondi: "Não, eu não posso falar por telefone, mas é um assunto do seu interesse." Naquela época existia muita censura por telefone. Ele respondeu: "Está bem, venha até minha casa." 

Fui até lá, bati na porta, ele mesmo abriu, eu eu disse que escrevia contos e gostaria de saber se eram publicáveis. Ele olhou para mim e pediu que escrevesse meu endereço no pacote. Uma semana depois, recebi uma carta dele, dizendo que havia lido os contos, gostado, e quando eu voltasse ao Rio que o procurasse. Quando voltamos a nos encontrar, ele disse: "olha, li e gostei. Por coincidência estou montando uma editora, inclusive eu estava disposto a editar este seu livro, mas mostrei-o aos meus companheiros e surgiu um problema: ninguém te conhece. Se você fosse um cantor de rádio, um artista de televisão, dava para editar, mas você é um desconhecido, e isso é arriscado. Nos precisamos de um retorno rápido de dinheiro." E ele ainda me perguntou: "você tem dinheiro para pagar a edição?" Eu respondi: "Mas como se eu tenho dinheiro? Eu quero editar é para ganhar dinheiro." E ele respondeu: "Ah, então é difícil. Ainda mais por ser conto, se fosse romance eu teria coragem de editar." 

Aí eu menti para ele: "Eu tenho um romance." E ele: "Então porque não trouxe?" Eu respondi: "Porque ele ainda precisa de uns reparos." 

Ele disse para mim: "Então você vai para casa, faz as correções e traz para eu ler." Eu disse a ele: "Olha, vai demorar um pouco, são muitas correções." Bom, vendi os carros que estavam em minha mão, voltei a BH, me tranquei no quarto e avisei a minha mulher: "Não azucrina minha cabeça, não deixa o menino fazer bagunça, porque eu vou fazer um trabalho importante." Eu fui escrever o romance. Escrevi a estória de um vizinho meu que tinha perdido a mulher e ficado viúvo.

Você mandou o romance ao Rubem Braga?

Mandei. E ele me telegrafou que ia editar. Depois perdi contato com ele. Eu estava numa luta muito grande para sobreviver. Mudando muito. Um dia, olho para a vitrine de uma livraria e levo um susto: meu livro estava lá. 

Aí o dinheiro começou a aparecer?

Que dinheiro?"

____


Aliás, há uma edição especial, de outubro de 2009, muito bem feita, sobre o Oswaldo França Júnior. Bem legal mesmo. PDF.

E algumas fotos legais, como essa que abre o post, no Acervo de Escritores Mineiros.