16/06/2011

Poemas de Guenádi Aigui




O Nosso

devo
chegar com meus lábios
aos seus olhos iluminados

e então hei de me surpreender com as veias pulsando de
leve,
suboculares,
e hei de compreender: é por causa de sua transparência
e de seu incorpóreo
que são assim claros e doentes
esses olhos ligeiramente trêmulos

e eu hei de amá-la com minhas mãos e meus lábios,
com o silêncio, o sono e as ruas dos meus versos
com a mentira - para o Estado
com a verdade - para a vida.

Guenádi Aigui, tradução Boris Schnaiderman IN: http://omarona.blogspot.com



Nuvens

Nesta
aldeia de ninguém
trapos indigentes nas cercas —
teréns de ninguém.

E sobre elas nuvens de ninguém,

e adiante — anúncios sobre a infância:
crianças esquálidas, bravias;

e música sobre o nu
de mulheres hunas e citas;

e aqui, no leito, ao rés dos olhos,
algures, junto a pestanas úmidas,
alguém morria e chorava,

enquanto eu compreendia
de uma vez por todas — era

minha mãe.

Guenádi Aigui, tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. 


Jardim-Tristeza

é
(talvez)
o vento
que inclina – tão leve
(para a morte)
o coração

Guenádi Aigui, tradução: JPF. IN: http://escritablog.blogspot.com



Silêncio


1

no clarão
da angústia desfeita em pó
conheço o desnecessário como os pobres conhecem a
roupa última
e os velhos trastes
e sei que este desnecessário
é o que o país precisa de mim
confiável como um acordo secreto
o calar-se como vida
e para toda a minha vida



2

no entanto, o calar-se é doação, e para mim mesmo: o
silêncio



3

acostumar-me a tal silêncio
que seja como o coração que não se ouve bater
como a vida
que pareça um de seus lugares
e nisso eu sou – como a Poesia é
e eu sei
que meu trabalho é árduo e existe para si mesmo
como no cemitério da cidade
a insônia do vigia



1954–1956

Guenádi Aigui, tradução: Boris Schnaiderman. IN: http://www.erratica.com.br

Um comentário:

oi.