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14/10/2011

"o nosso caso é duvidoso"

"Os homens só se convencem das nossas razões, da nossa sinceridade e da gravidade das nossas penas, com a nossa morte. Enquanto vivos, o nosso caso é duvidoso, não temos direito senão ao ceticismo."

Albert Camus, In: A queda





Animação feita por Mike McCubbins para o romance A queda, de Albert Camus. Via Casmurros


24/05/2011

"tribo amazônica desconhece conceito de tempo"

Texto/matéria da  BBC NEWS na Folha. Imagens meramente ilustrativas: INCREDIBILIS a creative blog by Enrico M.


"Pesquisadores brasileiros e britânicos identificaram uma tribo amazônica que, segundo eles, não tem noção do conceito abstrato de tempo.



Chamada Amondawa, a tribo não possui as estruturas linguísticas que relacionam tempo e espaço --como, por exemplo, na tradicional ideia de "no ano que vem".

O estudo feito com os Amondawa, chamado 'Língua e Cognição', mostra que, ainda que a tribo entenda que os eventos ocorrem ao longo do tempo, este não existe como um conceito separado.



(...)

O primeiro contato dos Amondawa com o mundo externo ocorreu em 1986, e, agora, pesquisadores da Universidade de Portsmouth (Reino Unido) e da Universidade Federal de Roraima começaram a analisar a ideia de tempo da forma como ela aparece no idioma falado pela tribo.


"Não estamos dizendo que eles são 'pessoas sem tempo' ou 'fora do tempo'", explicou o professor de psicologia da língua na Universidade de Portsmouth, Chris Sinha.

"O povo Amondawa, como qualquer outro, pode falar sobre eventos e sequências de eventos", disse ele à BBC. "O que não encontramos foi a noção de tempo como sendo independente dos eventos que estão ocorrendo. Eles não percebem o tempo como algo em que os eventos ocorrem."

Tanto que a tribo não tem uma palavra equivalente a "tempo", nem mesmo para descrever períodos como "mês" ou "ano".

As pessoas da tribo não se referem a suas idades --em vez disso, assumem diferentes nomes em diferentes estágios da vida, à medida que assumem novos status dentro de sua comunidade."

Matéria completa.

*
E a estética transcendental kantiana, e a condição de possibilidade a priori do conhecimento uma hora dessas, campeão?

16/05/2011

Faulkner e seus cães



"
Entrevistadora

O senhor gostaria de fazer outro filme?

Faulkner

Sim, gostaria de fazer um baseado em 1984, de George Orwell. Tenho uma ideia para o final que provaria a tese que não me canso de repetir: o homem é indestrutível simplesmente por seu desejo de liberdade."


***


As entrevistas da Paris Review, Vol. 1Tradução: Sérgio Alcides e Christian Schwartz, Companhia das Letras, 2011. p. 14


***
Mais escritores famosos e cachorros: aqui e aqui.


E de brinde:
Uma bela crônica do André Sant’Anna.
E o conto Bliss, Katherine Mansfield, na tradução de Ana Cristina César. (Via: Imaginario Poetico)
E a carta do Mário de Andrade para o Murilo Rubião.
E esse clássico do Mário Bortolotto.
esse texto da Juliana Cunha.



05/05/2011

Melhor cronista da nossa geração.

Meus amigos já estão de saco cheiro de me ouvir falar que eu acho o Antônio Prata o melhor cronista da nossa geração. Agora, me diga se isso não é genial:

"Perguntei o que eram aqueles lugares e meu pai disse que eram bares. Mas por que eram tão diferentes dos outros, em que comíamos frango a passarinho com Guara-cola? Meu pai explicou-me que naqueles bares havia mulheres peladas. Como?! Por quê?! Do alto de minha meia década de existência, “mulher pelada” evocava a imagem de minha mãe ou irmã entrando ou saindo do banho, de toca na cabeça e toalha na mão. Não conseguia imaginar que razão levaria mulheres a comer pastéis sem roupa. Meu pai seguiu a explicação: homens que não tinham namorada pagavam para ver aquelas mulheres peladas. Imaginei uns caras tristes, barba por fazer, a preencher palavras-cruzadas e bebericar um chope, enquanto mães e irmãs nuas iam e vinham de chuveiros inexistentes. A coisa não fazia o menor sentido. Pedi para irmos a um deles. Meu pai disse que era proibido para crianças. Devia ser para evitar que víssemos aqueles homens tristes, perdidos entre néons e tocas de banho, pensei."

A crônica completa tá aqui.

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04/05/2011

Museu da Oralidade: o homem de 24 dedos.





"Num povoado que tinha pra lá, tinha um homem que tinha 24 dedos. 
Seis dedo nas mão e seis nos pé.

(...)

Agora eu vi um garoto, só num pude pegar nele, mas eu vi. 
Ia pegar nele, levar a mão nele e dava um choque. 

(...)

Eu não tinha medo não. Eu tirava leite pro fazendeiro lá no pé da serra do Ingaí. Tava mais ou menos com uns 14 anos. Ainda não trabalhava de carapina. Aí eu ia em casa trocar de roupa, acho que era uma quarta-feira. Lá tinha só um trilho de cavaleiro, tinha estrada velha mas dava volta, e tinha uma trilha que atalhava. Eu olhei e pensei que era um bezerro. E gritei: bezerro, bezerro, bezerro! Ô bezerro, psiu! Quando eu achei que era mansinho, ele me deu um choque na mão. Era tipo um menino, aí eu falei assim: neném, ô neném, como é que você chama? Quem é seu pai, quem é sua mãe? Como chama seu pai, como chama sua mãe? Ele não quis falar não. Era baixinho. Não era grossão também não, era fino. Parece que tinha o olho vermelho. Eu vi que não era assim coisa desse mundo, né? Que aquilo era invisível. Aí largava, passava lá e deixava ele lá. Quem tava a cavalo não passava. Ele ficou lá uma temporada. Não foi muita gente que viu não, foi muito pouca gente. Os outro assim era medroso, né? Passou um morador da fazenda, ele tava contando esse causo pras criança, pros companheiro. Aí o companheiro falou: ô sinhozinho, essas coisa assim a gente larga pra lá, num mexe não. Aí eu falei: se eu encontrar com o garotinho eu vou pegar ele pra mim e trazer pra cá. E ele respondeu: cê é louco? Cê tá ficando louco?"

Fragmentos do depoimento de Oliveira Peixoto Arantes (1921), morador de Luminárias-MG, disponível no Museu da Oralidade, projeto sensacional da ONG Viraminas, financiado pelo Ministério da Cultura, através do programa Cultura Viva. Pra conhecer o projeto, e vale muito a pena, basta acessar: http://museudaoralidade.org.br

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14/04/2011

Daniel Galera e a escrita.

Acho que é a última carta da troca de correspondência entre o escritor Daniel Galera e editor André Conti, no blog do IMS. E não poderia ter fechado melhor. Falando da sua relação com os editores, Galera levantou uma vigorosa reflexão sobre a escrita:

"Mas o principal, acredito hoje, tem a ver com esse isolamento radical do momento criativo, a separação crítica, na literatura, entre o ato expressivo e o instante da fruição alheia. Que é o oposto, talvez, do que acontece com o ator, que pode até se preparar em reclusão, mas terá de desempenhar para a plateia, para a equipe de filmagem ou pelo menos para o diretor ou operador de câmera em algum momento. Mesmo um pintor, ele pode trabalhar em reclusão, mas se pensamos na obra, ela se oferece inteira a quem espiar pela fresta durante o processo, a pessoa bate o olho num quadro inacabado e ali está ele, inacabado mas inteiro, um fotograma total daquela etapa do trabalho.

O escritor de literatura não apenas pode trabalhar em reclusão, ele é quase obrigado a fazer isso, e não se pode bater o olho num original inacabado, não se pode apreendê-lo de imediato, é preciso ler, percorrer todo o percurso da obra inacabada numa situação que exclui o autor tanto quanto o processo criativo do autor exclui o leitor. O autor estará sozinho no que faz até o fim do processo e em geral por um bom tempo após o fim do processo também, e pode haver meses entre o ponto final e aquele dia em que o primeiro leitor da obra se aproxima e diz alguma coisa.

Caso não tenha ficado rocambolesco demais pra entender, foca nisso, nessa cisão extrema dos lugares que ocupam o autor enquanto trabalha e o leitor quando lê. Eu acho que é isso que me fez aderir à escrita. Que haja esse isolamento e esse descompasso e que, apesar disso, se possa ler um conto, um romance ou um poema e não apenas ter a impressão de que foi fácil, óbvio ou inevitável que alguém o tenha inventado e escrito daquela maneira, mas de que ele foi escrito para nós ou, em casos extremos, sublimes, por nós mesmos. E houve um momento da minha vida em que concluí que era desse jogo que eu precisava tentar participar, no papel de autor, e que seria melhor transitar nisso e fracassar do que ser bem-sucedido em qualquer outra coisa."

Texto integral: "Teu protagonista não convence: refaça", Daniel Galera 13.04.2011

14/02/2011

Trechos do diário atormentado de John Cheever na Piauí

fonte: cheever.wordpress.com 


"Estou cansado, mas vai passar. Amo o corpo da minha mulher e a inocência dos meus filhos. Nada mais.



1952_Quando a autodestruição brota no coração, parece ser menor do que um grão de areia. É uma dor de cabeça, uma leve indigestão, um dedo inflamado; mas você perde o trem das 8h20 e chega atrasado à reunião sobre a dívida do cartão de crédito. O velho amigo com quem você se encontra para almoçar esgota a sua paciência sem mais nem menos e num esforço para ser agradável você toma três drinques, mas a essa altura o dia já perdeu a forma, o propósito e o significado. Na esperança de lhe devolver algum sentido e beleza, você bebe demais nos coquetéis e fala demais, dá em cima da mulher de alguém e termina fazendo algo idiota e obsceno, e pela manhã você quer estar morto. Mas quando tenta reconstituir o caminho que o conduziu a esse abismo, tudo que você encontra é um grão de areia." (John Cheever, Tradução de Daniel Galera)

02/02/2011

"Deus, política e óculos escuros"

A troca de e-mails entre André Conti e Daniel Galera no blog do IMS, tá sensacional:


"É mais ou menos a sensação que tive durante meses antes de ir a Garopaba, e que resultaram na própria ideia/decisão de vender tudo e me mudar pra Garopaba, onde eu não conhecia ninguém e poderia nadar no mar todo dia de manhã cedo. Todavia, dessa vez não há uma ideia/destino como Garopaba, somente a sensação urgente de isolamento e dedicação total a algo sem sentido – no caso, o principal “algo” é terminar meu livro.

Contemplo com muita seriedade a ideia de erradicar minha presença em sites e redes sociais de qualquer espécie, e a sensação se estende também para os eventuais (e precários) relacionamentos com mulheres e a uma parte dos amigos, mas não se estende à família e aos amigos mais queridos. Não farei nada disso, obviamente, mas a sensação tem sido tão frequente que já desenvolvi um mecanismo de defesa que entra em ação no mesmo momento e me impede de tomar as atitudes descritas, e pela manhã, ou ao passar o trago ou sumir a consciência das fragilidades do ego, me sinto grato por ter tido a presença de espírito de não tomar nenhuma atitude precipitada, infantil, egoísta e patética. Todavia, em seguida aflora a consciência de que esse conjunto de atitudes precipitadas, infantis, egoístas e patéticas seriam exatamente as mais recomendadas, corretas e sinceras com relação ao meu propósito na vida nesse momento – escrever – e a um temperamento que continuadamente renega a interação social constante e as proximidades afetivas, embora no fundo as ligações afetivas em minha vida existam e sejam fortes, mas como que operando num nível aquém da experiência cotidiana ou mesmo da experiência possível.

É muito estranho, como se eu precisasse continuadamente lembrar que a solidão deve ser apreciada porque é a minha natureza, mas se é a minha natureza, porque eu deveria me lembrar conscientemente disso com tanta frequência? Tenho a sorte de conhecer minha natureza em profundidade, mas o azar de considerar duro e lamentável demais levá-la a cabo em plenitude, então vivo no meio do caminho, sem esquecer do mergulho radical que nunca darei, e ocasionalmente tirando proveito de certas condutas sociais que me exigem esforço tremendo e são contrárias ao chamado “ser vital”. Há em algum lugar essa promessa não cumprida que me assombra diariamente.

Tem alguma coisa aí, mas não sei direito o que é."

Daniel Galera, Deus, política e óculos escuros. Inblog do IMS


clicar aqui e acompanhar.

11/12/2010

Suplemento Literário de Minas Gerais, edição especial Libério Neves


"Drummond, João Cabral e Bandeira. Essa tríade. Uma vez me perguntaram: quais são os dois melhores poetas do modernismo brasileiro? E eu então respondi: dois eu não respondo não. Se você me perguntar três, eu respondo. Dois não. Porque senão eu farei uma injustiça de acordo com a minha própria admiração. Bandeira me marcou pelo lado da simplicidade, do domínio de temas aparentemente simples e que não daria para fazer poesia. O Drummond, que era mais pomposo na escolha dos temas. O Pierre Santos é que tem uma frase boa. Um dia ele me disse: 'o Drummond pega uma banana e vai comendo a banana e o João Cabral vem atrás. A hora que o Drummond joga a casca da banana fora, o Cabral cata e faz um poema sobre a casca da banana'.

Libério Neves, entrevista a João Pombo Barile, edição especial de Novembro do Suplemento Literário de Minas Gerais.


Recomendo muito, principalmente aos interessados em poesia, não apenas na forma ou estética, mas nas questões de consumo e absorção da produção poética pelo circuito literário.