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11/06/2014

interior



O ano é 2010. O Brasil era um dos favorito pra Copa com o tal do Luis Fabiano e do Felipe Melo e eu desembarco em Porto Alegre em março com uma mala cheia de roupas e sem pijama. Tinha quinhentos reais trocados em notas de vinte, um esqueiro bic amarelo e um maço de Luxor amaçado e um pedaço de papel dobrado com o endereço de um boliviano que vivia em Canoas e iria me hospedar por uns tempos ao valor de cento e vinte reais por semana. Tudo ótimo. Estava tão empolgado que tomei um porre monumental no Parangolé e cheguei trocando as pernas e perdi a chave da casa do sujeito.

Nem precisei pagar a primeira semana.

Encontrei a chave, mas não conhecia ninguém na cidade. Passei a segunda noite num hotel no centro com clima de Linha Direta e enredo de música do Odair José até que encontrei uma pensão de família num apartamento sublocado onde moravam um músico gaúcho e um vendedor de creme de cabelo de cinquenta anos e um jovem advogado catarinense que estudava o dia todo pra um concurso de promotor. Não sei o que aconteceu com eles. Logo me mudei pra uma república na Lucas de Oliveira com a colega de curso que depois virou amiga e que fazia tapioca com salada quase todo dia e gostava de Alice Munro. 

Ela é jornalista e tinha abandonado um emprego no Mato Grosso e a gente estava na cidade pra fazer a oficina de contos da PUCRS. Ela gostava do meu feijão mas quase nunca bebia o meu café ou uma dose sequer das garrafas de Ypioca limão que eu comprava na sexta-feira. O Luís também aparecia sempre pra discutir uns textos e beber umas cervejas e colocar alecrim nas batatas assadas no forno. Nunca li e escrevi tanto na minha vida. E foi nessa época que eu comecei a esboçar os primeiros contos que compõem Quebranto.

***

Eu li o Luiz Vilela pela primeira vez há mais ou menos uns dez anos. O impacto foi forte. Lembro que pensei algo mais ou menos assim: “Eu conheço essas pessoas”. Até então acostumado a ler apenas literatura estrangeira, entre romances policiais e clássicos, era a primeira vez que encontrava personagens tão nítidos e vívidos que se confundiam com as pessoas que eu encontrava no cotidiano. O impacto foi semelhante quando li Amilcar Bettega, Carver e depois Alice Munro. Dentro do gênero conto, são os que mais gosto no momento.

***

O título inicial do livro era Interior despedaçado. Os contos que eu vinha escrevendo ao longo do ano de 2011, 2012 e 2013 tratavam do mesmo ambiente e temas. Passei praticamente toda a minha vida no interior. É impossível que não haja influência. A ideia sempre foi explorar essas paisagens e personagens sem cair num discurso regionalista, provinciano e bairrista.

Mudei o título porque Quebranto é a palavra que melhor dialoga com a paisagem destes contos. Tanto no aspecto do interior geográfico como do interior psicológico.

Espero que gostem.

***

Para comprar o livro basta clicar nos links abaixo. Exclusivo em e-book. Se você não tem um leitor digital, fique tranquilo. Dá pra ler no celular, no tablet e também no PC. Você escolhe. É só baixar o aplicativo na loja de sua preferência.

07/11/2011

Sr. Walkman



Todo lugar tem seus personagens exóticos. Em Luminárias, há muitos. E ontem me lembrei de um sujeito que andava com um rádio debaixo braço. Antena em riste. Volume alto.

Às vezes era indo pro ribeirão que topava com o sujeito. Ele ia à beira da estrada, numa toada contemplativa - o rádio no colo, trabalhando sereno.

Não era partidário dos fones de ouvido (pra isso bastaria adquirir um walkman, que era o que existia na época). Mas não. Usava um motorádio, com o volume sempre no talo. Era como um desses carros cheios de equipamento de som a zanzar por aí. Compartilhando seu gosto musical com todos que cruzassem seu caminho.

Algumas vezes, voltando pra casa de madrugada, eu ouvia uma música se aproximar por detrás de uma esquina. Então topava com o sujeito. Tranquilo, sintonizando a estação, espantando os chiados à medida que avança.

Sempre sozinho.

Outro fato curioso, embora faça muito sentido, é que o sujeito costumava frequentar com assiduidade os pontos mais alto da cidade. Nalguma vezes, ia até o Morro do Cristo, tentar ampliar ao máximo a capacidade de recepção do aparelho.

Dá pra imaginar: fosse visível ao olho do homem, as ondas, arrastando a beleza triste das modas caipiras, iam cobrir o céu - um céu de Monet. Vento na cara, sorriso largo, empunhando a antena enquanto ia passando delicadamente de uma estação pra outra, como quem pintasse um quadro.

Há uma grande ternura quixotesca nisso tudo.

Costumava ser motivo de risada na cidade. Afinal, parecia não se importar muito com as coisas, exceto com seu rádio. Ou era meio maluco, é o que todos diziam. É o que todo mundo diz quando alguém segue o próprio rumo.

Pra mim, esse sujeito sempre foi uma espécie de walkmam em pessoa. 

Faz muito tempo que não o vejo, e nem sei mais se mora por aqui. Mas se descesse pela rua à noite, e ouvisse um rádio chiando, acho que ficaria feliz.

07/10/2011

Gostava de ficar ouvindo o rádio falar


homem não identificado: APM


Eu não tinha nenhuma expectativa em relação àquela prova pra recenseador em 2000.

Por isso tinha bebido além da conta no sábado. Conhaque. Vodka. O escambau. Acordei no meio da madrugada na casa da minha namorada. E sem entender muito bem o que tinha acontecido na noite anterior.

Tudo bem. Não importava o que tinha acontecido. Nunca levei muito a sério essa coisa de tentar entender o passado. É só um lugar que ninguém nunca visitou. Que você nunca vai visitar. Por isso há tantos boatos sobre o passado. Boatos. Ninguém sabe porcaria nenhuma sobre o passado.

Sei que saí sem me despedir direito. Sem dizer nada. Talvez um grunhido, um beijo de má vontade, uma coisa assim.

Desci pelas ruas vazias, ainda bêbado. E você não imagina como são vazias e silenciosas as ruas de uma cidade tão miúda a essa hora da madrugada. O vigor do silêncio. De repente você está num episódio de O mundo sem ninguém. Nada, exceto carros e caminhões parados de frente as casas de portas fechadas e luzes apagadas e tudo aquilo imóvel como se tudo tivesse sido abandonado.

Vidros suando por causa do sereno. O chiado do transformador num poste de energia. E você pode ouvir os seus passos como em nenhuma outra hora. Às vezes os grilos, ao longe. O barulho de uma televisão que dormiu ligada. E se você der sorte, muita sorte, pode topar com uma coruja descendo em rasante, asas escancaradas, abrindo caminho no vento.

Bati na cama e já levantei como se o tempo não tivesse passado. E se não é o sol escorrendo nos seus olhos, não dá pra acreditar que o tempo passou. Não troquei de roupa. Não comi nada direito. E também não precisei calçar tênis, porque ainda estavam enfiados nos pés. Conferi o dinheiro e o documento enquanto subia no rumo do ônibus, enquanto minha cabeça martelava.

Fiz a prova nas coxas. E não lembro muito bem dos detalhes.

Mas é certo que devo ter usado meu método infalível nas questões de matemática. Letra C de fora a fora. E fora isso, nada. Deixei a sala e avistei uma lanchonete do outro lado da rua. Pedi uma cerveja e duas coxinhas.

De resto, tava tudo bem.

*** 

Não acreditei muito quando me falaram que tinha passado na prova.

Eu conhecia os outros caras que estavam concorrendo pro mesmo lugar que eu. Coisa que não é complicado num lugar onde só há seis mil e poucas pessoas. E os caras eram caras mais velhos e mais estudados, alguns cursando faculdade e tal, enquanto eu ainda me arrastava pra sair do ensino médio.

E acontece que eu tinha passado lá pelas últimas posições. Então acabei ficando com um setor fodido pra caralho. Um lugar no fim do mundo, dentro do fim do mundo. Nos limites do município. Num ermo. Ao pé da Serra do Santo Inácio.

Pra começar, o IBGE não dava condução nem nada. Tampouco ajudinha de custo, nem gorjetinha. Porcaria nenhuma. Eu tinha que me virar. E não era esses cacarecos de hoje, não. Era tudo analógico. Formulários e mais formulários. Mapa, pastas, meia dúzia de canetas Bic. Tudo entulhado na bolsa.

Meu pai resolveu me acompanhar no primeiro dia. Disse que ia comigo no lugar mais complicado.

A gente pegou carona num desses ônibus que vão pra pedreira. E foi até mais ou menos ali na Serra Grande, um pouco antes da entrada pra pedreira do Marcinho. De lá, desceu caminhando. E foi uma hora caminhando até chegar no primeiro ponto marcando no mapa. Uma fazenda dessas maiores, mas não me lembro do nome. Mas me lembro muito bem da fartura do café, da gordura das lascas de queijo fresco.

Foi aí que perguntei sobre uma casinha que tava marcada no mapa. E perguntei como é que chegava lá. O cara disse que não sabia direito, que não ia muito lá pra aqueles lados. Tampouco sabia se esse homem ainda morava lá. E se a casa ainda existia.

Dois ou três sítios depois, já era hora do almoço. A gente atravessou um córrego e entrou numa mata bem fechada. Daí, entrou numa trilha cortando um pasto alto e vazio, sem sinal de criação ou qualquer coisa do tipo. 

Meu pai disse que não tinha nada lá, mas que fazia muito tempo que ele não passava ali. Eu disse que tudo certo. Tudo certo e tudo bem. Mas é que tinha um sinal no mapa, porque no outro Censo alguém tinha passado ali e marcado aquela casa. Morava um homem lá.

Já deve ter morrido, disse meu pai.

Eu olhei aquela trilha cheia de mato e pensei que talvez meu pai tivesse razão.

Mas eu precisava continuar. Então a gente prosseguiu por uns vinte minutos. Chegamos numa cerca de arrame bambo, fios enferrujados e estendidos num tocos de morões podres e frouxos. Logo adiante havia um pomar, todo tomado por capim gordura, pés-de-vassoura, ervas daninhas de todo tipo.

Não tem ninguém, disse meu pai.

A gente foi avançando. E só parei ao ver a casa. Era dessas construções antigas, tijolos de adobe. Telhado colonial com telhas portuguesas, dessas grandes e largas, já escuras de lodo.

Não tem ninguém, disse meu pai.

Bati na porta e comecei a chamar.

Ouvi um barulho de ferrolho e a porta se abriu. Um homem velho, de chapéu enfiado na cabeça. A barba bem feita e bem arrumado. A mãos, bem frias, tremeram ao me cumprimentar. E ele mal me escutava. Demorou um pouco pra entender que eu era do Censo e tal.

Lá dentro, ele nos serviu um café, que tava meio frio. Porque fazia tempo, ele disse, fazia bem tempo que tinha coado. Eu já queria ir embora. Então comecei a aplicar o questionário meio com pressa.

E não me lembro dos detalhes e me arrependo de não ter feito uma cópia daquele questionário e guardado comigo. O pouco que lembro, a impressão geral da conversa <<pra cada pergunta que fazia, o homem me contava uma longa história>>, é que ele tinha três filhos que há seis anos não o visitavam. Não tinha energia elétrica, e não sabia ler. A mulher tinha morrido há uns vinte anos, e ele gostava de morar ali mesmo, sozinho. Só um rádio a pilha.

Meu pai não aguentou e perguntou pro velho o que velho ficava arrumado ali sozinho, sem luz, sem ninguém. O homem disse que cuidava de uma horta nos fundos da casa. E gostava muito do rádio. Gostava de sentar ali no fim da tarde, gostava de ficar ouvindo o rádio falar.

Não lembro de muita coisa.

No caminho de volta, meu pai, que é muito quieto, começou a falar sem parar. Falar que aquele homem tava maluco da cabeça pra ficar ali. Que tava doido de ficar ali enfurnado naquele lugar. Sem luz, sem nada. Sem ninguém. Eu ouvia meu pai falar e só pensava e ir embora. Chegar em casa, colocar uma música e ficar sozinho.

Não lembro de muita coisa. Só sei que volta e meia me pego pensado naquele velho. Sei lá. Nessa coisa de ficar sentado, sozinho, ouvindo o rádio falar.

É mais ou menos isso.

20/08/2011

O ilustre Sr. Décimo Terceiro



O Antônio Lalá era bem surdo. Morava três casas pra baixo da nossa casa. Dava pra saber o que ele tava assistindo pelo barulho da televisão.

Não sei por que, mas o Antônio Lalá tava querendo vender a televisão. Era colorida. E a gente não tinha televisão colorida.

A lá de casa era miúda e redonda. E a grama dos campos era cinza. O Pica-Pau era cinza, o He-Man era cinza. Tudo quanto é coisa era cinza naquele diabo de televisão.

Eu devia ter uns quatro ou cinco anos. E fui com a minha mãe até a casa do Antônio Lalá.

"Vai comprar mesmo?", perguntou o Antônio Lalá, naquele tom de voz elevadíssimo. "Olha, é uma beleza de televisão!".

Eu olhava na cara colorida do Cid Moreira e ficava até meio hipnotizado.

"Eu sei, Seu Antônio", disse minha mãe.

"Hein?".

"Parece boa mesmo!", minha mãe gritou.

"É um colosso!", disse, e lascou um tapa por cima da televisão, para ressaltar a qualidade do produto.

"Mas eu tenho que esperar o Décimo Terceiro chegar, seu Antônio".

"Esperar quem?".

"O Décimo Terceiro!".

“Ah, sim!”, disse o Antônio Lalá: “O Décimo Terceiro. E quando ele vem?”.

"Ainda não sei".

E o tal do Décimo Terceiro me pareceu um senhor de barba. Algum tipo de autoridade que operava milagres. Vagando de lugar em lugar resolvendo negócios. Um funcionário que despachava. Liberava. Autorizava. Negócios. Emitia cheques cheios de cifras que eu não entendia. Negócios. Mandava vender e comprar. Negócios.

Mas o Sr. Décimo Terceiro era meio enrolado, ao que parece. Por causa do jeito que a minha mãe falava dele, o tom de voz. Praguejando junto das amigas na cozinha de casa, fumando e bebendo café. 

"Será que ele vai demorar a sair?", disse uma das amigas da minha mãe.

Eu pensei comigo que o Sr. Décimo Terceiro era daquelas pessoas que demoravam demais pra se arrumar. Trocava uma roupa atrás da outra. Penteava e despenteava o cabelo. Perguntava à mulher como é que estava a calça. Se o sapato tava combinando. Um homem muito vaidoso.

Sempre demorava. E não foram poucas vezes que minha mãe e as amigas ficaram muito irritadas com a demora do Sr. Décimo Terceiro. Soltavam uns palavrões contra um tal de Estado, noutras, contra um tal de Newton Cardoso. Deviam ser chefes do Sr. Décimo Terceiro. Estado, Newton Cardoso. E uma tal de Sra. Primeira Parcela, provavelmente esposa do Sr. Décimo Terceiro. E duas irmãs pequenas, pelo o que entendi, que se chamavam Segunda e Terceira Parcela. Eu ficava de lado com a cabeça embaralhada. Eram  figuras tão misteriosas pra mim. Nunca os tinha visto! E essa turma parecia a turma mais importante do mundo pra minha mãe e as amigas professoras.

Estado. Newton Cardoso. Décimo Terceiro. Primeira Parcela. Estado. Elas repetiam e repetiam, como se estivessem evocando santidades.

Da última vez que o Sr. Décimo Terceiro tinha vindo, embora não o tenha visto, ganhei um bonequinho do Comandos em Ação. E foi por causa do Sr. Décimo Terceiro que a gente pagou um táxis e foi até Lavras, e encheu o carrinho de compras, tomou sorvete e depois encheu a geladeira de danone. O tal do Sr. Décimo Terceiro era um homem muito bom. O Sr. Décimo Terceiro deixava minha mãe muito feliz. Agradava muito minha mãe. Pensei comigo, será que meu pai não tinha ciúmes? Afinal, minha mãe só falava do Sr. Décimo Terceiro. A alegria dela parecia depender da chegada do Sr. Décimo Terceiro. Como se o Sr. Décimo Terceiro fosse um namorado antigo, que havia lhe partido o coração em outros tempos, e depois de anos, tentava reatar os laços. Confesso que eu ficava meio confuso às vezes. Porque também estava muito ansioso pela chegada do Sr. Décimo Terceiro. Não aguentava mais o Chapolin Colorado descolorido.

No fim das contas, pelo pouco que eu entendi, a vinda do Sr. Décimo Terceiro dependia da boa vontade do Sr. Estado, e do Sr. Newton Cardoso, e talvez da liberação da esposa, a Sra. Primeira Parcela. Lembro que me subiu um arrepio na nuca. Não entendia tantas burocracias. E pensei comigo: e se o Sr. Estado e o Sr. Newton Cardoso estivessem mal-humorados? E se a Sra. Primeira Parcela ficasse com ciúmes da minha mãe? Enfim, fosse qual fosse o motivo: e se o Sr. Décimo Terceiro não viesse?

Seria uma tristeza de um cinza sem fim.

Passei a tarde jogando bola ali perto do Hospital. Depois, vagando por lotes vazios, derrubando latas de óleo com pedradas. No fim do dia, já na rua, antes de entrar em casa, ouvi a voz do seu Antônio Lalá. Entrei correndo. Ele e meu pai estavam ajeitando a televisão na estande. Então eu soube que tinha corrido tudo certo. O Sr. Décimo Terceiro tinha passado mais uma vez. 

Infelizmente, como das outras vezes, eu não o tinha visto. Tudo bem. Quando o Cavalo de Fogo surgiu roxo azulado na tela, correndo com os olhos vesgos, eu fui me esquecendo daquilo tudo.



05/07/2011

Escavações da infância



Entre aquelas história que a mulher da esquina contava, quando éramos crianças, a que mais me impressionava era de uma missa:

Um homem vem a cavalo até à cidade, assistir à Missa do Galo. A igreja está lotada. Mesmo que não reconheça ninguém ali, nem mesmo o padre, o homem encontra um lugar ao fundo da igreja e assiste à missa tranquilamente. Reza, agradece, toma hóstia. Ao final, deixa o lugar em silêncio.

Sobe no cavalo e toma o rumo de volta, até que cruza com um conhecido.

“Não vai na missa?”, pergunta o conhecido.

“Uai, tô vindo de lá, a Igreja tava lotada”, responde o homem.

“Tá doido?”, diz o outro. “Agora que são onze e meia. Que missa é essa que cê foi?”. 

Descrente, o homem acompanha o conhecido de volta à cidade. Chegando lá, reconhece o padre, o coroinha, reconhece quase todo mundo. Então constata, perplexo, que a Missa do Galo, de verdade, estava prestes a começar. 

A mulher falava que tinha acontecido naquela igreja ali, que por aqui chamamos de Igreja Velha. 

A Igreja Velha (1798), entre outras coisas, remete à fundação do município. Ali foi erguida a primeira capela, nos tempos que esse lugar ainda era um povoado, antes mesmo de ser elevado à distrito, pertencente à Lavras do Funil.

No entorno, havia um cemitério, depois desativado, sem deixar quaisquer sinais.

Nessa mesma época que a mulher da esquina nos contava essas histórias - as máquinas escavaram o terreno da Igreja, na ocasião de uma reforma. Gostávamos muito de ver aquelas máquinas trabalhando. Eu, Rodrigo, Lindomar, Marcelinho Black, Joãozinho, Ti Rani.

Ficávamos impressionados com a lâmina gigantesca da patrol cortando e empurrado a terra; a carregadeira furiosa, elevando a boca absurda no ar, infestada de dentes de aço; além dos movimentos das engrenagens, braços e articulações jurássicas, e o caminhão basculante despejando um mundo de areia e cascalho no chão. 

Num daqueles dias, enquanto a gente brincava no banco de areia debaixo da Igreja, a carregadeira, revirando a terra, encontrou umas ossadas. 

É uma das visões mais marcantes da minha infância, junto da vez que vi uma jararacuçu engolindo um rato,  do dia que deixei o pote de mel cair no meio da rua. Não me esqueço de ver aquele pedaço de crânio, com o fosso dos olhos, o fêmur, costelas, e outros cacos de ossos despontando de tempos imemoriáveis, da vermelhidão da terra. Afinal, naquela época, além das histórias que a mulher da esquina contava, minha imaginação vivia povoada com as escavações de Indiana Jones, com as aventuras de Atreyu, com as gravuras das enciclopédias que folheava (e como não sabia ler, para apropriar do livro), recortava e pregava dentro do guarda-roupas, para o desespero dos meus pais. 

Os homens juntaram aqueles ossos num saco. Enfiaram na traseira de uma camionete e sumiram com aquilo, talvez para mostrar a alguém entendido, algum superior misterioso, escondido numa sala secreta, nos porões de alguma repartição pública. Nunca soube o que aconteceu. Sei que fiquei frustrado, porque para mim, aquela ossada pertencia a uma das personagens daquela história que a mulher contava. Era a prova científica de uma lenda. E por isso, aquela história do homem que ia à Missa do Galo, era a história que eu mais gostava. 

***

Fiquei muitos dias pensando naquela ossada. Minha ideia era organizar uma escavação por ali. Mas os homens que trabalhavam na reforma, depois de encontrado a ossada, tinham recebido ordens para nos manter afastados do local. Além, é claro, dos nossos pais nos proibirem de ir lá, com medo de doenças, ou qualquer coisa do tipo. 

Mas a vontade era maior. 

Quem topou ir comigo foi o Marcelinho Black, com quem eu tinha o hábito de ir pegar girinos no Córrego Grande, para criar em aquários improvisados com bacias de alumínio, latas de óleo, copos de massa de tomate. Não fazíamos muito bem essa ligação do girino com aquilo que ele se tornava quando adulto. E ainda bem que nossas mães sempre jogavam nossos viveiros de anfíbios fora, afinal, não sei qual seria a minha reação ao acordar com um sapo ou uma rã saltando dentro do quarto. Tem tempo que não vejo o Marcelinho Black, mas confesso: não fiquei espantado, no dia que fiquei sabendo, que ele, hoje, é biólogo. Sempre foi, mesmo em potência.

Nosso plano era esperar os caras irem embora da Igreja. Então, cavucar aquela terra à procura de uma caveira, um braço, uma mão, um dedo do pé que fosse. Ficamos matando o tempo com uma bola dente de leite, espiando de longe os caras trabalhando, o caminhão que ia e vinha, até chegar a hora. Deu certo. 

Ao cair da tardinha, com o lugar vazio, munidos de duas caixas de sapatos e uma pequena pá de juntar cisco, tomada emprestada da cozinha da minha casa, mergulhamos nas escavações. Enquanto mergulhava a pá na terra vermelha, minha cabeça visualizava esqueletos completos, algo como o exército do imperador Qin fundido as caveirinhas de Golden Axe, e até um corpo-seco, essa múmia mineira, com unhas e cabelos crescidos depois de morto. 

Como é comum, a realidade é sempre mais estreita. Nada de caveirinhas armadas de escudos, ou fazendeiros de outro século, com leite fresco na barba grande. Encontramos uns caquinhos de osso, bem miúdos, encardidos de terra. Sete caquinhos ao todo. O Marcelinho Black ficou com quatro, porque eram menores, eu fiquei com três, que eram maiores. Depois de dividir, tocamos para casa. 

Entrei com aquela caixa debaixo do braço na maior naturalidade. Meu pai assistia ao jornal e nem perguntou do que se tratava. Passei direto para o quarto. Coloquei a caixa de sapato no melhor esconderijo do mundo. Embaixo da cama. 

Mais tarde, antes de dormir, puxei aquela caixa e fiquei mexendo nos ossos. Tentando supor a que parte do corpo pertenciam tais pedaços. E se aqueles pedaços, assim como imaginei da caveira que a máquina tinha arrancando da terra, pertenciam também às personages fantasmagóricas daquela história, que a mulher da esquina nos contava. 

Minhas investigações arqueológicas duraram pouco. No dia seguinte, enquanto eu estava tomando café, antes de ir à aula, ouvi minha mãe gritar do quarto, perguntando o que é que era aquilo embaixo da cama. Primeiro falei que eram ossos de vaca, tentando diminuir o baque. Mas não funcionou, ela fez uma cara de nojo e disse que eu tava maluco em trazer osso de bicho para dentro de casa. Então eu disse que era osso de gente, lá da igreja, na tentativa de atestar o valor daquela caixa de sapato. 

Mas foi pior. 

“De gente?”, ela disse, como se estivesse segurando uma lasca de fígado ainda quente, antes de correr com aquilo para o quintal e tascar a caixa com tudo, lá no lote vazio, do lado da nossa casa. 

Eu senti um aperto terrível, me enfiei no quarto sem entender muito bem. 

Mas quando encontrei o Marcelinho Black, no outro dia, na esquina de casa, ele me contou que, além de sumir com os ossinhos dele, a mãe dele tinha colocado ele de castigo. Daí, eu me senti melhor. A realidade era frustrante - tudo bem - mas pelo menos não estava sozinho naquela situação.


25/05/2011

de quando buscava água com meu pai


INCREDIBILIS a creative blog by Enrico M. painter/designer


Faltava água na cidade, sempre, mas não me lembro a causa. Apenas das torneiras secas. 

A prefeitura emitia um aviso, ia faltar água por três ou quatro dias, e a caixa sobre o banheiro se silenciava. Como se obedecesse a decretos, as torneiras giravam em vão, a mangueira ressequida, esturricando no sol.

Não sei o motivo da falta d'água, porque tinha as pernas miúdas, os braços miúdos que não aguentavam carregar uma lata maior. A lata maior era meu pai quem levava, num carrinho de mão cinza escuro, o eixo mal lubrificado, que descia a ladeira da Igreja Velha, rangendo. 

Eu ia sentado na ponta do carrinho, com uma leiteirinha amassada nas bordas, apertada no colo. Lembro da imagem da estrada de cascalho à frente descendo e subindo, e quando às vezes meu pai acelerava, eu imaginava um tombo, meus joelhos esfolando no cascalho, sangue cheio de caquinhos de pedra, pontudos, grudados na pele, então apertava a borda do carrinho de mão com força, com medo. Até fechava os olhos, com medo, e não falava. Continuava quieto, apertando, segurando. Meu pai diminuía a toada e eu podia soltar as mãos, e o barulho do carrinho de mão avançando, agora lento, na estrada, o barulho dos chilenos do meu pai arrastando no cascalho, lentos, o barulho oco da lata maior rebatendo contra o metal do carrinho, me aliviava. 

Então eu podia reparar nas ranhuras da estrada. Marcas de pneus de caminhão, ferraduras de cavalos, carros, manadas de gado. E era como se as marcas trouxessem aqueles que as provocaram a presença. Como se a estrada, então vazia, fosse, aos poucos, povoada com as vacas se desviando do caminhão fumacento, e os cavalos em trotes imponentes se desviando das vacas, dos carros acelerando morro acima. 

Na curva perto do Matadouro, já dava pra ver a fila. Essa imagem real das pessoas próximas a bica soterrava meus devaneios, devaneios inspirados pelas ranhuras na estrada. Meu pai e eu assumíamos nosso lugar, esperando que a fila avançasse, para que pudéssemos encher nossas latas e tomar o caminho de volta. 

Mas meu desejo de que a fila avançasse não era tanto da água, jorrando infinita da bica, da água que ia servir para minha mãe cozinhar, para matar minha sede depois de uma partida de futebol à frente de casa. 

Eu queria mesmo era sentar na ponta do carrinho de mão - subir a ladeira de volta - e reparar as ranhuras na estrada.

***

04/05/2011

Museu da Oralidade: o homem de 24 dedos.





"Num povoado que tinha pra lá, tinha um homem que tinha 24 dedos. 
Seis dedo nas mão e seis nos pé.

(...)

Agora eu vi um garoto, só num pude pegar nele, mas eu vi. 
Ia pegar nele, levar a mão nele e dava um choque. 

(...)

Eu não tinha medo não. Eu tirava leite pro fazendeiro lá no pé da serra do Ingaí. Tava mais ou menos com uns 14 anos. Ainda não trabalhava de carapina. Aí eu ia em casa trocar de roupa, acho que era uma quarta-feira. Lá tinha só um trilho de cavaleiro, tinha estrada velha mas dava volta, e tinha uma trilha que atalhava. Eu olhei e pensei que era um bezerro. E gritei: bezerro, bezerro, bezerro! Ô bezerro, psiu! Quando eu achei que era mansinho, ele me deu um choque na mão. Era tipo um menino, aí eu falei assim: neném, ô neném, como é que você chama? Quem é seu pai, quem é sua mãe? Como chama seu pai, como chama sua mãe? Ele não quis falar não. Era baixinho. Não era grossão também não, era fino. Parece que tinha o olho vermelho. Eu vi que não era assim coisa desse mundo, né? Que aquilo era invisível. Aí largava, passava lá e deixava ele lá. Quem tava a cavalo não passava. Ele ficou lá uma temporada. Não foi muita gente que viu não, foi muito pouca gente. Os outro assim era medroso, né? Passou um morador da fazenda, ele tava contando esse causo pras criança, pros companheiro. Aí o companheiro falou: ô sinhozinho, essas coisa assim a gente larga pra lá, num mexe não. Aí eu falei: se eu encontrar com o garotinho eu vou pegar ele pra mim e trazer pra cá. E ele respondeu: cê é louco? Cê tá ficando louco?"

Fragmentos do depoimento de Oliveira Peixoto Arantes (1921), morador de Luminárias-MG, disponível no Museu da Oralidade, projeto sensacional da ONG Viraminas, financiado pelo Ministério da Cultura, através do programa Cultura Viva. Pra conhecer o projeto, e vale muito a pena, basta acessar: http://museudaoralidade.org.br

*****

20/07/2010

Foi isso

Ela disse que queria caminhar. Eu disse por que não. Andamos por duas horas seguidas.  Mas foi ao parar que desconfiei: ela precisava deixar alguma coisa pra trás. Não era uma rua ou qualquer das casas de telhado coberto de limo; o barulho da multidão em festa; uma paisagem específica no céu. Ela queria deixar alguma coisa pra trás, uma espécie de peso, o peso de alguma coisa que começa e acaba mas não vai embora, por isso a gente se afasta, pra longe; mas não tive coragem de perguntar, por isso hesitei: três, quatro, cinco vezes pela mesma rua, esquina, quarteirão; eu a seguia, atento as palavras  dela; não tanto quanto à boca. Ela, que movia as pernas por intuição, a intuição confusa de que diante da possibilidade do novo é preciso se livrar das sobras, do resto, do já vivido,  desse antes petrificado dentro da gente. Ela, que caminhava por pura necessidade de abrir um mundo distinto, sem saber pra onde; como se fugisse de si mesma pra se encontrar livre, diante de mim, na próxima esquina.

Foi isso.




31/03/2010

A graça, o doce, o leite

Em gratidão a Nossa Senhora, os fazendeiros de Luminárias-MG ofertam todo o leite retirado na Sexta-Feira Santa às pessoas. Não sei a origem exata desse hábito. Sei, no entanto, que quando a gente era moleque, quinze e dezesseis anos, buscar leite era uma excelente desculpa pra beber. Beber cachaça e vagar pelas estradas vicinais, no escuro, de mochila nas costas, saltando de uma propriedade a outra; sem qualquer vasilha pra encher de leite, é claro. Todo ano quando chegava em casa morto de cansaço, bafo de pinga, sem dormir e sem nenhuma gota de leite, meu pai, utilitarista profissional, dizia: “cê tá de coragem. Zanza a noite inteira e nada de leite? Um litro já serve pra fazer doce”.
Moleque, adolescente, desregrado: e aquele culto visceral à inutilidade. Pra mim, a serventia dessa perigrinação era outra e transcendia as proteínas do leite.

Acontece que ia muita mulher.

E beber com mulher naquela época era uma espécie de paraíso na Terra. A gente queria sexo, é verdade; e nem sempre conseguia; mas só das moças ficarem esquentadas, com perfume de conhaque na boca, faceiras de tudo, fogosas e querendo brincar de provocamento, a molecada perdia a rédea. Afinal, era uma espécie de alforria pra meninas, eram livres:  podiam amanhecer em roda de fogueira com violão, beber, flertar e dormir no mesmo colchão que a gente, ali estirado de frente do retiro.

Na lógica de aço dos pais das moças, acampar era coisa de maconheiro, vagabundo, malandro, “maloqueiro”, pra usar de um termo dos anos 70; e já que “filha minha” não se envolve com maconheiro, maloqueiro, vagabundo e derivados, “filha minha não faz isso” é o primeiro mandamento, “filha minha” não vai acampar. E as meninas, pobrezinhas, com água na boca, raivosas, frustadas, enchiam-se de tristeza quando a gente passava de mochila nas costas num fim de tarde pra ir acampar no alto da Serra de Luminárias ou no lagoa da Usina da Fumaça.

Por isso, num dia como hoje, quarta-feira da semana santa, a gente já tinha planejado tudo. Qual fazenda? qual caminho seguir? que bebida ia levar? e, principalmente, equacionado com precisão os casais da turma.  Imaginando cenas de sexo com um “que” de romantismo e perfeição.

Só que a gente envelhece, as coisas mudam de sentido; ganhar ou perder, tanto faz,  o fato é que mudam. Aquilo que fazíamos com permissão de escuro e isolamento, no escondido do isolado, agora está às claras, a qualquer dia, nos conformes, à necessidade. Dívida em boteco. Dirigir. Calejar mãos; quase responsáveis, no prosseguir; as meninas já nos recebem em casa, no mais puro agrado e consentimento dos pais. Dormem na casa  da gente, quando namoradas. E o buscar leite perde seu milagre, porque o não poder torna-se um possível aceitável.

O engraçado, é que de dez anos anos pra cá, a tradição em si perdeu muito da sua força. Há anos não ouço falar de empreitadas de ir na Palestina, no Geraldo Quim-Quim e nas dezenas de fazendas onde os fazendeiros continuam oferecendo o leite das vacas, de graça, a quem quer que se achegue, em oferenda à Santa. Os moleques e meninas prendadas de quinze e dezesseis anos de hoje, no entanto, não tem nenhum interesse em buscar esse leite. Nem de vagar por estradas no escuro de mãos dadas com aquela mocinha bonita, filha de pai bravo, que não pode ficar até tarde na rua; mas pode andar sozinha no escuro com você, na Sexta Feira Santa.


Não é nem questão de ser melhor ou pior, o sistema antigo de descobrir as coisas desse sistema novo onde tudo já vem explicado e, portanto, permitido. Mas, nesse meu jeito caduco e sem nostalgia; sinceramente, acho que as sextas feiras à moda antiga, eram bem mais gratificantes e doces, mesmo sem levar leite pra casa; mesmo sem fazer o doce.



foto: Raquel Santana.