13/11/2010

a morte de paula d. , Brisa Paim


Desde sete horas a chuva ameaça cair; pelo jeito, quando começar vai atravessar o resto do dia. Não olhei a previsão. Porque previsão, seja a cigana de braços peludos que me cerca na rua ou economista no GloboNews, sempre me dá medo. Tudo bem. Tomei dois ovos quentes e fui tratar do gato. Sem problemas. Fumei um cigarro espiando a massa cinzenta de nuvens acumulando-se detrás da serra, na linha do horizonte. Mas isso foi antes, agora, quando escrevo esse texto, por volta de nove e vinte, a chuva já chegou, troveja e a luz piscou duas vezes, talvez três. Mas não estou com medo, não tenho medo de trovões. Tédio me assusta mais. E não tenho tédio hoje, a pilha de livros está ali, na escrivaninha do lado cama; isso me conforta. Ontem à noite li “a morte de paula d.” da Brisa Paim (Edufal, 2009), e fui logo reler agora, antes de escrever esse texto. O livro venceu o Prêmio LEGO de Literatura 2007 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2010, na categoria autor estreante.

Que livro.

Acho difícil transmitir a sensação que senti ao percorrer às páginas de “a morte de paula d.”

Desde a capa, a parte gráfica do livro é um elogio a estética. Olhando o livro assim, antes de ler, o primeiro impulso é folhear essas páginas negras do livro. Mas não faça isso, ou você vai perder o acender de luzes.

A pulsão poética, a voz narrativa aparentemente confusa, palavras que tentam representar um além aos pensamentos da personagem; o monólogo frenético, estremecido, repleto de perturbações; essa aparente confusão, esconde um cuidado extremo da autora de “a morte de paula d.”. Cada termo, palavra, incorpora uma função, tem sua necessidade de ser, de estar grafadas ali, daquela forma específica; é esse cuidado na construção que dá o ritmo impecável do livro. Cada efeito é medido. Ao subverter à pontuação e demais elementos de uma narrativa convencional, Brisa Paim propõe um clima, o clima de paula d.; misto de epifania e náusea que vai culminar no abandono dos outros e de si,  num círculo de fuga que tende à um beco sem saída. Não vemos aquele tipo de prosa da expressividade descuidada. E por esses efeitos calculados, a construção do livro se impõe como objeto estético, nos estremece os sentidos. Uma construção, no intuito e apuração, quase cabralina.

O ritmo é o mecanismo usado pela autora para ordenar o caos interno da personagem, ou pelo menos, o esforço em ordená-lo da única forma possível, já que o sentir ultrapassa qualquer representação:

"às vezes eu  me sinto analfabeta eu também"

"todo mundo fala eu queria ao invés de eu quero"

O laço que amarra o leitor nessa história, é esse mesmo ritmo, é através da fruição do ritmo que atingimos a fruição da obra. Somos arrebatados como numa reza ou mantra. Se Brisa Paim parte de formas já usadas, como Beckett e Hilda Hilst, o fluxo de livre consciência, parte com consciência literária apurada. Emula essas vozes para saltar à frente com uma voz própria, autoral e profundamente encantadora.

Vale visitar o site da autora e dar uma espiada: www.palavrapouca.com

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Agora, não chove mais. Os livros estão ali. Folheando “A passagem tensa dos corpos”, descobri uma referência à Luminárias, na pág. 16. Mas é coisa para um outro post.

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3 comentários:

  1. Marcos,
    Gostei muito do texto. Adorei a capa do livro, já visitei o site da Brisa.

    Obrigada pela dica.

    Bjs
    : )

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  2. Opa, Nilton. Acabei de ver. Ajeitei as imagens aqui. Parece que elas foram tiradas do ar.

    Valeu pelos comentários sobre o blog.
    Um grande abraço.

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oi.