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22/04/2015

Revista Raimundo


Acaba de sair a edição de outono da Revista Raimundo, editada por Rafael Lasevitz e Raquel Parrine. A revista reúne poesia, ensaio e prosa. Participo da publicação com o conto Banho Quente.



18/11/2014

Revista Jangada




Só pra avisar que saiu um texto meu na Revista Jangada. Trata-se de um texto de ficção que faz parte de um projeto ainda em desenvolvimento e sem prazo pra terminar. Pra ler a parada é só clicar aqui.

Até.

23/07/2014

Dedo de prosa


Amigos, troquei um dedo de prosa com a querida escritora e jornalista Moema Vilela, sobre o Quebranto. Falei um pouco das minhas influências e do processo criativo em geral. E também sobre a questão do interior na minha ficção.

É só clicar aqui.

Até.

11/06/2014

interior



O ano é 2010. O Brasil era um dos favorito pra Copa com o tal do Luis Fabiano e do Felipe Melo e eu desembarco em Porto Alegre em março com uma mala cheia de roupas e sem pijama. Tinha quinhentos reais trocados em notas de vinte, um esqueiro bic amarelo e um maço de Luxor amaçado e um pedaço de papel dobrado com o endereço de um boliviano que vivia em Canoas e iria me hospedar por uns tempos ao valor de cento e vinte reais por semana. Tudo ótimo. Estava tão empolgado que tomei um porre monumental no Parangolé e cheguei trocando as pernas e perdi a chave da casa do sujeito.

Nem precisei pagar a primeira semana.

Encontrei a chave, mas não conhecia ninguém na cidade. Passei a segunda noite num hotel no centro com clima de Linha Direta e enredo de música do Odair José até que encontrei uma pensão de família num apartamento sublocado onde moravam um músico gaúcho e um vendedor de creme de cabelo de cinquenta anos e um jovem advogado catarinense que estudava o dia todo pra um concurso de promotor. Não sei o que aconteceu com eles. Logo me mudei pra uma república na Lucas de Oliveira com a colega de curso que depois virou amiga e que fazia tapioca com salada quase todo dia e gostava de Alice Munro. 

Ela é jornalista e tinha abandonado um emprego no Mato Grosso e a gente estava na cidade pra fazer a oficina de contos da PUCRS. Ela gostava do meu feijão mas quase nunca bebia o meu café ou uma dose sequer das garrafas de Ypioca limão que eu comprava na sexta-feira. O Luís também aparecia sempre pra discutir uns textos e beber umas cervejas e colocar alecrim nas batatas assadas no forno. Nunca li e escrevi tanto na minha vida. E foi nessa época que eu comecei a esboçar os primeiros contos que compõem Quebranto.

***

Eu li o Luiz Vilela pela primeira vez há mais ou menos uns dez anos. O impacto foi forte. Lembro que pensei algo mais ou menos assim: “Eu conheço essas pessoas”. Até então acostumado a ler apenas literatura estrangeira, entre romances policiais e clássicos, era a primeira vez que encontrava personagens tão nítidos e vívidos que se confundiam com as pessoas que eu encontrava no cotidiano. O impacto foi semelhante quando li Amilcar Bettega, Carver e depois Alice Munro. Dentro do gênero conto, são os que mais gosto no momento.

***

O título inicial do livro era Interior despedaçado. Os contos que eu vinha escrevendo ao longo do ano de 2011, 2012 e 2013 tratavam do mesmo ambiente e temas. Passei praticamente toda a minha vida no interior. É impossível que não haja influência. A ideia sempre foi explorar essas paisagens e personagens sem cair num discurso regionalista, provinciano e bairrista.

Mudei o título porque Quebranto é a palavra que melhor dialoga com a paisagem destes contos. Tanto no aspecto do interior geográfico como do interior psicológico.

Espero que gostem.

***

Para comprar o livro basta clicar nos links abaixo. Exclusivo em e-book. Se você não tem um leitor digital, fique tranquilo. Dá pra ler no celular, no tablet e também no PC. Você escolhe. É só baixar o aplicativo na loja de sua preferência.

01/01/2014

Divisa




Saiu um conto meu no Jornal Opção. É uma breve história ambientada no interior do Brasil escravocrata, em alguma paisagem perdida do Séc. XIX. Quem quiser conferir a parada é só clicar aqui. 

24/12/2013

Um conto de natal


Amigos, acaba de sair a edição de dezembro da ótima revista Germina, editada pela Silvana Guimarães e Mariza Lourenço. Participo da publicação com um conto de natal. É só clicar aqui.

Abraços.


13/06/2012

Caixa D’Água

II

O Caixa D’Água morava na minha rua.

Casa da esquina, sem reboco. E cheia de entulhos.

Velhas mãos de dedos compridos. Fina. Pele encardida de sol. Passava a maior parte do dia com as pernas estiradas na calçada. E o eterno cigarro na boca, as chinelas jogadas de lado, cercado por restos de garrafa pet. 

Vez ou outra fazia um carrinho, uma boneca. Coisa do tipo. Uma cesta de Natal fora de época. 

Mas, no sempre, a especialidade eram os cataventos. 

Vendia pouco. Quase nada. E os cataventos terminavam empilhados no quintal. Equilibrados em podres cabos de vassoura. Rangendo. Enfiados na ponta de bambus, na cerca de taquaras ressecadas. 

Chamavam o Caixa D’Água de Caixa D’Água por conta da cabeça.

Inversamente proporcional as canelas miúdas, aos ombros espremidos no peito, guardando a tosse sistemática.

A cabeça do Caixa D’Água parecia uma caixa d’água male ou meno equilibrada num pescoço de borracha. Meio solta no vazio. Um catavento que desejasse escapar.

Boiando sobre o corpo.





15/12/2011

três corações

Foi num sábado.

E sábado, além da cerveja, da cachaça, da travessa de torresmo ou de mandioca, havia o olhar de esperança no rumo do ponto de ônibus, na ponta da praça. 

Esperança de que aparecesse alguma mulher diferente daquela meia dúzia de mulheres que a gente já tinha decorado todas as pintas e dobrinhas das costelas. Diferente dessas meninas que a gente viu correr de nariz escorrendo e pés descalços. Tomar bomba em matemática na sétima série, cair de bicicleta e vomitar de fora da boate. Ser coroada na igreja, tocar lira na Fanfarra, empelotadas e bocejando nos pelotões de Sete de Setembro. 

Primeira comunhão, primeiro beijo. 

E trocar o perfume Thaty por alguma fragrância Boticário. Às vezes, se casar e se separar. Parir e tirar filhos. Ir embora cursar faculdade nalgum lugar distante. Algumas voltavam formadas, ou com o maridão obscuro ao volante do carro de vidros fechados. Outras, vinham sozinhas empunhado o queixo contra vento venci na vida e vocês ainda estão aqui nessa vidinha male ou meno?. A maioria, claro, sumiu sem dar explicação, como tudo nessa vida.

Mas acontece que essas mulheres, que a gente nunca deixou de chamar de meninas (mesmo quando fala mulheres), são quase nossas irmãs. Sabemos tudo sobre elas. Elas sabem tudo sobre a gente. 

Não dá liga. 

Restava esperar. A ponta da praça. Encarar aquele ônibus à espera de um novo messias de saia.


***


13/10/2011

Concurso Guimarães Rosa 2011


Tive um conto selecionado no Concurso Guimarães Rosa (2011), da IV Jornada Guimarães Rosa, organizado pela Sobrames-MG – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.

Mais informações sobre o evento, que acontecerá nos dias 14, 15, 16/10 em BH: aqui.

É isso.

06/06/2011

variações literárias


A Bruna Maria me convidou para colaborar com um projeto bem bacana: As Variações Literárias.  O projeto se resume na produção de ficção inspirada em ficção. Já passaram por lá Israel Fabiano Souza, que localizou sua produção a partir de As intermitências da morte, de José Saramago, Marcos Nunes, que partiu de O Horla, de Guy de Maupassant e Mayra Lopes do Couto, que produziu a partir de A Última Estação. Os últimos dias, de Tolstói.


Meu mote foi o famoso microconto de Ernest Hemingway. O resultado está disponível aqui, uma série de dez microrelatos ficcionais intitulado Breviário de Salomão.

*
Quatro desses microrrelatos foram publicados também no Jornal Opção.

*
É isso.


01/06/2011

ele ainda tocava violão



Desse frio aqui em São Paulo, venho avisar a vocês, meus queridos leitores, que tem um conto inédito no ar. Na seção A cada 15, da editora Grua.

[ler]

*
E feliz aniversário pra Quel.

*

26/03/2011

Magrelinha (parte II)



Todo mundo precisava lavar o carro naquela maldita quinta-feira. 

Os caras estacionavam o carro na fila e depois ficavam encostados na mureta, ficavam me olhando enquanto eu esfregava uma roda ou soprava um porta malas. Tinha uns dez caras conversando. Um deles, gordinho, cabeça enfiada nos ombros, manco da perna esquerda, perguntava toda hora quanto tempo ia demorar. Da terceira vez, eu disse, não muito, se quiser pode deixar o carro aqui e voltar depois do almoço. Depois do almoço (o gordinho tava meio contrariado), mas que merda! se eu soubesse que tava assim, tinha ido lá no Everaldo (e foi me dando as costas, falando alto e levantando os braços, indo na direção da turma encostada na mureta, e continuou), devia ter ido lá no Everaldo primeiro. Mas agora fudeu! se sair daqui, pra ir pra lá, quando chegar lá a fila vai dar três dessa aqui.

Eu suspirava, limpava uma roda, ensaboava o vidro e despachava um carro.

O carro do gordinho era o último. 

O gordinho devia ter formigas na cueca. Enquanto a maioria dos caras ficava falando de assuntos bestas, aguardando a vez (como a coisa tem que ser), o filha da puta do gordinho não parava quieto. O filha da puta do gordinho ficava rodando a chave, arrastando os pés e arrastando as chinelas Raider. O filha da puta do gordinho devia ter algum problema. 

O meu problema era que eu precisava falar com a magrelinha. Precisava saber que diabos tinha acontecido. Tava de cabeça quente desde cedo. Nem café tinha tomado. E quando tem alguma coisa me incomodando, eu acabo perdendo a paciência. 

Terminei mais um carro e desliguei a mangueira. Não tinha parado um minuto, precisava ir ao banheiro. Eu tava de costas, me afastando na direção do almoxarifado quando o gordinho começou, ei, mas onde cê pensa que vai? ninguém aqui tá por conta, não! Olha lá que tranquilidade... 

O sangue subiu na hora. 

Aqui, filha da puta (andando na direção do gordinho), enfia esse carro no rabo e some! 

O gordinho (mancando da perna esquerda, num trote acelerado pro meu lado), como é que é? 

Some! Enfia o carro no rabo e vaza, filha da puta! 

O gordinho (arrancando a camisa num movimento só, querendo intimidar), como é que é? 

Filha da puta! 

Como é que é? 

Filha da puta! 

Tava armando pra chegar perto e dar um tombo no gordinho e já cair matando. Quando a gente topou de perto o gordinho fechou uma guarda de boxe. Lasquei um chute na lateral do joelho (direito) do desgraçado, mas o filha da puta nem sentiu. A canhota do gordinho bateu na minha testa igual um toco, minha vista ficou branca que nem papel chamex, dei dois ou três passos pra trás e despenquei de bunda no chão. Ouvi os gritos da turma na mureta e na hora que a vista foi voltando, ainda meio esbranquiçada, vi o gordinho vindo  que nem um urso. Me debulhou um chute nas costelas e eu rolei de lado, destruído.

Lembro que vi um vulto passando no céu, que nem um tiro, e ouvi uma pancada estralada e depois um estrondo; quando virei pra ver, o gordinho tava no chão. 

Foi aí que eu entendi porque o sujeito da cabeça russa tinha o apelido de Japonês. Me contaram depois, um dos frentistas, que foi a voadora mais bonita que ele viu na vida. Nem em filme, disse o frentista, até meio emocionado. O Japonês largou da mão magrelinha e disparou numa carreira e saltou, deve ter saltado mais ou menos uns cinco metros de distância, e quando chegou perto (diz o frentista), o Japonês esticou a perna, da canela pra baixo, e lascou uma lapada na fuça do gordinho e mandou o filha da puta no chão que nem um saco de cimento. 

Dois caras daqueles que tavam na mureta cataram o gordinho e sumiram dali. 

Eu fiquei com um ovo na testa e um hematoma escuro, do tamanho de um prato, nas costelas. Mas fiquei mesmo é devendo obrigação pro Japonês. E o foda é que eu tava sacaneando com o Japonês.

Pelo menos a camisa do gordinho tinha ficado pra trás. Deu uma bela estopa.

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04/03/2011

Magrelinha (parte I)

Desde o primeiro dia a magrelinha me olhava torto. 

No fim do expediente eu passava na loja de conveniência e comprava um maço de cigarros e quando eu entrava na loja o rosto da magrelinha virava um pimentão, mexia no cabelo como se tivesse piolhos e não me olhava nos olhos de jeito nenhum. 

Nunca ouvi a voz da magrelinha ali na loja. 

Às vezes eu comprava uma latinha de Brahma e ficava fumando e tomando cerveja e jogando conversa fora com o Buiú perto do lavajato. Uma vez, o Buiú comentou comigo, “Alá, rapa! a magrelinha não para de olhar pra cá, Marcelão!”. Eu tinha percebido faz tempo, mas disse ao Buiú que era lorota, que a mocinha quando muito devia ter uns dezessete anos e que era chave de cadeia, que eu já tinha visto o namoradinho da cabeça russa vir buscar a magrelinha num gol quadrado amaçado na lateral; que eu não ia me meter com a mulher do rapaz, é claro. O rapaz era malencarado, desse povo que ouve Racionais no talo e devia carregar uma arma debaixo do banco do gol quadrado. Mas falava isso só pra despistar o linguarudo do Buiú. Eu sempre ouvi Racionais e nunca carreguei arma nenhuma. E no fim das contas, eu já tinha planejado direitinho como é que eu ia dar um trato na magrelinha. 

Escrevi o número do meu celular num papelzinho antes de sair de casa. No fim do expediente, entrei na loja de conveniência e na hora de entregar o dinheiro do cigarro, entreguei o papelzinho junto. A magrelinha foi desenrolar o dinheiro e deixou o papelzinho cair. Quando abaixou pra catar eu já tinha saído da loja. 

Eu sabia que ia dar certo. 

Naquela noite mesmo a magrelinha me ligou. Eu tava requentando um mexidão quando o celular começou a vibrar. Ouvi uma confusão de gente falando no fundo e perguntei se ela tava em algum boteco. A magrelinha disse que tava ligando do orelhão da faculdade, que era intervalo de aula, que não podia ligar do celular dela, porque o Japonês vigiava as ligações que ela fazia. Pensei em perguntar por que aquele sujeito da cabeça russa tinha o apelido de Japonês, mas desisti. Daí, sem mais nem menos, a magrelinha disse que tinha que desligar e que amanhã ligava de novo. Tudo bem, eu disse. 

Quando cheguei no lavajato no dia seguinte, a magrelinha me tratou como se nada tivesse acontecido. Avermelhou o rosto e coçou a cabeça do mesmo jeito e não me olhou nos olhos. Pensei comigo que o papelzinho tinha extraviado e que outra pessoa tinha ligado. Que uma outra magrelinha, que namorava um Japonês de verdade, e não aquele rapaz do gol quadrado da cabeça russa, tinha encontrado o papelzinho e me ligado. Tava pensando nessas coisas quando o Buiú veio me dizer que o dono do Celta branco reclamou de uma lavagem que eu tinha feito, disse que esqueci de limpar o motor do carro. 

Minha tia Esmeralda tá doente, eu disse, tá me deixando meio desconcentrado. 
E o quê é que ela tem, Marcelão? 
Câncer na língua, Buiú. 

Lavava umas meias e cuecas quando o celular tocou naquela noite. Era o mesmo barulho de fundo da noite passada. Mas antes que eu pudesse perguntar por que ela não falava comigo lá no posto, pra ver se era mesmo a magrelinha que tava ligando, ela disse que tinha que desligar rápido, porque o Japonês ia pegar ela mais cedo hoje, mas que, amanhã, o Japonês ia sair pra jogar sinuca com os caras e que ela não tinha aula antes do intervalo, e que, então, amanhã, ligaria mais cedo. Tudo bem, eu disse, e a magrelinha desligou. 

Voltei a esfregar as cuecas e fiquei pensando que diabos tava acontecendo. E nessa hora, lembro perfeitamente, olhando pra espuma que saia da cueca, tive a ideia genial de escrever outro bilhetinho. 

Entreguei o bilhetinho do mesmo jeito que tinha entregado o outro, enrolado na nota de cinco reais. Mas dessa vez eu esperei ela abrir o bilhetinho. Fiquei olhando direto pra ela, disfarçado, reparando (no maior fingimento) os preços de pão de forma e biscoitos. Daí ela me olhou, então eu vi os olhos castanhos e ela piscou, quer dizer, piscou de um jeito esquisito, piscando os dois olhos de uma vez como tivesse uma linha de anzol amarrada na ponta dos cílios. Era esquisito, mas era o bastante. No bilhetinho eu tinha escrito meu endereço. 

A magrelinha precisou de uma semana pra despistar o Japonês. Abri a porta e tava lá a magrelinha untada num perfume doce e tão forte que quase me arrancou um espirro. Tava com o rosto vermelho, uns cadernos cor de rosa na mão, e com a boca lambuzada de brilho como se tivesse acabado de devorar um frango inteiro. Dei um beijo no rosto dela e falei pra entrar e ficar à vontade. Ia dar tudo certo, eu pensei. Ela parou no meio da sala, reparando nos móveis e mexendo no cabelo. Tava com uma calça dessas jeans bem baixa, com uma faixa de carne e aqueles ossinhos de fora.

A magrelinha não falava de jeito nenhum. Mas eu não forcei ela falar. Por instinto, comecei a falar em dobro, falar como se eu tivesse duas línguas. Acho que nunca falei tanto na minha vida como naquela noite. Falei de tudo quanto é assunto, e você sabe como um assunto entra no outro, como a coisa flui feito água rasgando pedra. Comecei falando sobre a incompetência do meu irmão ao lidar com o celular, como meu irmão não sabe desligar o despertador do celular e joga o aparelho dentro do baú de cobertores, e logo fiz um resumo confuso de Rock e Táxi Driver (filmes que via com meu irmão), contei de uma superstição antiga que eu tinha quando moleque (época que dividia o quarto com meu irmão), na minha cidade, acertar pedradas numa árvore seca e velha, na esquina da minha casa, e como a vida é engraçada porque acertar pedradas naquela árvore me dava sorte, me fez ser titular do time da escola (no lugar do meu irmão) naquele último campeonato daquela época, e que foi muita sorte aceitar o emprego no lavajato, mesmo que eu quisesse coisa melhor, se eu tivesse aceitado outro emprego que um amigo (amigo do irmão) tinha me indicado, que pagava bem melhor, eu teria de mudar de cidade e não teria conhecido você, eu disse, e a gente não estaria aqui agora, conversando. Sim, aquela altura a gente já conversava, de um jeito esquisito, mas conversava. Eu fazia uma pergunta ou outra, quer outro vinho? como vai a faculdade? e a magrelinha respondia dando de ombros, movendo a cabeça ou a boca num movimento estranho (sem melhor palavra pra usar, eu chamaria de sorriso), também movia as pálpebras conforme a resposta fosse positiva ou negativa, e eu entendia, e conforme a velocidade com que movia as pálpebras, ou jogava os ombros, ou mordia os lábios internamente e depois afastava os lábios uns dos outros, e erguia o ombro direito mais alto que o esquerdo, eu entendia que aquilo era um sim, e entendia que o não era quando apontava o nariz no rumo do piso da sala, piscava, movia o queixo um pouco pra esquerda; era estranho, mas eu dominei rápido aquele jeito da magrelinha conversar. E eu gostei bastante do jeitinho da magrelinha conversar. 

Depois, foi tudo muito rápido. A conversa entrou no piloto automático. Do beijo até abaixar as calças foi uma coisa tão ligeira que parecia que a gente tinha ensaiado no mínimo umas três vezes antes de executar. 

Enquanto eu procurava minha camiseta no meio das almofadas, a magrelinha correu pro banheiro. Vesti a camiseta e fui no quarto buscar um cigarro, e lá do quarto ouvi o barulho da porta do banheiro e quase de imediato o barulho da porta da sala. 

Tentei ir atrás, desci as escadas correndo, e quando cheguei na rua, a magrelinha tinha sumido. 

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21/09/2010

Histórias Possíveis #59

Daniela Mendes me convidou a enviar um conto para edição 59 da revista virtual literária Histórias Possíveis.

O resultado você pode conferir aqui.

Se for lá, aproveite para assinar o feed da revista.

É isso.

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[aliás, tem alguns contos lá no site: aqui]

15/08/2010

Alzheimer

Tudo bem que a vida é dura, corrida, que a gente passa a maior parte do tempo de cabeça quente, queimando pestana em livro "e" etecétera; mas isso não é desculpa. Esqueci de colocar uns links aqui, (um eu tenho certeza de ter twittado; os outros, não) de uns contos que foram publicados há algum tempo e eu só descobri (ou me lembrei) hoje. (dois republicados e um inédito, na verdade)
Vamos lá:

Catavento
no Portal Cronópios. (em junho)

Sujeito de sorte, republicado na edição número 5 da revista Desenredos. (em junho)

E Pinóquio e a Menina de Lata  republicado no Jornal Opção de Goiânia, (em maio) debaixo da crônica do Menalton Braff: aqui

Agora fiquei na dúvida se já postei esses links, mas acho que não. Pelo menos não aqui no blog; senão vou ter que trocar o título do post de Alzheimer pra Déjà vu.

Adeus.

26/07/2010

Dormir não bastava

Entrou no apartamento e não acendeu a luz. Caminhou em linha reta através da sala esquivando-se por intuição da quina do sofá e da aresta da mesa de vidro. Quando o tapete tocou a ponta do salto, deixou a bolsa cair; veio ruído da queda; era a poltrona maior, três lugares, à esquerda. Um facho de luz atravessou a vidraça e abriu um clarão no centro da sala, subiu no rumo do teto enquanto desvelava a existência da parede branca e da abertura retangular sem portal; fez o caminho inverso e desapareceu junto ao barulho abafado do motor do carro. Penumbra. Ela estendeu os braços até os dedos alcançarem algo firme; pôs-se a tatear as duas paredes laterais enquanto caminhava corredor adentro. Um, dois, três, quatro passos. Parou, tocou a reentrância da porta à direita. Esfregou a superfície de madeira com a palma da mão enquanto traçava pequenos círculos irregulares e incompletos. Rastreava a maçaneta revestida de protuberâncias; ao encontrar, envolveu-a entre os dedos; mas não forçou. Soltou, resvalou a mão no portal, reconheceu a parede, voltou a caminhar. Um, dois, três: o som do bico do sapato ao bater na porta no quarto semi-aberta. Empurrou, deu dois passos pra frente, tirou o sapato e se jogou na cama, de bruços; começou a se mexer, se enroscou no edredom como se roubasse um abraço e sentiu cheiro de amaciante; virou de lado, dobrou os joelhos, encolhida. Tinha sede de ar; puxou profundamente; na hora de soltar, abriu a boca e sentiu correr através das gengivas, entre os dentes, pelos cantos dos lábios, esvaziava os pulmões. Três vezes: cheio, depois vazio. Retina quase acostumada a escuridão: identificou o guarda-roupas, às portas abertas, casacos imóveis sem  partículas de uma festa tediosa e enfumaçada. Puxou o ar, soltou. Trouxe o travesseiro para o peito e abraçou, e abraçou bem forte. Juntou os pés, esfregou um no outro. Prendeu o ar. Jogou o rosto sobre o travesseiro e prendeu. Prendeu o ar, prendeu o travesseiro no rosto, apertou até seus olhos começarem a doer. Não dormiu; dormir não bastava.

24/06/2010

Suplemento Literário de Minas Gerais:

Upgrade:
Hoje recebi um e-mail avisando que meu conto 4'33" está na edição de junho do Suplemento Literário de Minas Gerais. A versão online do Suplemento está disponível pra download. Se você fizer um cadastro gratuito (faça o seu cadastro) talvez ainda possa receber em casa essa edição. Agora, se você é de BH, segue os locais onde a versão impressa do Suplemento é distribuída gratuitamente:

Bibliotecas

Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa
Portaria/ Anexo
Praça da Liberdade, 21 - Funcionários


Centro Cultural / Instituto

Centro Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Av. Santos Dumont, 174 – Centro


Centro Cultural de BH
Rua da Bahia 1149 – Centro


Instituto Moreira Salles
Av. Afonso Pena, 737 – Centro


Faculdades

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) / Coração Eucarístico
Instituto de Ciências Humanas / Biblioteca / Diretório Central dos Estudantes / Diretório Acadêmico (D.A.) Letras / D.A. Filosofia / Arquitetura
Av. Dom José Gaspar, 500 - Coração Eucarístico


PUC MINAS - São Gabriel
Rua Walter Ianni, 255 - São Gabriel


Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)
Praça da Liberdade, s/nº - Funcionários

UFMG
Livraria / Faculdade de Educação (FAE) / Faculdade de Letras (FALE) / Faculdade de Letras (FALE) - Diretório Acadêmico / Escola de Belas Artes (EBA) / Escola de Belas Artes (EBA) - Diretório Acadêmico
Av. Antônio Carlos, 6.627 – Pampulha


Livrarias
Livraria Acervo
Rua Itajubá, 420 – Floresta

Livraria Eldoraldo - Edifício Maleta
Av. Augusto de Lima, 245 – Centro


Livraria Quixote
Rua Fernandes Tourino, 274 - Funcionários


Livraria Ouvidor
Rua Fernandes Tourino, 257 Funcionários

Livraria Scriptum
Rua Fernandes Tourino, 99 - Funcionários

Livraria Travessa
Av. Getúlio Vargas, 1429 – Funcionários


Livraria Usina Unibanco
Rua Aimorés, 2424 - Santo Agostinho


Livraria Van Dame
Rua Guajajaras, 505 - Centro


Bares e Restaurantes

Cantina do Lucas - Edifício Maleta
Av. Augusto de Lima, 245 - Centro


Casa dos Contos
Rio Grande do Norte, 1065 – Funcionários


Cyber Café Kablua
Guajajaras, 416 - Centro

La Grepia
Rua da Bahia, 1196 - Centro

Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais

Palacete Dantas
Praça da Liberdade, 317 - Funcionários


Sindicato
Sindicato dos Jornalistas
Av. Álvares Cabral, 400 - Centro


Outros

AB Comunicações
Rua Pernambuco, 797 – Funcionários


Academia Mineira de Letras
Rua da Bahia, 1466 – Lourdes


Palácio das Artes
Portaria/ Biblioteca
Av. Afonso Pena, 1.537 – Centro


Rádio Inconfidência
Av. Raja Gabália, 1666, Luxemburgo


Rede Minas
Nossa Senhora do Carmo, 931 - Sion

16/03/2010

4'33''

4'33" é uma canção composta por John Cage depois de estudos físicos referentes às propriedades do silêncio. Meu conto laureado no Prêmio UFES de Literatura 2009/2010, além de inspirado nessa música,  leva o mesmo título.