07/07/2011

amor é onde nós nunca estivemos: [n°4 cansaço ]

Com uma das mãos arranco seu vestido, num gesto que transita entre a brusquidão e o cuidado. Beijo seus pés, panturrilhas, e as coxas: como se esculpisse seu corpo nossos corpos se roçam abruptos e ritmados, cruzam-se os membros arrancando o lençol sem consciência, empurrando os cobertores para o chão onde descansam também nossas roupas abandonadas, como que para sempre, feito trapos de repente sentenciados obsoletos. E a luz de um céu laranja ganhando força cai sobre o leito como se nos abençoasse. E a nudez das suas costas cheias de pintas é alguma coisa como a palidez magnetizada da Lua irradiando silêncio, com o ar revestido da mudez que diz, nessa linguagem concreta, ancestral e originária, da contemplação desmedida que me amarra à deriva como se flutuasse no teto do quarto e observasse desde cima, sem vertigem, a distância potencializada que oferece um tipo de olhar regado por detalhes; seu rosto caído no travesseiro branco amanteigado e os cílios ainda cobertos por rímel recortando os olhos voltados para dentro de si mesmos, as mãos próximas dos seios tensionados pela brisa que vem da janela que não nos preocupamos em fechar quando aqui entramos, arrancando as peças de roupa com brusquidão, cuidado, sede. E como você mexe o dedo mindinho da mão esquerda enquanto o colo se dilata respirando lenta e progressivamente, com o tempo sentenciando finalmente à maneira que deve sentenciar; e seus pés recolhidos, bem juntos, um sobre o outro, remetendo à fragilidade da triste beleza dos pés do crucificado, os joelhos curvados, escapando do cobertor que te cobre o ventre ainda aquecido e úmido, e esse úmido que é tão seu como meu, compartilhado, exalando o odor ainda fresco, que agora nos inunda como se tivéssemos nos banhado nas águas antigas de um rio sagrado, e que é o mesmo cheiro ainda impregnado à minha barba de três semanas, o mesmo gosto nos seus lábios quando os toco com minha língua; o último que sinto ao deixar o sono me arrastar de volta para cama, ouvindo a cidade se erguer ruidosa e sem razão, sempre, para soterrar o fio sonolento e silencioso da sua respiração irradiando calor próxima ao meu pescoço, que mergulha no travesseiro, entregue ao mais benigno dos cansaços, ao silêncio, ao sono. A paz, que é precária. Mas não. Não é pouco.

2 comentários:

  1. Uau! Entrei no texto e quase, com todo respeito, fui capaz de sentir o odor exalado do ventre dela...speito, fui capaz de sentir o odor exalado do ventre dela...

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oi.