24/07/2011

"Ninguém me pediu para ser um escritor"

Carver, verão de 1969, by Gordon Lish
fonte: http://thisrecording.com 
ENTREVISTADOR

Em um artigo que você fez para The Book Review New York Times você mencionou uma história "muito entediante para falar aqui", sobre o motivo de você optar por escrever contos ao invés de romances. Você quer entrar nessa história agora?

CARVER

A história "muito entediante para falar", tem a ver com uma série de coisas que não são muito agradáveis ​​de falar. Eu comentei algumas dessas coisas no ensaio "Fires", que foi publicado pela Antaeus. Eu disse que um escritor é julgado pelo que escreve, e essa é a forma como deve ser. As circunstâncias da escrita são outra coisa, coisas extraliterárias. Ninguém me pediu para ser um escritor. Era difícil tentar sobreviver, pagar as contas, colocar comida na mesa e, ao mesmo tempo, pensar em mim como um escritor, me preocupar em aprender a escrever. Depois de anos trabalhando em empregos nojentos e criando filhos e tentando escrever, percebi que eu precisava escrever coisas que pudesse terminar em pouco tempo, coisas que davam para fazer mais rápido. Eu não poderia escrever um romance, porque não podia trabalhar por dois ou três anos em um único projeto. Eu precisava escrever algo que oferecesse algum tipo de recompensa imediata, e não no ano que vem, ou daqui a três anos. Por isso optei por escrever poemas e histórias curtas. Eu estava começando a ver que minha vida não era, digamos, que não era o que eu queria que fosse. Havia sempre um vagão cheio de frustração para lidar com - querer escrever e não ser capaz de encontrar o tempo ou o lugar apropriado. Eu costumava sentar no carro e tentava escrever algo com uma almofada no meu joelho. Isso foi quando meus filhos estavam na adolescência. Eu estava na casa dos vinte ou trinta e poucos anos. Estávamos ainda em estado de penúria, tivemos uma falência. Anos de trabalho duro para quase nada, exceto um carro velho, uma casa alugada, e novos credores nas costas. Foi deprimente, eu me sentia espiritualmente imobilizado. O álcool se tornou um problema. Eu mais ou menos desisti, joguei a toalha, passava o tempo todo bebendo demais. Em parte, é disso que eu falo quando falo "muito tedioso para falar".


Raymond Carver, The Art of Fiction n º 76, entrevistado por Mona Simpson e Lewis Buzbee. In: http://www.theparisreview.org

2 comentários:

  1. Parece que a literatura transformou o Carver num animal. é o que saquei na entrevista e na foto mordidona.

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oi.