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20/03/2015

Sonhar com música

Você fica animado quando descobre que vai ter algumas janelas nesse semestre. Mas logo o ato de ter que ir até a Vila Mariana para assistir apenas uma aula na quinta-feira à noite se transforma em algo desanimador. Uma hora no nosso glorioso transporte público, com direito a baldeação metrô-ônibus. Ida e volta. Meia tonelada de combustível fóssil despejado na atmosfera. Pra nada: uma aula sobre obviedades. Mas pelo menos dá pra brincar um pouco com o Joaquim antes de sair. Além de espalhar a coleção de discos pela sala, de escolher um disco aleatório e pedir pra colocar na vitrola, e girar o volume ao máximo e colocar um carrinho pra girar em cima do disco - e depois pegar outro disco aleatório e repetir o processo - ele também me arrasta pelos quatro cantos da casa e se enfia embaixo da tábua de passar e joga os sapatos atrás da máquina de lavar. A primeira coisa que ele aprendeu a dizer foi “água”. E segunda foi “rua”. Então ele me arrasta até o trocador e pega o par de tênis e entrega na minha mão porque já aprendeu que calçar tênis é sinônimo de abrir a porta, entrar no elevador e caminhar até a portaria do prédio e ficar apontando para os ônibus que passam lá fora. Mas é só mostrar pra ele as luzes acesas lá embaixo. É um código que a gente estabeleceu já tem um tempo. Você diz que está escuro e ele sabe que se trata de banho e trocar de roupa e dormir. E por isso resiste em vir no colo. E eu preciso ir à aula.


***

Uma vantagem de sair de casa às 19h50 e pegar um ônibus no sentido do centro é que todo ônibus que passa está vazio. Contrafluxo. Nem mesmo o rescaldo daquela chuva apocalíptica do meio da tarde afeta seu trajeto. E também não há trânsito. Dá pra abrir o livro sem incomodar ninguém. O primeiro conto, Dimensões, é sobre uma garota que conhece um técnico de enfermagem um tanto quanto implicante chamado Lloyd. No começo você não sabe do que se trata, a narrativa é fragmentada, os diálogos e o discurso indireto livre parecem evitar cair no centro da questão. Como se ao mesmo tempo que tentasse se lembrar, tentasse também se afastar do que aconteceu. “Eu sei que essas palavras já estão mortas de tão gastas”, ela disse. “Mas continuam verdadeiras”.* E logo a narrativa avança e você de repente já sabe que a coisa vai terminar mal. “Doree tinha saído correndo da casa e tropeçava pelo quintal da frente, com os braços cruzados apertando a barriga como se tivesse sido cortada ao meio e tentasse se manter inteira”. Então o maluco do Lloyd, o enfermeiro, vai parar numa instituição psiquiátrica e começa a escrever umas cartas totalmente lúcidas – excessivamente lúcidas – para Doree. E Doree começa a visitar o sujeito escondido. Depois de tudo.

***

A aula é um horror. Um grande almoço de domingo. Um professor que se declara “de esquerda” defendendo a tese desenvolvimentista encarnada na construção de Belo Monte abertamente. Argumento: essas obras faraônicas são fundamentais para o crescimento do país. O que seria do Brasil sem Itaipu? Além disso: sujeitos que têm bolsa do Prouni e vivem na periferia (e que acham que programas de transferência de renda e combate a desigualdade como cotas, bolsas de estudo e bolsa família são esmola) dizendo que quem protesta durante a semana é vagabundo. “O protesto foi domingo porque a gente trabalha”. Outro sujeito dizendo que o imposto sobre heranças não funciona em lugar-nenhum. E que essas Ongs e entidades, sob pretexto de defenderem os direitos das pequenas comunidades tradicionais que serão afetadas pela construção de hidroelétricas, atrapalham o desenvolvimento do país. Uns ignorantes. Uns atrasados. Um estorvo para o crescimento da nação.

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No metrô uma amiga da sala me conta sobre seu TCC. Um documentário sobre pessoas que perderam a visão. Ela diz que já tem alguns personagens, inclusive um casal de cegos que vive juntos há muitos anos. “E eles sonham?”, pergunto. “Claro”, ela diz. Depois eu falo daquele conto famoso do Carver, Catedral, onde um cara fuma um baseado com um cego e depois tenta descrever para o cego como é uma catedral. O assunto acaba aí. Não tenho muito o que dizer da monografia que estou escrevendo sobre Memórias do cárcere. Exceto o labirinto kafkiano em tentar e sempre fracassar em marcar um horário com o meu orientador. Desço na estação Conceição e pego o ônibus. Consigo terminar de ler o conto da Alice Munro. No meio da Cidade Bagdá, onde tem um barzinho que funciona até tarde, uma viatura da ROTA está estacionada. Olho de relance e vejo três caras encostados na parede tomando geral. Dentro do bar um policial com fuzil apontado para três homens de costas no balcão. “Rota na rua. Bandido bom é bandido morto”, diz o motorista do ônibus, imitando o timbre de voz do Dr. Paulo. A coisa é tão assustadoramente previsível que um arrepio escala minha coluna e estoura na nuca. O cobrador ameaça argumentar: “às vezes é até trabalhador”. Mas logo desiste. Um passageiro próximo da porta da frente – um senhorzinho aposentado de boné que sempre desce naquele ponto, sempre com uma sacola de pão: “Esse era bom. Rouba, mas faz”. O motorista abre a porta e repete: “Rouba, mas faz. Rota na rua”.

***

“Rua”, segunda palavra que meu filho aprendeu a falar. Então você resolve descer no ponto depois daquele em que desce todos os dias. Dá uns poucos minutos de diferença, mas pelo menos é mais movimentado, mais iluminado. Uma mulher que vem na minha direção, em sentido contrário, ao longe, atravessa para o outro lado da rua, no breve intervalo entre os carros. Acendo um cigarro. E sigo imaginando os sonhos de um cego. De um cego de nascença. À noite é arrastado para outro tipo de escuridão. Uma escuridão menos opressora. Tranquila. Um sujeito que nunca viu uma imagem. Deve sentir uma forte vertigem. Pesadelos com cachorros e cobras. Os solavancos e empurrões de um bando de estranhos. Vozes que giram ao seu redor e ele de repente vai ao chão com a certeza de enfiar a cabeça num toco cheio de pregos. Pisar em cacos de vidro. Os móveis da casa trocados de lugar a todo momento, como se tivessem pernas, como se fossem um bando de espíritos zombeteiros. Não sei. Imagino. Quando o sonho é bom deve sonhar com música.

23/10/2014

Galos, quintais e as casas de sete dígitos



Como hábitos tradicionais e saudáveis só adquiriram valor e status depois que passamos a pagar — e caro — por eles






Dia desses fomos até a Zona Cerealista, no Brás, próximo ao Mercadão. É um conjunto de ruas cheias de armazéns que vendem todo tipo de coisa a granel. Depois que o Joaquim nasceu, a gente tem se esforçado em abastecer a casa com coisas saudáveis. Nem sempre é fácil. O preço dos orgânicos e integrais é bem mais salgado que os industrializados. E acho que nunca vou me acostumar com as cifras exorbitantes do quilo de chuchu – um troço que eu sempre comi de graça.

Cresci numa casa com um quintal repleto de galinhas e árvores frutíferas: goiaba branca e vermelha, jabuticaba, três qualidades de laranja e mexericas, gigantescas bananeiras com cachos despencando. E o abacateiro robusto com uma casinha de João de Barro mal ajambrada nos galhos. Sem contar os vastos canteiros de hortaliças que meu pai cultivava desde sempre. Couves com folhas que davam para fazer um chapéu.

Tive vários cachorros e gatos, que conviviam em harmonia com porcos e pintinhos. Era quase um sítio.

Meu pai também costumava arrendar terrenos e plantar feijão, arroz e milho. Lembro dele com o típico chapéu de palha na cabeça batendo feijão no fim de semana. A vara estralava e os grãos se soltavam na lona. Depois ele varria tudo e passava na peneira e guardava tudo numas latas de metal de vinte litros. Muita gente fazia o mesmo. Acho que a prática não deve ter desaparecido de todo, mas no meu tempo de criança era comum andar pela rua e ver feijão secando na frente de inúmeras casas. E mesmo nos armazéns e mercados havia arroz e feijão a granel, tudo produção local, que a gente comprava com caderneta. Não sei se existe mais.

Até a carne do açougue vinha de um matadouro que ficava ali perto de casa. As vacas eram conhecidas – se é que você me entende.

O tempo foi passando, chegou o micro-ondas e as prateleiras dos mercados ficaram mais coloridas e variadas – a geração do meu pai foi logo seduzida pela publicidade das nítidas imagens da TV com Parabólica.

A ilusão de maximizar o tempo. O tempo economizado é gasto trabalhando mais para pagar as coisas que nos prometiam garantir mais tempo livre.

Sem querer parecer alarmista e romântico: a ideia de progresso e cidadania ancorada nas ilusões propagadas pelo consumismo ainda vai nos levar ao fundo do poço.

Ao invés de criar galinhas e matar na hora, de reservar os restos de comida para engordar porcos, passaram a comprar carnes e frutas industrializadas. Acho que em algum momento comer frutas orgânicas, diretas no pé, ou galinhas caipiras mortas na hora, manter um chiqueiro no fundo do quintal, era sinal de atraso e pobreza. E ninguém quer parecer pobre e atrasado. Era por isso que quando recebíamos convidados comprava-se Coca, ao invés de fazer um suco com laranja sangue de boi. Ou se comprava um frango anabolizado e peças de porco embaladas a vácuo. E as alfaces do mercado eram tão mais robustas, os tomates inchados e uma das mexericas da gôndola davam três daquelas que tinham no pé de casa. O gosto é insosso, mas o importante é agradar os olhos com o volume.

Numa cidade como São Paulo, para o Joaquim se alimentar como eu me alimentava na minha infância no interior de Minas, com orgânicos e integrais, eu teria que ganhar na Mega-Sena. Produtos orgânicos custam até 600% mais caro que o similar industrial. E não dá pra pensar na possibilidade de agricultura doméstica: uma casa com quintal do tamanho da casa dos meus pais, aqui em São Paulo, dependendo do lugar, chega fácil aos sete dígitos.

A varanda do apartamento que moro hoje mal cabe três pessoas. E a ainda tivemos que colocar uma tela de proteção, por causa do bebê. Tela na minúscula varanda e em todas as janelas. A vista dá de frente para uma trinca de outros prédios. Quadrados, cinzas, todos iguais. Para o meu desespero, o síndico mandou um punhado de árvores pro chão no mês passado. Mas ainda ouço uns passarinhos cantar lá fora, nas poucas árvores que sobraram. Dia desses tive a impressão de ouvir um galo cantar. Já passava das seis e meia da manhã e eu fumava o primeiro cigarro do dia. Ouricei os ouvidos e os olhos flanaram no horizonte. Um avião passou. Sirenes ao longe. Carros de farol baixo e manobrando no estacionamento lá frente. Joguei o cigarro fora —  ainda parei por um tempo — compenetrado. E nada. Pura miragem. Delírio.


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Obs: Acho que vou migrar o blog pro Medium. Por enquanto, ainda vou postando aqui e lá.

08/09/2014

Mulher de branco


Detalhe: “Alexandrina e sua Cidade”, de Carybé (1944),  (Foto: Divulgação)


Sábado passado fomos até o Tomie Ohtake ver Histórias Mestiças. Recomendo fortemente. Com a curadoria de Lilia Schwarcz, a exposição é ótima, reúne grandes obras, destas que a gente vê nos livros de histórias e literatura. O único problema é que não há nenhum lugar para sentar. É normal em exposições, mas não facilita a vida de casais com bebê de colo.

Com os joelhos frouxos, encontramos um minúsculo banco praticamente escondido sob as escadas, na saída do restaurante. Já tínhamos almoçado. Paramos antes num restaurante mineiro próximo de casa. Desfiei exaustivamente uma lasca suculenta de picanha para o Joaquim. E ele comeu todo o arroz e o purê de batata e o feijão e o angu que aqui eles fazem temperado. Era por isso que estava com sede e a Quel retirou o copinho da bolsa e começou a encher d’água. Havia pouca gente na exposição, o que me deixou intrigado. O acervo conta com obras de Adriana Varejão, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Portinari. Mas talvez ver esses troços ao vivo seja novidade apenas para mim, um caipira parcamente ilustrado.

Meus olhos flanavam ao longe, pensando em boletos, entrevistas de emprego e o maldito TCC. Logo aquele sábado terminaria e seria domingo já soterrado pela segunda. Essa ansiedade inevitável em aproveitar o fim de semana.

Surge uma família, saindo do restaurante. Um casal grisalho e um outro casal mais jovem, na faixa dos trinta e poucos. Eles avançam à frente naquele andar de leseira e bucho estufado, os dentes branquíssimos e as canelas brancas sob bermudas cáqui. Não olham para trás. No rastro vem uma senhora vestida de branco, cabelo crespo amarrado num coque e monitorando de perto os passos destoados de uma menina de pouco mais de um ano. 

Os dois casais à frente riem e conversam tão baixo que as bocas se movem em silêncio como peças publicitárias de banco sob efeito da tecla mute. A menina dá um giro e anda na direção contrária e fala alguma coisa. Apenas um dos homens olha para trás, de relance, mãos enfiadas nos bolsos, como quem olha um ônibus passar na rua. A mulher de branco tem um semblante alegre e cansado, as mangas arregaçadas, o suor lustrando a face. Está próxima o suficiente da criança para evitar um tombo. Pega a menina no colo e elas caminham na direção de uma vitrine. Elas conversam e riem e trocam beijos no rosto e se afastam cada vez mais da família, já no pé das escadas. O homem de bermuda olha para trás, como quem procura o cachorro fora da coleira. Faz um maneio de cabeça e começa a subir os degraus. A mulher de branco segue atrás. A menina mexe no cabelo da mulher e parece cantar. No alto da escada, o homem de bermuda espera, olhando de cima para baixo. Tira as mãos dos bolsos. Quando elas chegam ao topo, o homem estica os braços. Mas a menina se contorce, vira de costas, e se agarra à mulher de branco. Agarra. Chora. E balança os braços. O homem sorri. Enfia as mãos nos bolsos outra vez. E segue à diante.


09/08/2014

Primeira vez

Arquivo pessoal

Não sei com você, mas comigo é assim: o dia passa cada vez mais lento e os anos cada vez mais rápido. O relógio custa a girar até meio-dia, depois meia eternidade até o final do expediente. Mas ontem mesmo era janeiro e agora o calendário na geladeira me informa que estamos já entrando no fim da primeira quinzena de agosto. 

Tempo é um troço estranho.

Mas eu estava pensando essas coisas porque segunda já faz dez meses que meu filho nasceu. Parece que foi ontem que a Raquel e eu chegamos à maternidade, um tanto quanto amortecidos e anestesiados pelo nervoso. Ela participou de vários grupos, eu vi algumas palestras, pesquisamos muito a respeito do parto humanizado e visitamos uma meia dúzia de médicos e maternidades. Nosso desejo sempre foi fazer as coisas da melhor forma possível. Estávamos focados. E realmente tudo correu perfeitamente bem no parto, que foi natural, sem qualquer intervenção - até um pouco além das nossas expectativas. 


Claro que os dias na maternidade são um conto de fadas. A gente acha que o parto é o maior desafio e quando ele acaba parece que tá tudo resolvido. Ainda mais com refeição quentinha servida de três em três horas. Enfermeiras que trocam as fraldas do bebê e dão banho. Sem contar nas arrumadeiras que limpam tudo e só faltam nos servir cerveja com picanha. E a quantidade constrangedora de presentes chegando? Dá até vergonha, mas a gente acaba aceitando que é uma necessidade da nova família viver esses primeiros dias assim. É só curtição. Mas quando voltamos pra casa, são outros quinhentos. Descobrimos que o parto é só uma ínfima parte de todo processo. E nunca se está preparado para uma coisa como essa: éramos dois, agora somos três. Acompanhar o pré-natal e o parto e tentar se preparar para a paternidade é o mínimo a fazer. Só não evita o desespero em noites sem sono diante da exigência de uma dedicação integral. A logística das mamadeiras, das fraldas, do colo. E o mais duro é tentar reconstruir aos poucos aquela vida de casal de antes. Uma entrega que talvez você nunca tenha imaginado dispôr. Mas precisa ter. Como todas as grandes coisas que valem a pena nessa vida, essa disposição não tem fórmula. Tem que aprender por si mesmo.

***

Dia desses, o Joaquim ficava virado de costas como uma tartaruginha batendo as perninhas de ponta cabeça. Agora engatinha pra todo lado e já cai os primeiros tombos. Passa rápido. E a coisa que mais me surpreende é o modo como a relação entre pai e filho é construída e solidificada ao longo do tempo. Parece óbvio. Mas não é. Num primeiro momento, é pura emoção. E a prevalência de um instinto muito forte de proteção e acolhimento. À medida que os meses passam, o vínculo fica mais profundo e complexo. É natural que seja assim. Não existe amor a priori. Toda relação precisa de tempo para tecer conexões mais complexas, sedimentar as experiências compartilhadas. Precisa sobretudo de memórias em comum, de reconhecimento. E quanto maior a convivência, maior o vínculo. Isso vale para os dois lados.

Daí que o desafio da nossa geração é passar mais tempo com os filhos. Trabalhando o dia todo e depois encarando uma jornada noturna na faculdade, é difícil. E eu sou totalmente contra essa tendência de despejarem os filhos na casa dos avós de segunda a sexta, enquanto os pais fazem frila de pais aos finais de semana. Há casais que abandonam empregos ou mudam de ramo ou contratam babás ou colocam os miudinhos no berçário. É uma sinuca de bico. O que é o melhor? Não sei.

Domingo é meu primeiro dia dos pais e o tempo é a única coisa que me preocupa agora. Mas espero que faça sol e que meu time saia da lanterna. Espero que possamos todos sobreviver a esse bombardeio da publicidade infantil e não mergulhar nesse ciclo de consumismo precoce e ridículo. E também espero que os circos não acabem. E espero também ter muita paciência pra frequentar os aniversários de outras crianças cujos pais sem noção marcam as festas para às 18hs. Espero ser um bom pai, desses que encontram o equilíbrio entre a tolerância e a severidade. E também espero que amanhã o feijão da sogra não esteja salgado. E que tenham comprado uma caixa de cerveja extra.

Tudo bem ganhar três pares de meia.

24/07/2014

Fotopintura




Hoje voltando de ônibus me lembrei de uma notícia que li algum tempo atrás. Um senhor de oitenta e seis anos que cometeu suicídio, saltando da janela do seu apartamento. Não lembro da cidade ou do ano, ou do andar, mas lembro que fiquei um tanto quanto impressionado.

Em tese, além dos oitenta e tanto anos não há muito o que se esperar. Já se enterrou o pai, mãe, meia dúzia de amigos, o amor, sete gerações de gatos e quem sabe um ou dois filhos. O mundo que você nasceu, cresceu e envelheceu não existe mais. O pior já passou. 

E a despeito do corpo que apodrece, do abandono dos parentes, da catarata e da osteoporose, das reprises de novelas e programas de humor no meio da tarde, você não está preso a nada. Tanto faz: livre. Daí que é meio chocante um sujeito saltar de uma janela já no crepúsculo da vida.

Não é preciso viver oitenta e tanto anos pra perceber que os dias nos tornam mais duros. Não falo de experiência, apenas de aridez. Essa é a verdadeira serenidade. Esse músculo no peito fecha-se num único calo.

***

A minha avó arranjou um namorado depois do sessenta. Já estava viúva há trinta anos. Namorava escondido dos filhos, dos netos. E até da fotopintura do meu avô no meio da sala. Quando o namorado chegava, ele jogava um pano por cima do retrato.

O namorado era um sujeito do século passado, com calça de brim e um chapéu miúdo na cabeça, uns vinte anos mais novo. Lembro dele caminhando numa toada mansa, com roupas escuras num solzão de estalar mamona. Exalava um odor de guarda-roupas trancado e tinha muita dificuldade pra entender qualquer coisa que não fosse explicada aos berros. Era um bom sujeito. 

O namoro durou quinze anos, um romance moderno, em casas separadas. 

Segundo consta nas fofocas da família, o homem dormia por lá toda madrugada. E escapava na surdina, antes que o sol apontasse. Apesar do espírito adolescente, era uma pessoa de bem. Queria casar e até visitou meus tios, escondido, pediu permissão, consentimento. 

Queria tudo às claras. Regularizar-se junto à família

Mas minha avó começou a reparar que o colchão do lado onde o namorado dormia estava começando a afundar. Ao invés de trocar o colchão, terminou o namoro. O sujeito ficou inconsolável. Abandonado assim, de um dia pra outro, por nada. Sumiu por um tempo e depois só lembro de vê-lo anos depois no dia do enterro. Soluçando, em silêncio. 

Meu avô deve ter ficado feliz. Nunca mais precisou dormir debaixo do pano.


28/04/2014

Dança das mãos


Arm in Arm (A Collection of Connections, Endless Tales, Reiterations, and other Echolalia)
by Remy Charlip, Parents' Magazine Press, 1969 


Subjetividade é apenas um nome laico para a alma.

Quando as pessoas estão falando de subjetividade estão na verdade falando de uma alma imanente e perecível. Uma dimensão etérea com prazo de validade curto. O que existe de fato são centenas de bilhões de conexões neurais que organizam o cheiro e o sabor e o calor e o frio e as decepções e as milhares de imagens captadas pela retina e também a tabuada que você nunca decorou. Uma monstruosidade de impressões somadas a um universo ainda maior de memórias aleatórias e melhoradas a nosso bel-prazer através do tempo. Tudo isso acontecendo simultaneamente é o que nos ensinam a chamar de self

Elucubrações bestas. Bobagens.

À medida que vejo meu filho crescer essas noções mal ajambradas desaparecem completamente.

Ele fica sozinho no quarto olhando os galhos da árvore balançar lá fora. Eu fico na porta do quarto olhando e tentando imaginar se aos seis meses de idade ela já sabe que está aqui e que há um mundo além daquela janela. Um mundo onde homens de cinquenta anos ouvem boleros em espanhol no ar condicionado do Citroen prateado parados no trânsito e praguejando contra as faixas de ônibus. Fico imaginando se meu filho já tem consciência da extensão do próprio corpo. Se sabe que a mão que ele leva sempre à boca é também ele ou aceita de bom grado a companhia desse outro ser misterioso e amigável. Fico imaginando se já produz divagações no nível mais primário: prazer, fome e sono. 

Às vezes ele murmura à noite como se sonhasse. 

Nessa tenra idade, não dá para usar a própria experiência como material de análise. Na primeira lembrança que tenho da minha própria vida eu já andava e falava. E talvez seja isso: a memória – acessível – só passa a existir a partir da linguagem abstrata. É a linguagem simbólica que organiza e orienta nossa experiência no mundo.

Uma amiga psicóloga me disse uma vez que mesmo as sensações mais concretas como fome ou frio acontecem fora da subjetividade da criança. Achei a observação sensacional. A fome seria como um trovão distante, ela disse. Uma coisa que vem e vai embora totalmente além do seu controle. Como uma tempestade.

Dia desses, entrei no quarto ele estava na cama sozinho. Olhava o vento balançar os galhos da árvore. Eu o chamei por duas vezes. Sempre que eu o chamo ele logo me olha de volta e sorri. Mas desta vez não foi assim. Continuou como estava, contemplando a árvore balançar. Eu o chamei outra vez e mais outra. E nada. Olhos fixos nas folhas, o vento empurrando os galhos, como que se divagasse sobre o céu e a terra.

Uma das brincadeiras que ele mais gosta é a dança das mãos. Quem inventou o nome foi a Quel, mas deve ser um hábito universal. Trata-se basicamente de ficar mexendo as mãos e cantarolando músicas inexistentes diante dos olhos do seu filho enquanto ele ri e mexe os bracinhos desesperadamente feito uma tartaruga de bruços. 

A dança das mãos requer uma resistência grande dos pais. Pais com LER (Lesão por Esforço Repetitivo), devem praticar com moderação. Crianças nessa idade estão na fase no eterno retorno. Exigem uma disposição infinita dos pais para a repetição e criatividade nas coreografias e alternância de ritmos. Ainda não encontrei cursos sobre a dança das mãos.

A solução é fazer pequenas pausas durante o procedimento. E é isso que eu faço. 

Hoje, durante uma dessas pausas, aconteceu uma coisa que me deixou espantado. Meu filho ergueu as mãos e começou a mexer os dedos na frente dos olhos. Eu fiquei de lado, só olhando. Ele mexia os dedos de modo desajeitado, todos de uma vez. Tinha o cenho franzido e olhava para mão direita e depois para a esquerda. Mexia os dedos, virava as costas da mão, virava o corpo de lado e voltava na mesma posição. Eram uns movimentos tímidos e rústicos e sem pressa. Um movimento de exploração e reconhecimento. Eu fiquei ali deitado. Sei lá por quanto tempo. Olhando aqueles dedinhos miúdos dançar e dançar.

15/11/2013

Sem pressa

Olhando para trás, esses 30 dias em casa se afiguram como um mísero gif de seis segundos e meio de memória, oscilando entre o resort das fraudas, a cachoeira das mamadeiras e a exploração do enigma de cada novo choro. 

***

Desço do ônibus por volta de 23h15. Há sempre meia dúzia de moleques com garrafas de bebidas e skates, debaixo da marquise de um galpão abandonado. Às vezes, dá para ouvir os acordes de um violão. Barulhos de garrafas. Evito acender um cigarro, abaixo a cabeça e sigo em frente.


***

A precariedade da minha memória às vezes me espanta. Esforço-me para tentar lembrar o conteúdo de duas aulas atrás. Falho com vigor. Esqueço os nomes de filmes que vejo. O enredo do livro desaparece diante dos meus olhos. É o cansaço. Talvez.

***

Segunda-feira eu volto a trabalhar depois de 30 dias de férias. É sempre bom. Mas estes últimos dias acabam por evocar a ansiedade de um grande e único domingo. Um domingo do tamanho de uma semana. E a cabeça querendo penetrar nos grandes mistérios da vida: qual será o saldo do meu FGTS? O que é o tempo? É hora de começar uma previdência privada?

***

PHOTOGRAPH BY J. BAYLOR ROBERTS, NATIONAL GEOGRAPHIC

É sempre uma dificuldade enorme pegar o ônibus na estação Vila Mariana. A boca do metrô vai cuspindo cada vez mais gente e parece que todo mundo sempre quer pegar o mesmo ônibus. O meu ônibus. Às vezes falta ar. No começo, eu descia na Ana Rosa, uma estação a mais, só para pegar o ônibus vazio. Mas para isso é necessário acordar mais cedo. E mais cedo que isso é impossível. Dia desses, vi um homem barbudo e descalço carregando uma boneca. O homem simplesmente ia em frente. A boneca estava nua e ele usava um trapo vermelho de camisa e com os botões arrebentados. Segurava a boneca no colo, feito criança. 

***

Sexta-feira passada havia um homem de uns quarenta anos no estacionamento do Extra, sozinho, manobrando um carrinho de controle remoto. Era quase 22h e havia poucos carros por lá. Talvez estivesse testando – coisa do tipo – antes de levar para o filho. Mas o fato é que o homem continuava lá, sozinho, fazendo o carrinho dar voltas e voltas, e mais voltas e voltas. Sem pressa. Ele sorria.


28/10/2013

Registro

Havia um cartório no segundo andar da maternidade na qual meu filho nasceu. Meia dúzia de pais com senhas na mão e um típico funcionário com carimbo, repetindo exaustivamente as mesmas sete instrutivas frases a cada novo pai que assumia a cadeira. 

Quando ele me entregou a certidão para que conferisse, um arrepio me escalou a espinha. Demorei-me um pouco olhando o documento, olhando a secção dos avós paternos e maternos. Lendo e relendo, como que diante de um enigma. “Algum problema?”, ele perguntou. Não havia nada de errado, não oficialmente. “Tudo certo”, eu disse. Não sabia que esse tipo de informação constava na certidão – e de fato nunca compreendi o sentido concreto daqueles termos: avós.

Exceto por minha avó paterna, que morreu tem uns quatro anos, não sei os nomes dos meus avós de cabeça. Parece descuido ou frieza da minha parte, mas a verdade é que isso (avós) nunca teve importância na minha vida. Não tive a oportunidade de conhecê-los. E não dá pra sentir falta de alguém que nunca esteve por perto. É natural.

Essas coisas eu pensei do lado de fora da maternidade, fumando um cigarro. Pensava isso na primeira camada de pensamento (nunca tive contato com meus avós, é natural não saber o nome) – mas uma corrente paralela de pensamento, mais silenciosa, mais abaixo, como as correntes ao fundo dos rios, ocupava-se de vasculhar cada gaveta neural, milímetro a milímetro, fio a fio, à procura de um nome ou apelido que fosse. 

E não havia nada lá.

Uma coisa desde sempre me foi clara: para o bem ou para o mal, a ausência promoveu um sentimento de não-identificação com qualquer linhagem anterior – como se não existisse. Um desprendimento quase que total da noção de ancestralidade. É como se o mundo (meu mundo, família) tivesse começado ali mesmo, comigo. Isso agravado pelo fato de ter nascido em um estado e ter crescido em outro. Uma liberdade sem o peso das pressões e determinações impostas por uma linhagem qualquer, mas também uma liberdade desemparada, sem raízes, um espírito estrangeiro, desterrado. 

Antes de voltar para o quarto, passei no restaurante: senhoras e senhores de branco esfregavam o jaleco à beira das saladas e do arroz soltando fumaça. Enquanto pedia um café, pensei que o investimento robusto em álcool em gel era inútil diante daquele hábito bizarro. Nada faz sentido.

Pelo menos o café, que vinha direto da máquina, parecia imune. Optei por usar o VR. Estava cheio. Já que agora somos três bocas lá em casa, qualquer economia é bem-vinda. Só uso o VR para almoçar, ao contrário dos meus colegas que costumam usá-lo no happy hour do Outback, pizza em casa, balada na Augusta, para comprar cigarro e caixa de cerveja em lata. Eles ficam sempre escandalizados quando digo meu saldo. Mas errei a senha. Uma senha que uso exaustivamente há oito meses, todos dias. Desapareceu completamente da minha cabeça, como se nunca houvesse existido. Errei três vezes. "Passa no débito", eu disse, antes de bebericar o café. E nada melhor que um café para afastar uma contrariedade.  

05/08/2013

Biologia elementar


Da mesma forma que tirar dez em Física Clássica não faz de ninguém um bom goleiro, centenas de aulas e leituras de Biologia elementar não afastam meu espanto diante de um fato: há vinte cinco semanas uma pessoa de verdade está crescendo na barriga dela.

Tubo bem que o laboratório de ciências da escola era uma catástrofe. O experimento mais complexo – além de germinar feijão com algodão molhado – resumia-se a olhar gotinhas de sangue dalgum aluno mais corajoso no microscópio enferrujado que ampliava umas dez vezes os glóbulos vermelhos. Bem aquela frase do físico alemão de cabelos espetados sobre a importância da imaginação para a Ciência. Na falta de experimento concreto, restava preencher as lacunas com devaneios.

Viagem Insólita, arte by Brandon Schaefer 

Mas há que se fazer justiça – havia o livro (que a gente tinha que comprar, embora a escola fosse pública) e alguns vídeos pedagógicos cuja trilha sonora era composta por sintetizadores de sonoridade melancólica teclado Cássio, timbre de games de 16 bits, Stay On These Roads do A-ha versão fita K7, alguma coisa assim. Para superar a falta de infraestrutura, D. Maria, excelente professora, além de desenhar uma célula completa com giz colorido na lousa, costumava gravar no vídeo cassete reportagens especiais do Fantástico ou documentários da TV Escola (leia-se docs da BBC e National Geographic dos anos 70 e 80 reprisados com décadas de defasagem) sobre o funcionamento do sistema respiratório, cérebro, rins, dinossauros vagando pela terra devastada, a ameaça invisível das superbactérias, Darwin observando pássaros.

Na era pré-internet, qualquer coisa que fosse além de uma fita do Telecurso 2000 já era lucro.

Vendedores de enciclopédias baratas e jogos paradidáticos faziam a festa. Roletas com grupos, famílias, filos e subfilos que iam do vírus aos macacos, das amebas à jararacuçu. Lembro como se fosse hoje de um esqueleto de papelão de montar com cola e tesoura sem ponta que pendurei na porta do guarda-roupas. Acordei no meio da noite e levei um baita susto diante daquele vulto branco, ali parado com os braços tortos, querendo me surripiar a alma.

Todo conhecimento humano acumulado durante milênios – passado de geração em geração através de narrativa oral, monges copiadores, da imprensa, dos livros, bits, constantemente reformulado por homens solitários trancafiados há três dias sem banho em porões de castelos, nerds insones financiados por fundos de pesquisa sete vezes maiores que o PIB do Uruguai, então organizado no funil do currículo sistematizado para terminar no meu caderno e na minha cabeça – não adiantaram de nada.

Tem uma pessoa de verdade crescendo na barriga dela. E a perspectiva do discurso científico elementar é incapaz de construir uma explicação satisfatória.

Vejo e revejo cada um dos ultrassons, desde o primeiro quando não passava de um feijão, até o último com efeitos em três dimensões, com as expressões e a mão coçando o rosto, mas não adianta. Não dá para entender.

E mesmo a palavra milagre, no fim das contas, é só um nome. Uma metáfora precária, incapaz de cobrir esse espanto abissal, essa sensação de pequinês diante da vida.

31/05/2013

"E aí, como vai a barriga?"

Colourful Ensemble (1938) (2), Wassily Kandinsky


Agora, quem manda lá em casa é a barriga. 

Quando alguém nos visita, todo mundo só quer saber dela. "E aí, como vai a barriga?".

Oriunda de uma hierarquia cujo critério não responde à cronologia, ela chegou por último e já botando moral. Já de cara, cortou o álcool, carne de churrasco e o meu cigarro – seja o frio que for – só na sacadinha. E não se esqueça de lavar as mãos ao voltar.

Segundo a OMS – representada pelo ilustre farmacêutico da farmácia da esquina – o teste tem de ser feito com a primeira urina da manhã. E foi assim a chegada definitiva da barriga – embora já houvesse suspeitas – um teste de farmácia às 5h15 da madrugada.

Ainda meio cético, e fundamentalmente empírico – tive de dar uma olhada na barriga, dar uma alisada na barriga e ver se era aquilo mesmo. Embora não seja especialista no assunto, afinal é a primeira barriga – constatei perplexo: sim, de fato, é uma barriga.

E com barriga ninguém pode. Minhas merecidas férias, agendadas para julho, tiveram que ser postergadas sem choro nem vela para o longínquo mês de novembro. E a sonhada viagem a Recife – até então dona do pedaço, gestora do orçamento familiar e das decisões de se comer fora ou fazer um macarrãozinho maroto em casa mesmo – a viagem planejada desde o ano passado, já com as passagens compradas, ficou pra outra vez.

É a barriga quem cuida do cardápio. A fruteira no canto da cozinha – outrora guardava um maracujá solitário, um mamão eternamente verde e meia dúzia de bananas prata – agora vive transbordando mexericas, laranjas e melancias de dois quilos e meio. E faz urrar o liquidificador logo cedo, para o terror dos vizinhos, dois copos de suco verde.

Pelo menos, no que tange as burocracias, sob o respaldo da Lei, a barriga pode furar filas.

Ao invés dos célebres perfis e jornalismo literário da Piauí, agora só leio as dicas imperdíveis da revista Crescer. Nas idas à Livraria Cultura, a seção de literatura não é mais prioridade. Subimos para o segundo piso e saímos com a sacola cheia de livros de capa dura, cheios de fotos, escolhidos em função da barriga.

Mal chegou, a barriga está cheia de presentes. Das cunhadas, sogras, tios e primas. É toalhinha bordada, sapatinho vermelho e até projeto de reforma de quarto. Só não sabemos se rosa ou azul. Talvez verde?

Nos últimos quatro meses, já visitamos a barriga duas vezes. A médica disse que está tudo bem, o que dá certo alívio, embora eu sabia que, daqui pra frente, a barriga só vá crescer e impor mais demandas. A vaidade da barriga exige cremes de todo tipo. Há boatos científicos de que a barriga já houve música. E logo em breve, vai começar a mexer.

Mas a demanda mais recente é conversar com a barriga. E é uma coisa meio doida conversar com a barriga.

Apesar da timidez, tenho praticado. Antes de dormir, dou uma escorregada por debaixo da coberta, e fico frente a frente com ela. Faço um carinho primeiro, para aliviar a tensão. Ela permanece ali, imperscrutável, blasé, toda cheia de si. Falo o que me vem à cabeça, sem pensar muito. Às vezes sobre o futuro, noutras vezes uma piada, ou só barulhos cantarolados. A barriga balança com as risadas. Está tudo bem. Dou um beijo, bem abaixo do umbigo, e vou me deitar em paz.



03/12/2012

Turismo



Primeiro: placa marrom com desenho preto de traços rupestres aponta pra uma entrada à esquerda: Gruta do Anjo. 

Segundo: imagem mental de algum anjo de nome Gabriel – ou Rafael – que revelasse intricadas mensagens apocalípticas a três nobres crianças interioranas, nalguma tarde obscura de um passado não menos obscuro. 

Mas os devaneios logo se dissiparam. 

A pousada – também do tal anjo – recepção infestada de banners, loja de souvenires, causaram-me uma ponta de angústia. 

Logo identifiquei: berrante inépcia em praticar o vulgo turismo. Consumir a paisagem, o hábito, “a cor local”. 

Assim como um shopping, uma cidade turística é também organizada com um único propósito: consumo. E não me agrada essa sensação de ratinho percorrendo a esteira do consumismo natureba. 

Mas tudo bem. 

Terceiro: pra visitar a gruta, com direito à passeio – nesse aparato tão Caxambu – o pedalinho, era coisa de cinco contos por cabeça. 

Barato, até. 

“Mas o sinal do cartão não pega aqui”, disse o funcionário de topete e camiseta branca. 

Boa desculpa pra abortar a empreitada, eu pensei. 

E também pensei que seria necessário voltar 3 km na estrada, ir até o centro da cidade, caçar um caixa eletrônico, digitar senha, sacar dez contos. Trabalho moroso demais pra um final de semana concebido como um intervalo sabático em meio ao ruído dos dias, fuga de atribulações e contratempos, escapar da esteira do cotidiano, o mundo é moinho, etc. 

O melhor era desistir. E foi isso que a gente fez. 

Mas a Quel e eu tínhamos visto uma dessas fotos bem esculpidas no Photoshop: a gruta exalava aquele ar esnobe de paraíso pseudo-desconhecido, águas verde-esmeralda cintilando sob o sol, que pauta o Globo Repórter dezessete vezes ao ano. 

Revirei os bolsos. 

E por sorte – ou azar – achei vinte contos. 

Reserva estratégica dos cigarros, por conta do hábito larápio de alguns mascates contemporâneos, de cobrar a famigerada taxinha quando se paga os cigarros com cartão. Entreguei o dinheiro amaçado ao sujeito e ele me passou duas fitinhas amarelas com um adesivo na ponta. 

“É pra se diferenciar dos hóspedes”, disse. “O monitor está lá em cima”. 

Operando na dimensão dos estereótipos – como já ficou óbvio até aqui, sou um péssimo turista e um viajante medíocre – imaginei o monitor como um desses jovens garotos cuja áurea emula personagens de filme de acampamento pós-adolescente americano. Camisa cáqui, corte militar, bermudas cheias de bolsos, um cantil na cintura. Esse tipo de coisa. 

Ao pé do morro, avistei um senhor de jeans desbotado, camiseta acochada por dentro da calça – boné preto – e óculos fundo de garrafa, que cobriam metade da cara, faiscando debaixo do sol. 

Parecia mais um funcionário de almoxarifado aposentado.

Espécie de Ademir da Guia e sua ilusória câmera lenta, o monitor se moveu até nós em oito passadas que tinham o efeito de dezesseis. 

Ele estendeu o braço e disse seu nome, algo que não pude compreender. Pedi desculpas. E que repetisse, por favor. Ele apontou pra algo escrito no boné. “Eu trabalhava na recepção de um hotel, mas ninguém entendia o meu nome”, explicou. “Então achei esse boné e apaguei o ‘H’”. 

Passou o dedo de fora a fora nas letras. E disse, mais uma vez: “Urley”.



*** 

Há esse hábito famigerado de cidades do interior em erguer réplicas miúdas do Cristo Redentor, geralmente no mirante mais alto da cidade. Na minha cidade, em Minas, tem um. E também em muitas outras cidades da região. Não sei bem a origem ou a intenção da coisa. Talvez as cidades do interior da França tenham réplicas da Torre Eiffel, e as americanas cópias reduzidas da Estátua da Liberdade. Não sou especialista no assunto. O fato é que em Socorro há um mirante e nesse mirante há um Cristo: com banheiros, parquinho e uma capela cheia de oferendas. Velas acesas à São Cristóvão, Bento XVI, Padre Marcelo Rossi. 

Isso tudo é muito comum. 

Agora, no mínimo interessante, é um sujeito de trajes crocodilo Dândi, com direito a canivete na cintura, parado dentro de um fusca verde, às 14hs de sábado, observando a cidade lá em baixo. 

Com binóculos – e sem constrangimento. 






07/11/2011

Sr. Walkman



Todo lugar tem seus personagens exóticos. Em Luminárias, há muitos. E ontem me lembrei de um sujeito que andava com um rádio debaixo braço. Antena em riste. Volume alto.

Às vezes era indo pro ribeirão que topava com o sujeito. Ele ia à beira da estrada, numa toada contemplativa - o rádio no colo, trabalhando sereno.

Não era partidário dos fones de ouvido (pra isso bastaria adquirir um walkman, que era o que existia na época). Mas não. Usava um motorádio, com o volume sempre no talo. Era como um desses carros cheios de equipamento de som a zanzar por aí. Compartilhando seu gosto musical com todos que cruzassem seu caminho.

Algumas vezes, voltando pra casa de madrugada, eu ouvia uma música se aproximar por detrás de uma esquina. Então topava com o sujeito. Tranquilo, sintonizando a estação, espantando os chiados à medida que avança.

Sempre sozinho.

Outro fato curioso, embora faça muito sentido, é que o sujeito costumava frequentar com assiduidade os pontos mais alto da cidade. Nalguma vezes, ia até o Morro do Cristo, tentar ampliar ao máximo a capacidade de recepção do aparelho.

Dá pra imaginar: fosse visível ao olho do homem, as ondas, arrastando a beleza triste das modas caipiras, iam cobrir o céu - um céu de Monet. Vento na cara, sorriso largo, empunhando a antena enquanto ia passando delicadamente de uma estação pra outra, como quem pintasse um quadro.

Há uma grande ternura quixotesca nisso tudo.

Costumava ser motivo de risada na cidade. Afinal, parecia não se importar muito com as coisas, exceto com seu rádio. Ou era meio maluco, é o que todos diziam. É o que todo mundo diz quando alguém segue o próprio rumo.

Pra mim, esse sujeito sempre foi uma espécie de walkmam em pessoa. 

Faz muito tempo que não o vejo, e nem sei mais se mora por aqui. Mas se descesse pela rua à noite, e ouvisse um rádio chiando, acho que ficaria feliz.

07/10/2011

Gostava de ficar ouvindo o rádio falar


homem não identificado: APM


Eu não tinha nenhuma expectativa em relação àquela prova pra recenseador em 2000.

Por isso tinha bebido além da conta no sábado. Conhaque. Vodka. O escambau. Acordei no meio da madrugada na casa da minha namorada. E sem entender muito bem o que tinha acontecido na noite anterior.

Tudo bem. Não importava o que tinha acontecido. Nunca levei muito a sério essa coisa de tentar entender o passado. É só um lugar que ninguém nunca visitou. Que você nunca vai visitar. Por isso há tantos boatos sobre o passado. Boatos. Ninguém sabe porcaria nenhuma sobre o passado.

Sei que saí sem me despedir direito. Sem dizer nada. Talvez um grunhido, um beijo de má vontade, uma coisa assim.

Desci pelas ruas vazias, ainda bêbado. E você não imagina como são vazias e silenciosas as ruas de uma cidade tão miúda a essa hora da madrugada. O vigor do silêncio. De repente você está num episódio de O mundo sem ninguém. Nada, exceto carros e caminhões parados de frente as casas de portas fechadas e luzes apagadas e tudo aquilo imóvel como se tudo tivesse sido abandonado.

Vidros suando por causa do sereno. O chiado do transformador num poste de energia. E você pode ouvir os seus passos como em nenhuma outra hora. Às vezes os grilos, ao longe. O barulho de uma televisão que dormiu ligada. E se você der sorte, muita sorte, pode topar com uma coruja descendo em rasante, asas escancaradas, abrindo caminho no vento.

Bati na cama e já levantei como se o tempo não tivesse passado. E se não é o sol escorrendo nos seus olhos, não dá pra acreditar que o tempo passou. Não troquei de roupa. Não comi nada direito. E também não precisei calçar tênis, porque ainda estavam enfiados nos pés. Conferi o dinheiro e o documento enquanto subia no rumo do ônibus, enquanto minha cabeça martelava.

Fiz a prova nas coxas. E não lembro muito bem dos detalhes.

Mas é certo que devo ter usado meu método infalível nas questões de matemática. Letra C de fora a fora. E fora isso, nada. Deixei a sala e avistei uma lanchonete do outro lado da rua. Pedi uma cerveja e duas coxinhas.

De resto, tava tudo bem.

*** 

Não acreditei muito quando me falaram que tinha passado na prova.

Eu conhecia os outros caras que estavam concorrendo pro mesmo lugar que eu. Coisa que não é complicado num lugar onde só há seis mil e poucas pessoas. E os caras eram caras mais velhos e mais estudados, alguns cursando faculdade e tal, enquanto eu ainda me arrastava pra sair do ensino médio.

E acontece que eu tinha passado lá pelas últimas posições. Então acabei ficando com um setor fodido pra caralho. Um lugar no fim do mundo, dentro do fim do mundo. Nos limites do município. Num ermo. Ao pé da Serra do Santo Inácio.

Pra começar, o IBGE não dava condução nem nada. Tampouco ajudinha de custo, nem gorjetinha. Porcaria nenhuma. Eu tinha que me virar. E não era esses cacarecos de hoje, não. Era tudo analógico. Formulários e mais formulários. Mapa, pastas, meia dúzia de canetas Bic. Tudo entulhado na bolsa.

Meu pai resolveu me acompanhar no primeiro dia. Disse que ia comigo no lugar mais complicado.

A gente pegou carona num desses ônibus que vão pra pedreira. E foi até mais ou menos ali na Serra Grande, um pouco antes da entrada pra pedreira do Marcinho. De lá, desceu caminhando. E foi uma hora caminhando até chegar no primeiro ponto marcando no mapa. Uma fazenda dessas maiores, mas não me lembro do nome. Mas me lembro muito bem da fartura do café, da gordura das lascas de queijo fresco.

Foi aí que perguntei sobre uma casinha que tava marcada no mapa. E perguntei como é que chegava lá. O cara disse que não sabia direito, que não ia muito lá pra aqueles lados. Tampouco sabia se esse homem ainda morava lá. E se a casa ainda existia.

Dois ou três sítios depois, já era hora do almoço. A gente atravessou um córrego e entrou numa mata bem fechada. Daí, entrou numa trilha cortando um pasto alto e vazio, sem sinal de criação ou qualquer coisa do tipo. 

Meu pai disse que não tinha nada lá, mas que fazia muito tempo que ele não passava ali. Eu disse que tudo certo. Tudo certo e tudo bem. Mas é que tinha um sinal no mapa, porque no outro Censo alguém tinha passado ali e marcado aquela casa. Morava um homem lá.

Já deve ter morrido, disse meu pai.

Eu olhei aquela trilha cheia de mato e pensei que talvez meu pai tivesse razão.

Mas eu precisava continuar. Então a gente prosseguiu por uns vinte minutos. Chegamos numa cerca de arrame bambo, fios enferrujados e estendidos num tocos de morões podres e frouxos. Logo adiante havia um pomar, todo tomado por capim gordura, pés-de-vassoura, ervas daninhas de todo tipo.

Não tem ninguém, disse meu pai.

A gente foi avançando. E só parei ao ver a casa. Era dessas construções antigas, tijolos de adobe. Telhado colonial com telhas portuguesas, dessas grandes e largas, já escuras de lodo.

Não tem ninguém, disse meu pai.

Bati na porta e comecei a chamar.

Ouvi um barulho de ferrolho e a porta se abriu. Um homem velho, de chapéu enfiado na cabeça. A barba bem feita e bem arrumado. A mãos, bem frias, tremeram ao me cumprimentar. E ele mal me escutava. Demorou um pouco pra entender que eu era do Censo e tal.

Lá dentro, ele nos serviu um café, que tava meio frio. Porque fazia tempo, ele disse, fazia bem tempo que tinha coado. Eu já queria ir embora. Então comecei a aplicar o questionário meio com pressa.

E não me lembro dos detalhes e me arrependo de não ter feito uma cópia daquele questionário e guardado comigo. O pouco que lembro, a impressão geral da conversa <<pra cada pergunta que fazia, o homem me contava uma longa história>>, é que ele tinha três filhos que há seis anos não o visitavam. Não tinha energia elétrica, e não sabia ler. A mulher tinha morrido há uns vinte anos, e ele gostava de morar ali mesmo, sozinho. Só um rádio a pilha.

Meu pai não aguentou e perguntou pro velho o que velho ficava arrumado ali sozinho, sem luz, sem ninguém. O homem disse que cuidava de uma horta nos fundos da casa. E gostava muito do rádio. Gostava de sentar ali no fim da tarde, gostava de ficar ouvindo o rádio falar.

Não lembro de muita coisa.

No caminho de volta, meu pai, que é muito quieto, começou a falar sem parar. Falar que aquele homem tava maluco da cabeça pra ficar ali. Que tava doido de ficar ali enfurnado naquele lugar. Sem luz, sem nada. Sem ninguém. Eu ouvia meu pai falar e só pensava e ir embora. Chegar em casa, colocar uma música e ficar sozinho.

Não lembro de muita coisa. Só sei que volta e meia me pego pensado naquele velho. Sei lá. Nessa coisa de ficar sentado, sozinho, ouvindo o rádio falar.

É mais ou menos isso.

29/09/2011

Cabelo



Porque era muito cabelo, nunca tinha reparado nisso. Tinha reparado outras vezes, mas não como reparava agora. Era cabelo demais. Caía. E talvez porque fossem esses cabelinhos das pernas e dos braços misturados aos pelos pubianos, todos miudinhos, ali jogados, curtinhos e pretinhos estirados e amontoados no chão branco anemia daquele quarto de paredes rosas esmaecidas. 

Havia, claro, uns fios mais longos que ele logo identificava, era cabelo dela. E esses fios mais miúdos e mais raquíticos e desbotados, eram cabelos dele. De resto, os cabelinhos dele, e os cabelinhos dela, caíam misturados sem oferecer condição de saber qual fio era [ou tinha sido], dele ou dela [mas isso pouco importava, no fim das contas]. Ali sentado [enquanto ela passava creme no rosto, lá na outra ponta, de frente ao espelho do banheiro, a torneira jorrando e empurrado o silêncio do apartamento pra fora], ele deixava o queixo cair no rumo do chão branco anemia. Pensou em dizer a ela, já reparou na quantidade de cabelo que a gente perde?, mas não disse. Nem levantou a cabeça. Ficou ali parado olhando aqueles cabelinhos espalhados no chão e de repente imaginou que, se não houvesse vassouras, ou coragem de usá-las, logo os cabelos tomariam conta de tudo. Entupiriam o chão, os lençóis e o cobertor marrom. Emperrariam as dobradiças das portas, sufocariam as fechaduras, embuchariam as maçanetas. Feito o chão do barbeiro que ele gostava de frequentar, só que pior, bem pior que o chão do barbeiro que ele gostava de frequentar. Precisava fazer a barba, ele se lembrou. E levou a mão no queixo e pensou em perguntar pra ela se a barba estava grande demais ou se podia deixar crescer mais um pouco. Talvez apenas aparar as arestas, aqueles fios soltos e emborolados debaixo do queixo. 

Mas não, não disse nada.

Era muito cabelo ali no chão. E mesmo depois que varresse, ele começou a questionar onde ia parar tanto cabelo. Quase todo mundo tinha cabelo, e perdia cabelinhos das pernas e dos braços e os pelos pubianos pelo chão dos apartamentos de piso branco anemia. Onde ia parar tanto cabelo? Quanto tempo levava até que aquele cabelo todo se dissolvesse? O cabelo sumia, assim como se derrete gelo? Apodrecia e virava outra coisa? O que seria o cabelo depois que deixava ser cabelo?

Não sabia. Nunca tinha pensando nisso. Nunca tinha pensado direito. Talvez nunca pensasse direito em porcaria nenhuma, ainda mais em cabelo. O máximo que tinha feito era varrer aqueles cabelinhos, enfiar numa sacola e enfiar no lixo.

Não perguntou nada pra ela.

Ela massageava o rosto, ainda nua de frente ao espelho, e ele se lembrou de como haviam esfregado as coxas, sôfregos, esfregado todo o resto. Ele apertava o corpo dela contra a parede como se empurrasse uma rocha ladeira acima. Os calcanhares às vezes vinham de encontro ao chão num golpe seco, embora o suor escorresse das pernas. As mãos meladas atarracadas nas costas tencionadas.

Olhando aqueles cabelinhos todos, ele pensou que aqueles cabelinhos todos eram os restos da urgência toda que eles tinham de se tocar e se esfregar e sentir o outro como se precisassem assimilar e desaparecer no corpo do outro, naquela urgência toda e pouco se falava e só havia o chiado da fricção da pele contra a pele e esse cheiro empapado nas mãos úmidas e essa urgência atravessada na respiração disparando como se eles estivessem apostando uma corrida.

Agora, só restava aqueles montinhos de cabelo estirados no chão branco anemia. Aqueles cabelinhos eram tudo que restava.

O barulho da torneira sumiu. Quando ele deu por si, ela entrava no quarto, já de frente pra ele. Ela esticou a mão e tocou a cabeça dele. Deu um daqueles beijos que ela sempre dava, assim meio na orelha e no pescoço, escorrendo os lábios na nuca. Passou a mão no rosto dele, como se descansasse os dedos. Depois ergueu-se, indo no rumo do guarda-roupas.

“Tá na hora de aparar essa barba”, ela disse.

“É, você tem razão”.

Ele era capaz de sentir fios de cabelo crescendo. Enraizado nas axilas. Crescendo como uma planta parasita, agarrada a virilha, chupando toda a água do rosto.



13/09/2011

Três e quarenta e cinco, cigarrete, pão de trigo, sapato marrom e nenhum lugar pra ir.


"Há maneira de falhar na solidão, como em sociedade".



Três e quarenta e cinco e o terminal rodoviário de uma cidade pequena como Três Corações a essa hora não é nada acolhedor. Talvez em nenhuma outra hora. Os dois ou três gatos pingados arrastando os pés entre cadeiras vazias, de frente a guichês fechados, são daquele tipo de sujeito que não tem medo de nada. Nenhum lugar pra ir, nada a perder. Completamente livres e soltos. Claro, é o que você imagina. Porque você não sabe nada a respeito desses caras. E no fim das contas, pensando direito, você sabe muito bem que sabe muito pouco sobre as poucas pessoas que lhe são mais íntimas, as que você julga conhecer, e sabe menos ainda sobre si mesmo, [ou pelo menos acha que sabe alguma coisa];  o que dizer desses caras vagando a esmo, dos quais você não sabe absolutamente nada a respeito?

Nada a dizer.

O único lugar aberto no terminal é uma lanchonete fuleira. Mesmo assim, o lugar está apenas tecnicamente aberto. Não dá pra entrar lá dentro. Cadeiras amarelas de plástico empilhadas funcionam como uma espécie de muro de contenção na entrada do lugar. Um cara de tronco quadrado e blusa de militar folheia um livro [a arte de pregar a palavra, alguma coisa assim], enquanto a televisão num volume muito alto e mal sintonizada exibe a imagem de um pastor falando que não adianta o pão de trigo [não, não adianta nada], se o pão do amor não está na sua mesa.

***

Era ali que o cara estava. Bem arrumado. Uma sacolinha enfiada debaixo do braço, de frente ao balcão, espiando o pastor falar, espiando aquele bar na esquina do outro lado da rua, onde uns caras gritavam e riam. Mas eu não reparei nos sapatos do cara.

Eu acendi um cigarro e me lembrei que a bateria do meu celular estava nas últimas. E me lembrei de tudo que tinha acontecido até ali. Das tantas vezes que tinha parado naquele lugar [mas nunca as três e quarenta e cinco]. Uma passagem no bolso, o sol escorrendo no gramado do outro lado, comendo uma cigarrete e o coração cheio de expectativas. E no fim das contas, me pareceu uma boa ideia comer uma cigarrete àquela hora.

Olhei na estufa. Três coxinhas com manchas de gordura, um espetinho esturricado. De resto, travessas de alumínio engorduradas, e aquelas travessas de alumínio vazias me deram vontade de chorar.

“Me empresta o fogo?”, disse o cara.

Eu estiquei a guimba do cigarro e o cara acendeu a ponta de um cigarro de palha. Agradeceu e soltou um  longo e demorado trago, formando uma bola de fumaça que encobriu o rosto do cara.

Não adianta ter o pão de trigo, se o pão do amor não entrar na sua casa.

Um bando de caras saiu do bar do outro lado da rua. Caras de boné e capuz enfiando na cabeça. Falando alto demais. Então de repente se calaram e ficaram parados encostados num carro, do outro lado, olhando.

“O senhor vai pegar o ônibus das cinco?”, eu perguntei pro cara.

“Não, não... Vou pra BH hoje ainda. Tô esperando a assistência social me arranjar a passagem”.

“Certo”.

“Tá foda. Bati perna pra caramba hoje. Até furei o sapato”.

Ele virou o sapato pra mim, e a sola tinha despregado do resto. Um sapato marrom, de couro. E o cara estava sem meias.

“É foda”, eu disse.

“Tem lugar que a gente nem pode ficar assim, esperando amanhecer. Não deixam a gente nem sentar. É muito nóia, irmão. Muito nóia”.


Eu olhei meio disfarçado pros caras do outro lado da rua. Continuavam lá, capuz enfiado na cabeça, conversando baixinho. E me lembrei que tinha que dar um jeito na bateria do celular. Então fui até o balcão. Perguntei pro cara com blusa de militar se eu podia dar uma carga no celular. O cara fez que sim, e disse pra mim ter cuidado, ficar de olho, ficar esperto. E voltou a ler aquele livro.

A arte de crucificar a palavra, eu pensei, seria um bom título prum livro ainda não escrito.

Empurrei as cadeiras amarelas pro lado. Coloquei o celular pra carregar e escrevi uma mensagem. Quando voltei, acendi outro cigarro.

“Bati lá no albergue, mas tá fechado”, disse o cara. “Depois me falaram que não abre mais”.

“É complicado”, eu disse.

“Uns vinte e cinco anos, mais ou menos”, disse o cara, “a gente chegava numa pensão e mostrava os documentos e o pessoal recebia a gente bem demais. A gente tinha documento, sabe? E às vezes até arranjava uma coisa pra gente fazer, um servicinho. Hoje tá complicado. Se não pagar adiantado, não tem conversa. Documento hoje não vale nada”.

Eu não sabia o que dizer. Pensei em oferecer um café pro cara. Mas não queria tirar o pouco dinheiro do bolso àquela hora. E os carinhas do outro lado da rua continuavam olhando.

“Tinha muito gato também. O cara via a gente chegando com uma trouxinha nas costas e já chegava: 'Irmão, tá querendo serviço?', daí arrumava um alojamento e um trampo pra gente. Às vezes serviço de roça, qualquer coisa. Hoje não tem mais isso. No tempo da ferrovia também era beleza. Carregamento de calcário, brita, carvão. Era pesado pra caramba. Mas tinha muito serviço”.

Eu ouvia e não sabia o que dizer. Fiquei pensando como a vida daquele cara tinha tomado aquele rumo. E por que tinha tomado aquele rumo. À deriva. Conduzido aquele cara até aquele lugar, completamente sozinho, agarrado a esperança de conseguir uma passagem. Uma passagem e mais nada.

Uma gaiola  saiu à procura de um pássaro, como diria Kafka.

“Pra entrar numa firma aí, precisa de comprovante de residência, mas pra alugar uma casinha aí, precisa de fiador. Mas ninguém conhece a gente, cara. Como é que arranja fiador?”.

Pensei em dizer pro cara [citando Kafka] que há esperança, esperança infinita, mas não para nós. Mas não. Não disse nada.

Dois carinhas saíram do bando lá do outro lado e vieram caminhando na direção da rodoviária.

Olhei pros lados, sei lá procurando o quê. Abaixei a cabeça e continuei ouvindo o cara falar. Ouvindo o pastor falar de pão, trigo, amor.

O cara de capuz chegou e pediu um cigarro. Olhou pra trás enquanto o cara de casaco militar mexia nos maços de cigarro. E não sei porque, mas olhei pro cara. Os olhos do cara estavam vidrados, no meio do rosto recortado pelo capuz. Então eu abaixei a cabeça e fiquei olhando pros sapatos marrons do cara.

Um dos caras do outro lado da rua gritou alguma coisa. Barulhos de portas de carro batendo. Barulhos, apenas. E quando dei por mim, estava tudo quieto demais, o carinha de capuz tinha ido embora.

O pastor continuava falando de pão, amor, trigo. E como a palavra do senhor é transformadora. Aceite o Senhor na sua vida, dê a mão à Jesus e deixe que ele conduza a sua vida no caminho da glória e da felicidade. O caminho da paz, da vitória, do amor incondicional. Estenda a mão ao mestre Jesus. Estenda a mão, meu irmão!

Estiquei a mão pro cara. Deixei o resto do meu maço de cigarro com ele. Uns quatro ou cinco cigarros. Meu ônibus já estava no terminal. Entrei, joguei a mochila na poltrona do lado. Puxei uma barra de cereal na sacolinha. E quando o ônibus saiu, desabei a chorar.